Baby Boom: Os filhos da guerra

Geração fruto da explosão demográfica pós-Segunda Guerra chega aos 60

Felipe Van Deursen Publicado em 01/12/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Imagine a situação: você está há tanto tempo lutando contra o inimigo, em países estranhos, que nem se lembra do gosto da comida de casa. Seu dia-a-dia é composto de corpos mutilados e mortos, sangue e poeira. Tudo com o que você sonha é voltar para o conforto do seu lar. A luta termina e você faz parte do grupo vitorioso. É recebido em seu país como herói. O que acontece nove meses depois? Você é pai.

Foi isso o que se passou com milhares de casais americanos com o fim da Segunda Guerra em 1945. Um ano depois começava uma explosão demográfica que só enfraqueceria na virada dos anos 60. Era o chamado baby boom. Na década de 40, nasceram nos Estados Unidos 32 milhões de bebês, 33% a mais que na década anterior. Em 1954, mais de 4 milhões de partos, quase 11 mil por dia. Em 2006, os mais velhos dessa turma chegaram aos 60.

A geração babyboomer, como ficou conhecida, mudou os costumes do mundo. Ela é formada pelos filhos que mais se diferenciavam dos próprios pais até então. Ela virou adulta no mais duradouro período de prosperidade do país, distante dos traumas sofridos pela geração anterior, que cresceu durante a Grande Depressão. Pelos 15 anos seguintes ao confronto mundial, a onda de otimismo dominou não só os Estados Unidos mas também muitos dos países aliados, como Canadá e Reino Unido. No Brasil, a euforia se deu nos anos JK, entre 1956 e 1960. A economia andava a toda, o desemprego era baixo. “O que aconteceu após a Segunda Guerra foi uma conjunção de fatores: otimismo juvenil, bens materiais em abundância, vitória em uma guerra, medo de perder em outra”, escreveu o historiador Howard Smead em Don’t Trust Anyone Over Thirty: A History of the Baby Boom (“Não confie em ninguém com mais de 30: a história do baby boom”, inédito no Brasil). “Você quer culpar alguém pelo baby boom? Culpe Hitler: suas atividades na Europa distorceram o ciclo familiar nos Estados Unidos.”

 

Pouco em comum

Como foi a juventude de alguns famosos filhos de 1946

Gianni Versace

O estilista italiano desenvolveu seus talentos ainda jovem, ajudando a mãe a fazer vestidos de gala. Aos 25 anos, mudou-se para Milão, onde realmente iniciou sua carreira. Morreu assassinado por um gigolô, em 1997.

George W. Bush

O atual presidente americano, cujo mandato é marcado pelo conservadorismo, nasceu no mesmo ano que seu antecessor, Bill Clinton. Na juventude, porém, não era tão certinho. George W. Bush costumava se embebedar com os colegas na época do serviço militar.

Donald Trump

Empresário, astro de TV e até marca de vodca, Trump, aos 13 anos, foi para a Academia Militar de Nova York, onde colecionou títulos de vários esportes. Formou-se em economia para trabalhar ao lado do pai e se tornar um bilionário.

Freddie Mercury

Com 18 anos, o vocalista do Queen deixou sua terra natal, Zanzibar (na época, uma colônia britânica), para morar em Londres, onde conheceria seus companheiros de banda. Morreu em 1991, um dia depois de anunciar que tinha aids.

George Best

O ídolo do Manchester United, morto em 2005, foi eleito o melhor boleiro da Europa com 22 anos, mas jogava tanto quanto bebia. É dele a frase: “Gastei metade do meu dinheiro com mulheres e bebida. O resto desperdicei”.

 

Hippies e feministas

Babyboomers protagonizaram as grandes manifestações

Em 1965, quatro de cada dez cidadãos dos Estados Unidos tinha menos de 20 anos. Um ano antes, havia estourado a Guerra do Vietnã. Em 1969, o Festival de Woodstock entorpeceu o mundo com sua mensagem roqueira de paz e amor. Na primavera anterior, universitários de Paris mobilizaram a França contra o regime de Charles de Gaulle (os babyboomers europeus são conhecidos como “geração de 68”). O feminismo ganhou força. Ou seja, as grandes manifestações da década, talvez do século, foram protagonizadas por jovens que nasceram no pós-guerra. Hippies e feministas são filhos do baby boom. Mas a geração que revolucionou os costumes não era lá tão liberal. Nos Estados Unidos, na primeira vez em que votaram, elegeram duas vezes o republicano Richard Nixon. E o democrata Bill Clinton, o primeiro presidente babyboomer, não era bem visto por seus contemporâneos. Já o feminismo, considerado ultrapassado, pode voltar a qualquer momento. “Ele tem um aspecto revolucionário. Podemos começar a repudiar a ênfase que se dá à mulher-objeto”, diz Maurine Beasley, especialista em baby boom da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos. Para ela, uma suposta vitória de Hillary Clinton nas eleições de 2008 pode trazer a nova onda feminista. Hillary, aliás, é babyboomer de 1947.