Amor: Todos dizem eu te amo

Amor: Todos dizem eu te amo

Lia Hama Publicado em 01/05/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

O amor acompanha a humanidade desde sempre. É o que os antropólogos chamam de “universal”, ou seja, está presente em todas as culturas. Mas as formas que ele assumiu ao longo do tempo mudaram, e muito. Essas variações contam uma incrível história de quem somos nós

"Mais encantadora que todas as outras mulheres, luminosa, perfeita. Uma estrela na linha do horizonte. Seus lábios são encantadores. Seus cabelos refulgem como a lazulita. Seus braços são superiores ao ouro em esplendor. Seus dedos fazem-me ver pétalas, as de lótus lhes são semelhantes. Suas curvas têm a forma mais adequada, seu andar é nobre. Meu coração seria um escravo se ela me envolvesse com seus braços.”

O trecho acima faz parte de um poema escrito há mais de 3 mil anos, no Egito.Trata-se de um dos primeiros registros sobre amor de que se tem notícia na história da humanidade. Nele, o autor desconhecido fala sobre o fascínio exercido pela mulher amada, comparando-a com flores, frutas, pedras preciosas e corpos celestes. Como se vê, nada que não pudesse fazer parte hoje da música-tema da novela das 8: “Fonte de mel nos olhos de gueixa. Choque entre o azul e o cacho de acácias (...) Areias e estrelas não são mais belas”. A verdade é que nosso vocabulário amoroso é muito parecido com o dos antigos egípcios, que, por sua vez, não pensavam tão diferente assim dos antigos chineses, gregos e romanos. Como explicar que as imagens usadas para descrever o amor hoje sejam as mesmas dos nossos ancestrais?

Segundo o professor César Ades, do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, há uma predisposição para o amor prefigurada em nosso sistema nervoso, em nossos hormônios, na diferenciação biológica do masculino e do feminino. “Essa característica está presente em todas as culturas, nos mais diferentes povos. Em outras palavras, o amor é universal”, diz César. As formas que ele assumiu ao longo da história, porém, variaram muito. “O amor é regulado por princípios e costumes culturais. Ama-se de acordo com os modelos da época e do grupo.” Esses modelos são expressados nos poemas, nas canções, nas novelas, nos casos que uma pessoa conta a outra, nas reprovações ou incentivos que certas formas de amar recebem em seu meio social. Ou seja, o amor varia de acordo com a cultura e os gostos de cada época, mas a essência dessa emoção é imutável. “Não se pode dizer que o amor seja só uma criação da cultura. A cultura não cria, apenas influencia. Se os homens não desejassem as mulheres e vice-versa não haveria base para a cultura exercer seu papel”, diz César.

A maioria dos especialistas acredita que o amor, assim como a família, nasceu com a descoberta do fogo. Ali, confinados em cavernas, reunidos em volta da fogueira, homens e mulheres estabeleceram as regras de uma célula social pré-histórica: divisão de funções, cuidados especiais com os filhos e parceiros. Mas contar a história do amor antes da invenção da escrita tem suas limitações. Os registros pictográficos dessa época até mostram o que parecem ser cenas de intimidade entre casais, famílias e sexo, mas não dá para saber exatamente como eram os relacionamentos e sentimentos amorosos. “Não temos como saber quais eram as motivações da escolha erótica nessa fase, mas concluímos que, quanto mais primitivas as relações sociais, mais instintiva ela devia ser”, diz o historiador americano Morton Hunt, autor de A História Natural do Amor.

“Em nosso passado de coletores e caçadores, a escolha amorosa era muito mais livre e desprovida de laços sociais”, diz Helen Fisher, antropóloga da Universidade Rutgers, nos Estados Unidos. Segundo ela, autora do recente Por que Amamos, nas sociedade nômades, o mais comum era escolher o parceiro por afinidade, pelo desejo de ter uma determinada pessoa como companhia e pelo simples prazer de mantê-la por perto. Alguns diriam que eis aí uma bela definição de amor.

