Alexandres, o grande: a guerra que não acabou

Livro de Pressfield fala da inglória luta de Alexandre no Afeganistão

Fabiano Onça Publicado em 01/08/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Campanha no Afeganistão

Steven Pressfield, Suma de Letras, 320 páginas, R$ 39,90

Muitas e muitas laudas poderiam ser utilizadas para se falar mal do gênero denominado “romance histórico”. Uma das coisas mais irritantes, por exemplo, é ver-se chapinhando na pura imaginação do autor, especialmente quando ele insere todos os seus traumas psicológicos na boca do personagem principal. É assim que temos aquela sensação de déjà vu ao encontrar, nos diálogos, alguns trechos que lembram os velhos e conhecidos filmes de ação de Hollywood. Ainda assim, desde a Antiguidade, este gênero foi sempre devorado com avidez pela grande maioria dos mortais que nunca pisou em um campo de batalha. Porque, junto com a arenga romanceada, quase sempre existe algo que vale a pena nesses livros, ainda mais quando o autor se esmerou na pesquisa histórica. Este é o caso do livro de Steven Pressfield, autor que já atiçou a imaginação de muita gente com seu livro anterior, Portões de Fogo, sobre as Termópilas e os espartanos.

Desta vez, Pressfield toma como cenário de sua narrativa uma das campanhas mais “obscuras” de Alexandre, o Grande – sua campanha na antiga Báctria, Transoxiana e Sogdiana – o atual Afeganistão. A escolha, claro, não é gratuita. Afinal, a História é, antes de mais nada, a possibilidade de, olhando o passado, reinterpretar o que enxergamos no presente. E para o público principal deste autor, os americanos, o Afeganistão tornou-se, nos últimos anos, um país muito mais próximo do rincão longínquo que antes era.

Do sonho à amargura

A história narra o amadurecimento do recruta Matthias, que chega verde ao Afeganistão, cheio de sonhos e esperanças, e termina duro como pedra e amargo como fel. Para quem gosta de História, a narrativa é o de menos. O que interessa é o modo como Pressfield detalha o cotidiano dos soldados. Desde as barracas de campanha para 16 homens (a unidade básica do exército macedônico, tal qual o contubérnio romano) até a composição do pequeno escudo utilizado pelas tropas de cavalaria.

É aí que vale a pena ler o livro de Pressfield. Seu apego aos detalhes não só do combate, mas também da logística, da alimentação, das roupas e de tudo o que circunda a vida de um soldado em campanha demonstra sua habilidade como historiador. Suas descrições sobre a paisagem inóspita e bela do Afeganistão conseguem enriquecer o leitor, deixando-o curioso para saber mais.

Também é inevitável fazer comparações entre a campanha de Alexandre e a empreendida hoje pela Otan em solo afegão. No livro, Pressfield martela, página sim, página não, que a guerra travada lá por Alexandre era diferente da tradicional guerra campal, em que dois exércitos se defrontavam buscando um resultado decisivo. Ali, no Afeganistão, emboscada era a palavra de ordem. Quase dá para se pensar que o livro de Pressfield é sobre esta guerra atual, e não sobre uma, travada há quase 2,5 mil anos. Também é possível vislumbrar o preconceito que ronda a visão do autor, já que suas descrições sobre os nativos afegãos são quase uma compilação dos romances de aventura do século 19, nos quais os nativos eram descritos como selvagens cruéis, mas soberbos guerreiros.

É por isso que, ao fim e ao cabo, torna-se tolerável passar pela lengalenga romântica e pelos surtos de heroísmo não-realizado do autor. Porque o que Pressfield oferece em troca é História na veia, é uma visão do cotidiano daqueles soldados embasada por conhecimento real. E isso vale sempre a pena para quem gosta de História.

 

Outros Livros

A Europa no pós-guerra

A trajetória de 34 países depois do grande conflito mundial

Pós-guerra: Uma História da Europa desde 1945

Tony Judt, Objetiva, 880 páginas, R$ 79,90

Talvez antes, durante a Guerra Fria, fosse muito difícil escrever um livro destes, pela dificuldade em equilibrar a análise em meio à tempestade ideológica da época. Mas hoje, após dez anos de pesquisa, o livro de Tony Judt cobre com brilhantismo essa lacuna. Ele analisa, de modo comparado, a trajetória de 34 países europeus durante os anos posteriores à Segunda Guerra. Leitura obrigatória tanto para leigos quanto para entendidos no assunto.

Fascistas

Michael Mann, Record, 560 páginas, R$ 33,00

O livro de Mann é excepcional porque revolve uma terra que muita gente gostaria de deixar intocada: como surgiu o fascismo, suas propostas, as condições históricas nas quais pôde se desenvolver. O autor não só trata dos casos clássicos, como a ascensão e derrocada de Mussolini, como também aponta, nos dias de hoje, lugares onde esse sistema ainda existe, mesmo que maquiado.

Heróis e Vilões

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É um sentimento quase arquetípico do ser humano querer saber mais sobre os grandes heróis (e vilões) da História. É isso que faz McLynn, um especialista em biografias de grandes líderes. Ele escolheu seis grandes nomes da História para deitar os olhos: Spartacus, Átila, Ricardo Coração de Leão, Fernão Cortez, Tokugawa Ieyasu e Napoleão. Bom livro para quem quer se iniciar no tema.

Prezado Sr. Stalin

Susan Butler, Zahar, 424 páginas, R$ 59,00

Se existe alguma coleção de cartas importante, com certeza, é esta, fruto da correspondência entre Stálin e Roosevelt, iniciada em 1941. Ao todo, são 304 cartas, por onde se espraiam todos os grandes temas que dominaram a mente dos dirigentes dessas duas grandes potências: a divisão do espólio nazista entre os vencedores, a invasão do Japão e até mesmo a criação da ONU. História em primeira mão.

Em Busca de Fátima

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Relatos sobre o êxodo dos palestinos logo após a criação do Estado de Israel são sempre amargos. Ainda mais quando analisados de uma perspectiva autobiográfica, como faz Ghada. Porém, neste livro, encontra-se uma visão que transcende a revolta e aponta, com sensibilidade e espírito crítico, não apenas as diferenças, mas também as semelhanças entre árabes e judeus, ambos presos inexoravelmente à mesma terra.