Árabes X Judeus: história sem fim

Sionismo, interesses políticos e perseguição nazista tornaram inevitável a criação de Israel. Estavam lançadas as sementes do longo e explosivo conflito entre árabes e judeus

José Francisco Botelho Publicado em 01/05/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

No início de 1939, o judeu romeno Shlomo Green encontrou nas turbulentas águas do mar Negro sua estrada para a terra prometida. Nascido no vilarejo de Glug, fronteira com a Bulgária, Green tinha cerca de 30 anos quando resolveu juntar-se à multidão que embarcava nos portos de Constanza, na Romênia, rumo a um país que ainda não existia. Eram centenas de milhares de homens, mulheres e crianças, todos de religião ou sangue judaico, vindos de diversas partes da Europa, como Alemanha, Áustria e Tchecoslováquia. Na época, o litoral da Romênia era o caminho marítimo mais rápido e seguro para a Terra Santa – aquele conturbado pedaço do Oriente Médio, saturado de história e misticismo, encruzilhada de culturas e civilizações, que para os judeus se chama Eretz Israel e para os árabes, Filistéia ou Palestina.

Do final do século 19 até 1947, meio milhão de pessoas fizeram a aliá (palavra hebraica que designa a viagem ou migração para a Terra Santa). Seu objetivo: criar um Estado judaico, derradeiro refúgio contra as perseguições e a intolerância que pontuaram a história dos hebreus na Europa desde a Idade Média. Essa idéia visionária ganhou corpo na década de 1890, nas páginas de livros e panfletos escritos por um grupo de judeus do norte da Europa – era o sionismo, movimento batizado em homenagem a Sion, antigo nome de Jerusalém (leia mais no quadro ao lado).

Arapuca colonialista

Para virar realidade, o sonho de Sion teve de entrar no xadrez estratégico das grandes potências. Quando começou o grande êxodo judaico, a Palestina era uma província do Império Otomano, um Estado colossal que ocupava o norte da África, boa parte do Oriente Médio e pedaços do leste europeu. Desde meados do século 19, esse gigante estava cansado, empobrecido e de pernas frouxas. Enquanto o colosso decaía, as potências européias lançavam olhares gulosos a seus futuros despojos. Em especial, a Grã-Bretanha, então no auge de suas ambições imperialistas. Durante a Primeira Guerra Mundial, os turcos aliaram-se ao lado perdedor, o eixo formado por Alemanha e Império Austro-Húngaro – e a Inglaterra aproveitou a ocasião para armar uma arapuca colonialista. Por um lado, fechou alianças com as tribos árabes que penavam sob o domínio dos turcos, prometendo-lhes soberania e independência, em troca de ajuda militar na guerra contra otomanos e alemães. Ao mesmo tempo, o governo britânico comprometeu-se com a criação de um Estado judaico na célebre Declaração Balfour, de 1917. Com sua política de promessas dúbias, a Inglaterra plantou a semente da discórdia entre árabes e judeus.

Em 1919, o Império Otomano desmembrou-se e a Palestina passou ao domínio britânico. Ao mesmo tempo, a migração judaica deixava de ser um sonho romântico e tornava-se necessidade de sobrevivência. Quando nosso conhecido Shlomo Green deu o derradeiro adeus às costas da Romênia e começou sua aliá, em 1939, o vírus do nazismo já havia gangrenado boa parte da Europa. Naquele mesmo ano, pouco após o desembarque de Shlomo na Palestina, estourava a Segunda Guerra Mundial – e a Alemanha de Hitler deu início ao maior genocídio da história moderna. Ao fim da guerra, o horror do Holocausto foi revelado em sua macabra enormidade. Isso convenceu o mundo ocidental de que a criação de um Estado judeu era urgente e inevitável. Em 29 de novembro de 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) votou pela partilha da Palestina, espalhando uma onda de euforia pelas populações judaicas do mundo inteiro. Vitória suprema do sionismo, a criação de Israel marcou o início das lutas, desventuras e tragédias de outro povo, dando a largada para o conflito mais longo e explosivo da história contemporânea. Para entender tudo isso, é preciso olhar o outro lado da moeda e descobrir por que os árabes chamam a partilha da Palestina de Al-Nakba – a Catástrofe.