A estrutura familiar como a conhecemos só se consolidou quando o homem se tornou sedentário, o que deve ter acontecido há cerca de 12 mil anos. Ao redor dos campos de trigo que floresciam nas terras férteis próximas a fontes de água limpa, homens e mulheres viviam do que encontravam, até que perceberam que o que gerava novas plantas eram as sementes. A partir daí, ter um pedacinho de terra era possuir uma reserva de alimentos e, portanto, passou a ser importante. Tanto quanto poder contar com braços para ajudar no trabalho. Pessoas que, em troca, ficariam com suas terras e tomariam conta de você. Ou seja, passou a ser importante gerar descendência. “A partir do momento em que nossos ancestrais se assentaram e introduziram a agricultura, os casamentos se tornaram negócios feitos para a troca da propriedade ou para alianças”, afirma Helen Fisher.

Cara-metade

“Há pessoas que nunca teriam amado se não tivessem ouvido falar de amor”, escreveu o francês La Rochefoucauld, no século 17. O que ele queria dizer é que o amor é só uma palavra e que ela será sempre uma representação do “verdadeiro” amor. O americano Morton Hunt concorda. “A história do amor é uma história daquilo que se diz sobre o amor.” Por isso, segundo ele, foram os gregos que inventaram o amor. “É claro que as pessoas já se amavam muito antes, mas os gregos, que tinham uma explicação para tudo, foram os primeiros a criar uma palavra para isso”, afirma Hunt. Da Grécia, aliás, vem boa parte do dicionário amoroso que usamos até hoje: afrodisíaco, erotismo, hermafrodita, ninfomania e poligamia.

A civilização que gerou filósofos como Sócrates e Aristóteles discutia política, ciência e poesia durante os chamados simpósios, festas nas quais os participantes partilhavam uma grande taça de vinho. É em torno de uma delas que se desenvolve O Banquete, célebre obra de Platão, uma das mais reveladoras sobre o pensamento grego a respeito do amor. Lá surgiram idéias como “almas gêmeas” e “cara-metade”, quando um dos convidados, Aristófanes, recorreu à mitologia para falar sobre a origem do amor. Segundo ele, éramos seres andróginos de duas cabeças, quatro pernas e quatro braços. Temendo que o poder dessas estranhas criaturas ameaçasse os deuses, Zeus dividiu-as em duas outras – e desde então carregamos a sensação de estarmos sempre incompletos, em busca da metade afastada de nós.

Outro conceito grego, que influenciou para sempre o modo de amar, é a idéia de que o amor só era possível entre pessoas iguais, ou seja, da mesma classe social, do mesmo nível intelectual. Os gregos acreditavam, ainda, que o verdadeiro amor só acontecia entre pessoas do mesmo sexo. Sócrates dizia sentir um fogo quando via outro homem e até Aristóteles, que considerava o homossexualismo uma “mórbida anormalidade”, defendeu em sua Ética a idéia de que “o amor e a amizade são plenos somente entre os homens.”

Platão acreditava num amor puro, abstrato, fundamentado na parceria intelectual e espiritual. O chamado amor platônico, no entanto, não excluía o contato físico. Era uma afeição elevada a um plano ideal, que transcendia o contato físico, mas não o abolia. Com a conquista da Grécia por Roma, por volta do século 2 a.C., muito da cultura grega foi assimilada pelos romanos. Mas tanto a idéia de amor entre iguais quanto a de amor idealizado foram descartadas.

Os romanos adoravam se divertir e não valorizavam tanto assim os assuntos “superiores”. Além disso, eles tinham pavor da idéia de serem escravizados por uma paixão. Segundo o livro História da Vida Privada, coordenado por Philippe Ariès e Georges Duby, “quando um romano se apaixonava, seus amigos consideravam ou que perdera a cabeça por uma mulher devido a um excesso de sensualidade ou que moralmente caíra em escravidão”. O amor e o sexo, porém, eram livremente discutidos e abordados pela arte romana. Uma das obras mais conhecidas do Império, o poema Arte de Amar, de Ovídio, é um verdadeiro manual de sedução, citado até hoje por poetas e apaixonados em geral.

