Bacilos no rio: as armas biológicas do Brasil

Brasil é acusado de usar armas biológicas na Guerra do Paraguai

Claudio Dirani Publicado em 01/07/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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O acervo do museu Mitre, em Buenos Aires, guarda uma carta de Luís Alves de Lima e Silva, o duque de Caxias, para o imperador dom Pedro II. O conteúdo é polêmico. No texto, datado de 18 de novembro de 1867, o comandante das forças nacionais na Guerra do Paraguai sugere que nossos militares teriam usado armas biológicas contra os paraguaios. Inimigos da fragata Itapiru, mortos por causa do cólera, teriam sido jogados de propósito no rio Paraná, para que o bacilo da doença infectasse cidades e acampamentos inimigos. Diz a carta, na única versão conhecida, traduzida para o espanhol e que teria sido interceptada pelo Exército argentino: “O general Bartolomeu Mitre [comandante das tropas da Argentina] está resignado plenamente e sem reservas às minhas ordens; ele faz quanto eu lhe indico, como tem estado muito de acordo comigo, em tudo, ainda enquanto a que os cadáveres coléricos, se joguem nas águas do Paraná, já da esquadra como de Itapiru para levar contágio às populações ribeirinhas”.

A suposta carta de Caxias foi localizada pelo jornalista Julio José Chiavenatto e citada no livro Genocídio Americano – A Guerra do Paraguai. Há quem duvide das más intenções do brasileiro. “Houve epidemia de cólera no acampamento aliado e, como o terreno de Tuiuti era alagado, não era excepcional que cadáveres terminassem no rio”, diz Francisco Doratioto, professor de Relações Internacionais da Universidade Católica de Brasília.

Mas a reação mais firme vem dos militares. Dos vários ataques a Chiavenatto, o mais recente está no livro Caxias e a Unidade Nacional, do coronel Cláudio Moreira Bento. Para ele, a carta é “mero panfleto político circunstancial”. Chiavenatto responde que sua tese é polêmica porque os brasileiros não estão acostumados a pensar no Paraguai como vítima da guerra. No conflito, que durou de 1864 a 1870, morreram 300 mil pessoas, sendo 221 mil paraguaios. Em entrevista, Chiavenatto acrescenta que Caxias não foi o único que fez guerra bacteriológica. “O Conde d’Eu [que assumiu as tropas brasileiras em 1869] libertava soldados inimigos com varíola. Eles voltavam para seu exército, onde espalhavam a doença.”