Na década de 1890, quando propagavam a idéia da migração em massa para o Oriente Médio, os ideólogos sionistas haviam cunhado um slogan famoso: “A Palestina é uma terra sem povo para um povo sem terra”. Mas a realidade era outra, completamente distinta: em fins do século 19, a região já era habitada por centenas de milhares de muçulmanos e cristãos que chamavam a si mesmos de filisteus ou palestinos. Eram descendentes dos árabes que chegaram à região por volta do século 7º e de povos muito mais antigos – como os cananeus, que já estavam na chamada Terra Santa milhares de anos antes de Cristo.

Em pé de guerra

Para quem lê as manchetes de jornais de hoje, a rivalidade entre judeus e árabes pode parecer a coisa mais natural do mundo. Mas a verdade é que essa luta fratricida só começou depois da década de 1920. Espelhando-se em séculos de convivência e trocas culturais, árabes e sionistas sentaram-se para negociar em 1919. Foi naquele ano que uma assembléia de diplomatas árabes convidou Chaim Kalvarisky – um dos líderes sionistas mais ponderados da época – para debater uma solução que acomodasse os interesses judeus e palestinos. Uma série de reuniões ocorreu em Damasco, na Síria. Em 1922, os dois lados chegaram a um acordo que poderia ter poupado décadas de conflito. “Sua idéia era criar um Estado único, com liberdade religiosa plena e participação política para todos os grupos étnicos da Terra Santa – pretendiam, inclusive, instituir o ensino do hebraico e do árabe em todas as escolas”, escreve o historiador Howard Sachar em History of Israel. Mas essa utopia teve vida bastante curta. Naquele mesmo ano, a Assembléia Nacional do Yishuv (a comunidade judaica na Palestina) recusou a proposta do Estado multinacional. A decisão refletia, em parte, a mão pesada da Grã-Bretanha: para manter sua hegemonia absoluta, o governo inglês não queria saber de acordos alternativos entre os povos dominados. Naquele mesmo ano, proibiu qualquer tipo de negociação entre a Organização Sionista e os árabes.

“Depois disso, a liderança sionista não teve mais interesse em negociar com a população local e isso gerou uma hostilidade crescente, que acabaria explodindo em uma série de revoltas violentas”, diz o historiador Paulo Fagundes Vizentini, especialista em História Contemporânea e autor do livro Relações Internacionais na Ásia e na África. “Em 1947, a Terra Santa estava em pé de guerra, com os dois lados atacando e retaliando. Ao mesmo tempo, a Grã-Bretanha havia perdido muito do antigo poder e já não era capaz de conter o caos no Oriente Médio. Por isso, resolveu passar a batata quente para as Nações Unidas.” No momento da partilha, quase meio milhão de árabes palestinos viviam no território destinado ao Estado de Israel. No conflito generalizado que se seguiu, a maior parte dessa população acabou expulsa por tropas sionistas ou debandou em pânico ante massacres como o de Deir Yassin, em que 250 camponeses árabes foram trucidados por grupos radicais. Nenhum dos refugiados voltou para casa. Suas terras foram desapropriadas. Suas vilas, derrubadas e rebatizadas com nomes hebraicos. Começava a “diáspora palestina”.

No meio disso tudo, onde foi parar Shlomo Green? Sionista patriota, ele uniu-se ao Haganah, o Exército israelense, em 1948. Lutou por seu país, contra os árabes, nos dois rounds seguintes: a invasão de Suez, em 1956, e a Guerra dos Seis Dias, em 1967. Em 1980, aposentado do serviço militar, Shlomo vivia em um apartamento na cidade de Haifa, no norte de Israel, quando recebeu a visita de um jornalista britânico. O visitante contou-lhe a história da família Damiani – árabes cristãos que tiveram suas terras desapropriadas em 1948 e agora viviam como exilados em Beirute, no Líbano. O apartamento de Shlomo Green ficava no exato lugar em que os Damiani haviam vivido, mas nenhum vestígio deles restava por lá. Ao ouvir essa história, o sobrevivente do Holocausto chorou. “Tudo o que posso dizer é que nossos povos são personagens de uma grande tragédia”, disse. Uma tragédia dupla – que ainda está longe do fim.