Pecado e cortesia

Após a queda do Império Romano, no século 5, e as invasões bárbaras, ninguém mais estava a salvo. A cultura, a vida coletiva, o mundo como se conhecia desapareceu. No lugar dele, violência, caos social, conflitos. A única coisa a se apegar era a religião, que passou a dominar a vida social. O amor confundia-se com o sentimento religioso e o casamento se tornou uma cerimônia cristã. Padres celibatários pregavam a total renúncia ao erotismo e o sexo passou a ser associado ao pecado. Tanto quanto as mulheres, descendentes de Eva (a tentadora Eva que levou o pobrezinho do Adão para o mau caminho). Santo Agostinho, o principal pensador cristão da época, já defendia em sua obra Confissões, de 391, que os homens deviam renunciar ao desejo e ao sexo. Amor só por Deus e sexo só com fins de procriação. É claro que ninguém em sã consciência parou de amar e de fazer sexo por causa de Santo Agostinho. Mas quem o fazia por prazer ou por amor era tido como pecador e perigoso.

Numa época em que as mulheres eram parte das propriedades e os nobres tinham direito de deflorar as noivas de seus vassalos, surgiu na França, no século 12, o amor cortesão (ou cortês, em sua tradução mais comum), que foi imortalizado em poemas, trovas e romances sobre casais como Lancelot e Guinevere. No romance O Cavaleiro da Charrete, de Chrétien de Troyes, o amor de Lancelot o faz capaz de proezas incríveis e de ilimitada obediência à sua amada. Eis o roteiro do amor cortesão: um cavaleiro escolhe uma mulher casada, bela e distante, a quem passa a idealizar. No começo, ele apenas espia sua senhora à distância. Com o tempo, apresenta-se a ela como um humilde servo, prometendo lealdade e bravura. O cavaleiro jura se submeter a qualquer provação imposta pela dama e, a cada teste, sobe um degrau em direção a ela. Finalmente ela lhe concede um beijo e talvez o deixe ver (mas não tocar) seu corpo nu.

“O amor cortesão tornou-se um dos clichês de uma Idade Média imaginária”, afirma a historiadora francesa Danielle Regnier-Bohler, no Dicionário Temático do Ocidente Medieval. Para ela, no entanto, essa descrição é meramente literária (é bom lembrar que Lancelot e Guinevere, se existiram, não viveram no século 12, mas no 5). “A mulher como objeto da súplica amorosa reflete o modelo da sociedade feudal. O homem está a serviço da senhora, como um vassalo deve obediência a seu senhor”, diz Danielle.

Razão e emoção

Com o fim da Idade Média, a reforma protestante e a transformação das aldeias em grandes cidades, a influência da Igreja sobre a vida das pessoas diminuiu. Nos séculos 15 e 16, a religiosidade dá espaço à razão, à ciência e à lógica. Sobre o amor e as formas de amar, o efeito do Renascimento foi uma revalorização dos desejos individuais. “Se o casamento permanece sendo a forma encontrada por aristocratas, banqueiros e comerciantes de se associar e fechar negócios, o discurso amoroso passa a cultuar a transgressão de tais arranjos”, diz Morton Hunt. É o exemplo de um dos casais mais famosos de todos os tempos, imortalizado pelo inglês William Shakespeare em 1562. Romeu e Julieta, filhos de famílias rivais, queriam se casar por amor e acabaram mortos de forma trágica. A idéia de que jovens casais deviam escolher seus pares, viver sozinhos e morar em sua própria casa só surgiria no século 17.

O século 18 é o da racionalidade. A teologia e a metafísica dão lugar à matemática e à física e o amor ganha códigos de ética e até de etiqueta. O símbolo maior do galanteio racional foi Luís XIV. Modelo da aristocracia, o Rei Sol da França estabeleceu um intrincado código de símbolos que servia para regular o jogo amoroso, mas também para suprimir qualquer arroubo de emoção diante da razão. A figura literária que representa o amor do século 18 é Don Juan. Impecavelmente trajado e educado na arte da conquista, sua sedução mecânica é praticamente irresistível às mulheres. Seu amor é planejado, afetado e falso. O amor é reduzido a um malicioso esporte, como no filme Ligações Perigosas, em que os personagens vividos por Glenn Close, John Malkovich e Michelle Pfeiffer se envolvem num jogo de sedução em que a ascensão e a influência social são a meta. Outro ícone dessa fase é Casanova. Nascido em 1725, o aventureiro tinha uma mente brilhante – era astrônomo e filósofo e escreveu um livro no qual dá dicas práticas para se dar bem no amor, uma espécie de manual de auto-ajuda.

