Árabes X Israelenses: o que aprender com o conflito

As guerras árabe-israelenses da segunda metade do século 20 foram as que mais lições deram sobre o modo moderno de combater

Ricardo Bonalume Neto Publicado em 01/11/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Entre as guerras do século 20, aquelas travadas entre Israel e seus vizinhos árabes são, certamente, algumas das mais importantes pelas lições que proporcionam. Pode parecer meio pornográfico falar em “lições” de uma guerra. Qualquer pessoa razoavelmente pacifista acredita que as guerras são intrinsecamente ruins e que não haveria nada para aprender com elas, a não ser que elas deveriam deixar de acontecer. Mas as guerras, assim como as doenças, acontecem, fazem parte do passado e do cotidiano da humanidade. E assim como os médicos não costumam ser criticados por tentar entender as doenças, convém estudar as guerras para não repetir os erros do passado, além de ajudar a prever como será o conflito do futuro.

Militares pertencem a uma profissão tão respeitável como qualquer outra. Precisam conhecer o assunto da sua profissão, mesmo que pertençam a um país neutro e pacífico. Nem sempre foi assim. Os primeiros guerreiros pré-históricos, e da antiguidade, praticamente só precisavam treinar com suas armas. Era perfeitamente normal ser um legionário romano ou um cruzado do rei Ricardo e ser analfabeto. Apenas os comandantes tinham de estudar a arte da guerra. Mas a ciência e a tecnologia mudaram o mundo, e os militares começaram a estudar em academias. A princípio eram apenas os de armas mais técnicas, como engenharia e artilharia – um oficial de cavalaria demorou para precisar aprender algo mais do que montar seu animal.

Qualquer exército moderno tem seus manuais que mostram como proceder em situações de combate, à luz do que é considerada a “doutrina” dominante. E as guerras árabe-israelenses da segunda metade do século 20 foram as que mais lições deram sobre o modo moderno de combater. Mas não só isso. Também mostraram claramente as várias dimensões da guerra – sociais, econômicas e políticas.

As guerras foram em geral do tipo que costuma ser chamado de “convencional”, isto é, entre dois exércitos nacionais. Mas a revolta palestina conhecida como Intifada foge ao figurino, constituindo um conflito do tipo “assimétrico”, entre dois lados com forças, equipamento e doutrinas bem diferentes.

O ataque aéreo de surpresa que iniciou a Guerra dos Seis Dias, em junho de 1967, é um clássico que vai continuar por muito tempo leitura obrigatória. Detalhes como a hora do ataque, a direção e a altitude de onde vieram os aviões, o tipo de munição empregada foram e continuam sendo exaustivamente analisados em busca de lições.

Israel é um país pequeno, com população idem. Preservar a vida de seus cidadãos é a principal tarefa do estado. As forças armadas, naturalmente, procuraram meios para otimizar o potencial de combate empregando pessoal em menor quantidade, mas de maior qualidade – reservistas com bom nível de educação e passíveis de receber o melhor treinamento para aumentar ainda mais seu potencial. Usando uma terminologia econômica, era o caso de buscar forças que fossem mais capital intensive do que labour intensive – que exigissem mais capital do que trabalho.

Duas armas foram escolhas naturais: o tanque e o avião. Um veículo de aço de mais de 50 toneladas armado com um canhão poderoso precisa, em média, de quatro tripulantes. Já um caça-bombardeiro de várias dezenas de milhões de dólares precisa de apenas um piloto, altamente treinado ao longo de vários anos. A combinação do poder ofensivo do tanque e do avião foram as chaves das vitórias nas guerras de 1956 e 1967. Aparentemente, pareciam ser uma versão renovada da Blitzkrieg alemã, a "guerra-relâmpago" da Segunda Guerra.

Mas a verdadeira lição é outra, como se viu em 1973. Os sírios e egípcios usaram um misto de qualidade com quantidade para embotar os ataques israelenses. A "qualidade" estava no uso de sofisticados mísseis antitanque e antiaéreos de fabricação soviética para fazer frente à dupla blindados/aviação. E a "quantidade" era o número colossal de material que o bloco comunista entregou aos árabes.

Um avião era literalmente perseguido em todos os cantos do céu: por mísseis de grande altitude, como SA-2 e SA-3; de altitude média – e móveis –, SA-6; de baixa altitude – e disparados do ombro –, SA-7. Voando baixo, os aviões também eram vulneráveis a canhões disparados com a ajuda de radar, como o letal ZSU-23-4, de calibre 23 mm. E os tanques, avançando sem acompanhamento de infantaria e dispondo de pouco apoio de artilharia, também eram alvos fáceis de centenas de mísseis antitanque.

A verdadeira lição é que a melhor doutrina de combate mecanizado é a das chamadas "armas combinadas" – infantaria, blindados (ou "cavalaria") e artilharia apoiando-se mutuamente, usando seus pontos fortes para proteger os fracos das outras armas.

A aviação israelense se sofisticou muito depois dos desastres de 1973. A eletrônica passou a ser dominante. A surra que os aviões sírios levaram em 1982 no Líbano é prova de que os israelenses tinham aprendido as lições.

Havia quem explorasse essas lições diretamente. Estados Unidos e União Soviética faziam uma "guerra por procuração", com Israel usando equipamento americano, e os árabes equipados pelos comunistas. Muito do armamento hoje existente nesses países deriva da experiência de combate no Oriente Médio.

No campo político, uma das maiores lições diz respeito ao próprio valor de ganhar uma guerra. Em 1967, Israel ganhou de modo avassalador. Não precisava negociar com seus vizinhos, que, por sua vez, humilhados, não queriam debater em posição de inferioridade. O impacto da guerra de 1973 foi diferente. Israel levou um susto, os árabes ganharam confiança. Isso permitiu a paz com o Egito anos depois.

Neste ano, muitos erros foram cometidos na curta guerra no Líbano. As lições – militares e políticas -– continuam sendo debatidas, digeridas. Ainda é cedo para saber seu resultado.

Ricardo Bonalume Neto, 45 anos, é repórter da Folha de S. Paulo especializado em ciência e assuntos militares. Cobriu conflitos em vários continentes e é autor de A Nossa Segunda Guerra – Os Brasileiros em Combate, 1942-1945.