Infância: anjos armados

Em 25 países, crianças lutam em guerras

Eduardo Campos Lima Publicado em 11/08/2009, às 03h40 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Na batalha de Leuctra, no ano 371 a.C., crianças de Esparta pegaram em armas. Em 1415, em Agincourt, os franceses massacraram os escudeiros britânicos, que tinham menos de 15 anos de idade. Existem vários exemplos como esses de participação de jovens em conflitos. Mas nunca eles foram usados em larga escala e em tantos lugares como agora. Neste momento, 25 países reúnem de 200 mil a 300 mil soldados mirins. "A presença de crianças é o novo comportamento padrão em guerras", afirma o especialista americano Peter W. Singer, autor de Children at War ("Crianças em guerra", sem tradução no Brasil).

A idade média dos jovens militares é 12 anos. A maior parte deles atua em grupos de guerrilha, sem ligação com o Estado. Mas, em vários países, menores são alistados pelo governo. Entre 2003 e 2005, por exemplo, 15 britânicos de 17 anos atuaram no Iraque. "As crianças são fáceis de manipular e, em muitos casos, lutam tão bem quanto os adultos", diz Jo Becker, diretora de Defesa dos Direitos das Crianças da organização não-governamental Human Rights Watch.
Os menores são espiões, guardas e soldados armados da linha de frente. Já as meninas são usadas como escravas sexuais. De acordo com Jo Becker, boa parte das crianças é motivada pela pobreza. "Muitas veem o recrutamento como forma de conseguir comida."

Recrutas mirins
Os locais onde a prática é comum e quatro casos graves

México

Crianças lutam em grupos guerrilheiros no mundo todo, em especial na Colômbia e no Sri Lanka. Os mexicanos do Exército Zapatista de Libertação Nacional também sustentam um batalhão juvenil.

Sudão

Os soldados infantis lutam na região de Darfur, onde uma guerra, que já dura seis anos, deixou estimadas 300 mil mortes. Os menores de idade atuam como espiões e pegam em armas nas linhas de frente.

Uganda

O governo tem o hábito de capturar os jovens que atuam em grupos armados independentes e transformá-los em espiões e mensageiros do Exército local.

Mianmar

Pelo menos 14 países recrutam pessoas com menos de 18 anos em grupos militares. O caso mais sério é o de Mianmar, onde as crianças são forçadas a passar pelo treinamento do Exército.

Estratégia antiga
Jovens participam de batalhas há 2300 anos

Esparta, 300 a.C.

Após os 6 anos, os garotos participavam de pelotões juvenis. Lá, recebiam uma única peça de roupa e dormiam sobre juncos.

Inglaterra, Século 6

Meninos de 12 anos eram treinados para a guerra. Há relatos de que, aos 15, São Gustavo de Croyland (673-714) já estava engajado em ações militares.

Império Otomano, Século 14

Uma parcela dos garotos cristãos das províncias era recrutada. Os meninos se convertiam ao Islã e passavam a praticar exercícios bélicos.

Brasil, Século 18

Órfãos criados em instituições públicas eram recrutados pelas forças armadas desde o período colonial. Em casos de indisciplina, levavam chibatadas.

Estados Unidos, 1864

Na Virgínia, o general confederado John Breckenridge (1821-1875) recorreu a 247 cadetes da região, sendo que 25% tinham menos de 16 anos.

Alemanha, 1922

Garotos da Juventude Hitlerista eram treinados desde os 14 anos. Em 1943, foi criada uma unidade especial da polícia secreta, a "divisão leite de bebê".