Os ideais de nobreza e de direito adquiridos pelo Renascimento entraram em colapso com a revolução burguesa, na França, e a ascensão do capitalismo, durante a Revolução Industrial, na Inglaterra, colocando em xeque a autocracia da Igreja e o direito patriarcal. Agora o que é nobre, digno de qualquer sacrifício, é o amor. Aliás, quanto mais sacrifício, melhor. O amor romântico é uma força arrebatadora, uma espécie de onda gigante e incontrolável, que enleva poetas como lorde Byron e Percy Shelley, para quem a única maneira autêntica de viver é confiar em suas emoções e ser verdadeiro em seus desejos. O amor muitas vezes era associado ao sofrimento e à morte. O romance Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, que trata da paixão irrefreável do protagonista pela bela Charlotte e cujo limite é a morte, provoca uma onda de suicídios na Europa.

Enfim livres

O historiador Eric Hobsbawn, em Era dos Extremos, diz que o século 20 é o século da mulher. Para ele, nenhuma revolução atingiu parcela tão grande da população mundial quanto a emancipação feminina. Do direito de voto aos métodos contraceptivos, do divórcio ao acesso ao mercado de trabalho, nunca tanta gente foi envolvida em transformações tão importantes em tão pouco tempo. “A pílula e as discussões sobre o aborto, o feminismo e os movimentos de minorias, a progressão das uniões livres, os corpos expostos na mídia e na propaganda, enfim, a liberação da palavra e do olhar mudou completamente a vida das pessoas e sua maneira de ver o amor”, diz a historiadora Mary Del Priore, autora de História do Amor no Brasil.

A igualdade entre homens e mulheres e a liberação sexual têm papel definitivo na forma como amamos hoje. Primeiro, viraram de cabeça para baixo os papéis que cada gênero desempenhava nas relações eróticas. Depois, desconectaram novamente o amor dos relacionamentos. A partir desse momento, tudo sobre amor e sexualidade é abertamente discutido e os parceiros devem entrar num acordo para que a relação viceje. E, mais radical ainda, qualquer uma das partes pode mudar de idéia a qualquer momento. Não precisamos mais estar casados ou ter planos eternos para continuarmos nos amando. Aliás, em alguns casos, os relacionamentos podem até atrapalhar o amor, como defende a professora Laura Kipnis, da Universidade Northwestern, nos EUA. Para ela, a forma como os relacionamentos se desenvolvem hoje acabou com a liberdade individual de amar (veja entrevista na pág. 34).

Completamente desconectado da família e até do sexo, de que sobreviverá o amor? Para Helen Fisher, em seu mais recente livro, Por que Amamos, o amor continua e continuará vivo alimentando-se de sua capacidade de mudar e se adaptar. “Ele conta com 6 bilhões de aliados que não desistem de procurá-lo e de exaltá-lo”, ela diz. Da mesma forma que os antigos egípcios faziam. No fundo, no fundo, a sensação é de que, nos assuntos do coração, as coisas mudam. Mas permanecem no mesmo lugar.