Embrião de um "lar nacional"

A primeira centelha do Estado de Israel flamejou em solo europeu: o sionismo foi uma entre muitas ideologias nacionalistas que pipocaram na Europa do século 19. Na época, o mapa do continente transformava-se sob a influência do “princípio das nacionalidades” – de acordo com essa doutrina política, todos os grupos étnicos têm o direito de governar a si mesmos, em Estados independentes e soberanos. Foi seguindo essa filosofia que Alemanha e Itália, picotadas desde a Idade Média, se unificaram – e povos que viviam sob domínio estrangeiro, como os poloneses e os gregos, passaram a lutar por sua independência. Essas idéias logo seduziram intelectuais, artistas e líderes religiosos de origem judaica, em diversas partes da Europa. Mas havia um obstáculo aparentemente intransponível no caminho de sua autodeterminação. Por volta do século 1º, o Império Romano havia expulsado os antigos hebreus da Terra Santa. Desde então, eles vagaram pelo mundo sem um território próprio.

A doutrina sionista pretendia desatar esse nó. Em 1896, o judeu húngaro Theodor Herzl – figura de proa do sionismo e herói quase mítico para os israelenses – publicou a obra Der Judenstaat (O Estado Judeu). Nela, propunha que os judeus do mundo inteiro migrassem de forma maciça para a Palestina e lá criassem um “lar nacional”. No ano seguinte, os líderes do movimento reuniram-se na cidade de Basiléia, na Suíça, e fundaram a Organização Sionista Mundial, que passou a patrocinar o êxodo para o Oriente Médio. No início, o principal instrumento da liderança sionista era a diplomacia e a propaganda. Mas, por volta de 1925, ganhou força um movimento paralelo conhecido como “sionismo revisionista” – para seu líder, Zeev Jabotinsky, o ideal patriótico de Eretz Israel justificava métodos violentos. No rastro de Jabotinsky, surgiram grupos radicais como o Irgun e a Gangue Stern, responsáveis por uma série de atentados terroristas contra britânicos e árabes na Palestina durante a década de 1930. Hoje, o partido israelense Likud é o herdeiro da vertente extremista do sionismo, reponsável pelo atentado contra o Hotel King David, que matou 91 pessoas em 1946 – muitas vezes comemorado como um feito heróico.

Sion em Buenos Aires?

Uma das primeiras estratégias da Organização Sionista, fundada em 1897, foi negociar com o Império Otomano – que dominou a Terra Santa até o fim da Primeira Guerra Mundial. Mas quando emissários sionistas propuseram ao sultão turco Abdul Hamid II a criação de um Estado judeu na Palestina, ouviram um rotundo “não”. Se o Oriente Médio estava interditado, ponderaram alguns sionistas, o jeito era fundar Israel em outro lugar. Theodor Herzl lançara uma proposta alternativa: em último caso, os judeus poderiam adquirir terras na Argentina e migrar para os pampas. “É uma das terras mais ricas e férteis do mundo; tem um clima temperado, vastos territórios cultiváveis e pouca população. A República Argentina só teria a ganhar em nos dar uma parte de seu território”, escreveu Herzl em no livro O Estado Judeu. A idéia fez sucesso – no final do século 19, milhares de judeus russos migraram para o país. Ao contrário das esperanças de Herzl, o governo argentino não mostrou entusiasmo ante a idéia de ceder terras soberanas. Além da Argentina, outros países foram aventados como possíveis berços para o lar judaico. Por volta de 1900, com o anti-semitismo crescendo em ritmo galopante, surgiu uma dissidência sionista conhecida como “territorialismo” – segundo essa corrente, os judeus deviam fundar seu Estado onde quer que fosse possível. Foram cogitados lugares como Quênia, Congo, Chipre e Austrália. Essas propostas só perderam fôlego a partir de 1917, quando a Declaração Balfour deu novo ânimo ao sonho primordial do sionismo: ganhar a Palestina.