 

Do rapto de noivas ao casamento por amor

Homens e mulheresjuntam os trapos pelosmais diferentes motivos

Casamentos por seqüestro eram comuns na Pré-História e vigoraram até o início da era cristã, em locais como Grécia, Roma e norte da Europa. “Quando um homem via uma mulher que ele desejava, geralmente de uma tribo vizinha, ele a tomava à força. Para raptar a noiva, ele requisitava a ajuda de um amigo guerreiro”, afirma Diane Ackerman no livro Uma História Natural do Amor. O mito de fundação de Roma fala sobre um dos mais famosos episódios do gênero: o rapto das sabinas. Segundo a lenda, após a fundação de Roma, em 753 a.C., Rômulo decidiu povoar a cidade e, para isso, mandou raptar as jovens do povo vizinho, os sabinos. Revoltados, eles resolveram revidar. Mas era tarde demais: as moças já haviam se enamorado dos romanos e, graças à intervenção delas, assinaram um tratado de paz. Na Roma antiga, o casamento foi instituído como forma de garantir uma linhagem legítima. Havia dois tipos de casamento: o com manus e o sem manus. No primeiro, o matrimônio supunha a transmissão da autoridade paternal ao marido, que se tornava o tutor da mulher. No segundo, não havia transmissão da autoridade paternal e a mulher, assim como o homem, podia pedir o divórcio. Em ambos os casos, o casamento não envolvia o Estado, tratava-se apenas de uma cerimônia privada, sem juiz de paz ou papéis a serem assinados. O noivo oferecia um anel à noiva, que o usava no mesmo dedo dos dias de hoje. Os convidados jogavam sementes no casal, símbolo de fertilidade. Rituais bastante familiares para nós, já que muitos desses costumes pagãos foram incorporados pelo casamento cristão e se mantêm até hoje. O casamento romano basicamente tinha como finalidade a produção de filhos e o estabelecimento de alianças. Continuou assim no período medieval, quando o casamento pouco tinha a ver com amor ou atração mútua. “Foi só a partir da Revolução Francesa, no fim do século 18, que as pessoas começaram realmente a poder escolher com quem iriam se casar”, afirma Diane Ackerman. A Revolução Francesa de 1789 também derrubou a proibição ao divórcio imposta pela Igreja Católica durante a Idade Média. A França instituiu o divórcio por meio da Constituição de 1791, que definia o matrimônio apenas como um contrato civil, que poderia ser desfeito. Em 1816, Luís XVIII reinstalou a indissolubilidade do casamento. Apenas em 1884, com a separação do Estado e da Igreja, o divórcio foi instituído de vez no país. No Brasil, ele foi regulamentado em 1977, após uma campanha liderada pelo senador Nelson Carneiro.

Arte apaixonada

Como o amor foitratado e retratado nosúltimos 5 mil anos

Memi e Sabu

No antigo Egito, estátuas de casais eram colocadas para enfeitar as tumbas da elite local e simbolizavam a união eterna. Na inscrição ao pé da estátua, o casal é identificado como Memi e Sabu. Apesar de o texto não especificar a relação entre eles, provavelmente eram marido e mulher.

(2575-2465 a.C.)

Vênus de Milo

Os gregos adoravam dois deuses do amor, Afrodite e Eros, a quem eles recorriam para pedir ajuda ou para se lamentar. A estátua grega mais conhecida do mundo é a de Afrodite (chamada pelos romanos de Vênus), que também era a deusa da beleza.

(século 2 a.C.)

Oferenda do Coração

Durante a Idade Média, surge a idéia do amor cortês. Esta tapeçaria é um exemplo do culto do homem à mulher amada – na figura, ele oferece literalmente seu coração a uma bela mulher medieval.

(início do século 15)

O Nascimento de Vênus

Temas da mitologia grega, incluindo os deuses do amor, são retomados durante o Renascimento. Nesse quadro, o italiano Sandro Botticelli representa o mito do nascimento de Vênus a partir da espuma do mar.

(1484)

Eros e Psiquê

A história de Eros (ou Cupido para os romanos) e Psiquê é um exemplo de amor entre deuses e mortais, tema recorrente entre os antigos gregos que foi retomado pelo Neoclassicismo.

(1798)

Boating

Quadro do francês Édouard Manet retrata cena da vida cotidiana dos casais do século 19. Jovens que escolhem seus próprios acompanhantes e passeiam sozinhos, como esses dois, que navegam tranqüilos – e apaixonados – no rio Sena.

(1874)

O Beijo

Escultura do francês Auguste Rodin, uma das mais famosas do mundo, representa os amantes adúlteros Francesca e Paolo, que, na obra do italiano Dante Alighieri, foram mandados para o Inferno por seu amor ilícito. Ela simboliza a tragédia da paixão proibida e sem esperança.

(1886)

... E o Vento Levou

No fim dos anos 30, foi lançado um dos maiores sucessos do cinema de todos os tempos. A história de amor entre a órfã Scarlett O’Hara e o aventureiro Rhett Butler retrata as dificuldades de uma paixão para vencer os limites impostos pela sociedade patriarcal e machista.

(1939)

O Beijo do Hôtel de VillE

O francês Robert Doisneau fotografou, em 1950, um casal até então anônimo se beijando em frente ao Hôtel de Ville, em Paris. A foto virou um símbolo do amor público, desinibido, livre de qualquer barreira social.

(1950)

Marilyn

O quadro do americano Andy Warhol utiliza o rosto da atriz Marilyn Monroe, protagonista de uma série de filmes românticos, como objeto de um conjunto de retratos. É um exemplo da arte e do amor que podem ser produzidos e reproduzidos infinitamente para o consumo de massa.

(1964)

O beijo

O espanhol Pablo Picasso pintava todas as mulheres por quem se apaixonava. E foram muitas. Em seus quadros elas surgiam em movimento, em transição.

(1969)

Closer

O filme do diretor alemão Mike Nichols mostra os complexos e movediços relacionamentos entre um jornalista, uma stripper, uma fotógrafa e um médico. A troca de casais é um símbolo do amor desconectado das convenções sociais.

(2004)

 

Beijos, beliscos e pisadelas

As incríveis histórias dos gestos de amor

Algumas práticas amorosas do passado continuam fazendo sucesso até hoje. É o caso do french kiss, o beijo de língua, que ganhou esse nome dos ingleses no século 17. Na época, os puritanos da Inglaterra ficaram impressionados com o grau de libertinagem que caracterizava o beijo em terras gaulesas e batizaram o voluptuoso gesto de beijo francês. O curioso é que, na França, ele ficou conhecido como english kiss – os franceses associavam a palavra à importância que os ingleses davam àquela carícia labial, que para eles, franceses, era tão comum. No Japão, o beijo é chamado de kissu (importado do inglês kiss) e só começou a ser feito em público pelos casais nas últimas décadas, com a influência da cultura norte-americana no país. Outros gestos não fariam sucesso hoje. É o caso das pisadelas e dos beliscões, práticas trazidas de Portugal que se tornaram populares no Brasil no século 19. “Tratava-se de pisadas no pé e beliscões que deixavam uma marca roxa no braço da amada”, diz a historiadora Mary Del Priore. Outra prática comum era esmigalhar limões-de-cheiro no corpo da dama. “Não faltaram pedidos de casamento que tiveram como motivo um limão-de-cheiro comprimido contra um braço bem-feito", afirma Mary Del Priore.  

Saiba mais

Livros

História do Amor no Brasil, de Mary Del Priore, Contexto, 2005

Percorre 450 anos das idéias, práticas e modos de amar no Brasil.

História do Casamento no Ocidente, Jean-Claude Bologne, Temas e Debates, 1999

Dois mil anos de casamentos.

Por que Amamos, Helen Fisher, Record, 2006

As mais recentes descobertas de diferentes especialidades científicas sobre o amor.

Uma História Natural do Amor, Diane Ackerman, Bertrand Brasil, 1997

Raízes históricas, culturais e religiosas do amor.

Filme

Ligações Perigosas, 1989

O amor na idade da razão.

 

Post-Scriptum

Contra o amor

Lia Hama

Contra o Amor – Uma Polêmica é o provocativo livro da americana Laura Kipnis, 49, que ficou conhecida por colocar em xeque alguns dos conceitos mais sagrados da sociedade contemporânea, como o casamento e a monogamia. Professora de Comunicações da Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos, Laura diz que a forma como os relacionamentos se desenvolveram fez com que o espaço da liberdade individual sucumbisse à tirania doméstica. “O casamento se transformou numa prisão em que um cônjuge é o carcereiro do outro”, ela diz. Apesar das opiniões contundentes, a autora se declara uma romântica.

História – Por que o casamento é uma prisão?

Laura Kipnis – Não sei como é nos outros países, mas, pelo menos nos Estados Unidos, as formas como os casais vivem e organizam suas vidas são muito restritivas. Um dos motivos de infelicidade está ligado à quantidade de restrições que surgem dentro de um relacionamento. Você controla a outra pessoa e é controlado por ela. Há uma troca de liberdade por amor.

Que tipo de restrições?

Há restrições para tudo. Você não pode sair de casa sem dizer aonde vai. Não pode deixar de falar a que horas vai voltar, não pode ir a uma festa sozinho ou vestir roupas que “não combinam”. Não pode comer o que quer, usar um ”tom de voz inadequado”, nem ser amigo de quem seu parceiro não gosta; não pode dirigir rápido demais, ou mais rápido do que o que o outro define como rápido. Não pode sair da cama logo depois do sexo...

Mas não foi sempre assim?

Não sei dizer. O que sei é que, em nenhum momento, o amor esteve tão refém do casamento, do relacionamento estático e formal, como no século 21.

Mas não é possível ter um casamento sem esse tipo de restrição?

O problema é o quanto há de ansiedade nesse tipo de situação. O amor se tornou algo tão essencial que sentimos um medo enorme de que o outro se apaixone por outra pessoa. Por isso as restrições. Trata-se de uma tentativa de controlar o outro para que ele não nos abandone.

Como evitar essa ansiedade?

Autoconhecimento é uma coisa importante. Saber o que é seu problema e o que é problema do outro. Há muita projeção e cobrança dentro de um relacionamento. Da forma como ocorre hoje, muitas vezes o outro acaba se tornando o único responsável pela nossa felicidade. É uma atitude infantil.

Solteiros são mais felizes?

As estatísticas parecem dizer que sim. Nos Estados Unidos, apenas 38% das pessoas casadas afirmam estar felizes com o casamento. Mas cada situação traz seus problemas. Quando você está solteiro, tem mais liberdade, mas ao mesmo tempo sente mais solidão. Mas dentro de um casamento você também pode se sentir sozinho. É difícil generalizar.

Qual a sua opinião sobre séries de TV como Sex and the City?

É uma fantasia sobre a vida de solteiro. Mas o público de certa forma se reconhece nela ou ela não seria tão popular. Há a idéia de que em algum lugar existe um homem perfeito, capaz de satisfazer todas as necessidades de uma mulher. O problema é que esse homem não existe. Em Sex and the City, eles são sempre esquisitos, peculiares e decepcionantes. É uma encrenca atrás da outra, o que não deixa de ser divertido.

Você acredita em monogamia?

Se você tem o desejo de dormir apenas com uma pessoa, então você encontra a forma ideal de monogamia. Mas se você tem que “trabalhar” pela monogamia, se você não tem vontade de ser monogâmico, então essa situação se torna repressora.

Por que o adultério é tão freqüente?

Em parte porque muitas vezes uma só pessoa não é capaz de satisfazer todas as nossas necessidades. Mas podem existir outras motivações. Pode ser o desejo de se sentir jovem, de experimentar coisas novas, de ter algum tipo de liberdade quando ela é quase inexistente ou simplesmente a necessidade de se apaixonar por si mesma. Muitas vezes o que acontece com casais que estão há muito tempo juntos é que eles conhecem muito um ao outro e já não há novidades. Surge então a sensação de que seu parceiro está cansado de você, de que você não exerce mais nenhum fascínio, de que você deixou de ser uma pessoa atraente.

E aí precisamos de outra pessoa que nos faça sentir novamente atraentes?

Sim.

Se o casamento é tão ruim, por que as pessoas insistem tanto em se casar?

As pessoas são otimistas. Há algo de utópico em torno do amor. A idéia de se fundir com outra pessoa, de se sentir completa, pode ser a coisa mais prazerosa que existe.

Você é casada?

Não.

Já se casou alguma vez?

Não vou entrar em detalhes, mas passei a maior parte da minha vida adulta em relacionamentos longos.

Acredita no amor?

Sim. Definitivamente.