Bebidas nos copos do mundo

Elas ajudaram no surgimento da escrita e no desenvolvimento da filosofia, além de motivar guerras e revoluções. Da cerveja à Coca-Cola, as bebidas foram marcantes nos rumos da humanidade

Lia Hama Publicado em 01/01/2019, às 00h00

Aventuras na História
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Idade da Pedra, Idade do Bronze, Idade do Ferro. Essa divisão de períodos históricos foi criada por arqueólogos. Eles se basearam no impacto do uso de cada um desses materiais na vida dos seres humanos ao longo dos tempos. Mas uma outra divisão, um pouco mais fluida, também é possível. Por exemplo: há aproximadamente 5500 anos, quando o Oriente Médio estava entrando na Idade do Bronze, as populações daquela região estavam em plena era da... cerveja.

Dividir a história do mundo em períodos dominados por determinadas bebidas: é isso o que propõe o jornalista inglês Tom Standage, editor da respeitada revista britânica The Economist. No livro História do Mundo em Seis Copos, ele mostra como a cerveja foi decisiva para o desenvolvimento da agricultura e da escrita – ajudando, assim, o homem a sair da Pré-história. Alguns milênios depois, o vinho esteve intimamente ligado ao desenvolvimento da filosofia grega. Até chegar à Coca-Cola e seu papel destacado na globalização que marcou a virada para o século 21, muita coisa aconteceu entre um gole e outro.

“As bebidas tiveram uma conexão com o fluxo da história bem maior do que geralmente se reconhece”, afirma Standage no livro. “Elas sobrevivem em nossas casas como lembranças vivas de eras passadas, testamentos líquidos das forças que moldaram o mundo moderno.” Na opinião do escritor britânico, a bebida do futuro será a água, o que significa que a história das bebidas voltará à sua fonte original. Sendo um recurso natural limitado e fundamental para a vida, muitos estudiosos apontam que a água substituirá o petróleo como a mercadoria escassa com maiores chances de provocar um conflito internacional. “Sua disponibilidade irá determinar o futuro da raça humana na Terra”, diz Standage. Enquanto a era da água não vem, confira como as bebidas ajudaram a trazer a humanidade até aqui.

Cerveja

Se a onipresença das campanhas de cerveja faz você achar que essa bebida nunca foi tão importante, saiba que ela já era fundamental na vida social, religiosa e econômica das antigas civilizações do Egito e da Mesopotâmia. Lá, era usada em cerimônias religiosas, funerais e rituais de fertilidade – os egípcios viam a cerveja como um presente dos deuses, por sua capacidade “mágica” de induzir um estado de consciência alterada.

Para alguns antropólogos, a necessidade de manter a oferta de cerveja teria sido um dos motivos para o desenvolvimento da agricultura. Como a demanda pela bebida era muito grande, não era possível continuar dependendo apenas da coleta de grãos selvagens para produzi-la. Nascia aí a necessidade de plantar e cultivar cereais.

A cerveja também foi decisiva para a origem da escrita, que surgiu para registrar a colheita de grãos e a distribuição de potes da bebida, pães e outras mercadorias. Os primeiros documentos escritos de que se tem notícia são listas salariais e recibos de impostos dos sumérios, nos quais o símbolo para a cerveja é um dos que mais aparecem. No Egito, a bebida era usada como moeda de troca. Os trabalhadores que construíram as pirâmides, por exemplo, eram pagos com pão e cerveja: cada um ganhava três ou quatro bolos de pão e duas canecas contendo cerca de 4 litros da bebida.

Vinho

A filosofia, a política, a ciência e a poesia da Grécia antiga, que até hoje servem de base para o pensamento ocidental, provavelmente não teriam ido tão longe sem o vinho. Era ele que ditava o ritmo nos simpósios, festas em que os participantes partilhavam uma grande taça de vinho diluído. Durante os debates acalorados, os bebedores tentavam superar um ao outro em inteligência. O filósofo grego Platão dizia que o vinho era uma ótima maneira de testar o caráter de um homem, submetendo-o às paixões despertadas pela bebida – como a raiva, o amor e a ambição.

O vinho tornou-se um dos principais produtos de exportação da Grécia antiga. Esse comércio ajudou a espalhar os ideais da civilização grega na região do Mediterrâneo e, mais tarde, no resto do mundo. O costume de beber vinho prosseguiu com os romanos, cuja sociedade hierarquizada se refletia no consumo da bebida. Cada classe social tinha seu vinho. O melhor de todos era o Falerno, feito com vinhas da região do monte de mesmo nome, no sul de Nápoles. Pela qualidade, ia para os imperadores. O pior era o Lora, feito com cascas, sementes e caules da uva, que era servido para os escravos.

Rum e Uísque

O rum foi um dos personagens centrais da independência dos Estados Unidos: entre pagar mais para beber e tentar derrubar o domínio inglês, os americanos ficaram com a segunda opção. Durante o século 18, um dos motivos para o aumento da hostilidade entre a Inglaterra e suas colônias na América do Norte foram os altos impostos que a metrópole cobrava sobre o comércio de melaço de cana, a principal matéria-prima do rum. Em 1781, cinco anos depois que os americanos se libertaram dos ingleses, John Adams, um dos fundadores dos Estados Unidos, escreveu para um amigo: “Não sei por que deveríamos ter vergonha de confessar que o melaço foi um ingrediente essencial na independência. Muitos grandes acontecimentos resultaram de causas muito menores”.

Já outro destilado, o uísque, era parte do dia-a-dia na América do Norte desde antes da independência. Muitos dos colonos americanos eram de origem escocesa ou irlandesa e tinham experiência na destilação de grãos. A bebida era usada como moeda (trocada por sal, açúcar, ferro e pólvora) e consumida em aniversários e funerais. Nos primeiros tempos, a democracia americana, que se tornou referência no mundo todo, era movida a uísque: políticos em campanha distribuíam a bebida aos eleitores.

Café

Abastecidos pela bebida que chegara à Europa no século 17, os cafés públicos de Paris eram ponto de encontro de intelectuais. No século seguinte, tornaram-se centros do revolucionário pensamento iluminista. Por causa disso, viviam cheios de espiões do governo. Qualquer um que falasse contra a monarquia corria o risco de ir para uma masmorra na Bastilha, a prisão que era símbolo do autoritarismo do regime. Tanto esforço de repressão, no entanto, foi em vão. Foi no café de Foy, em 12 de julho de 1789, que um jovem advogado chamado Camille Desmoulins colocou a Revolução Francesa em prática. Ele subiu numa mesa e, com uma pistola na mão, gritou: “Às armas, cidadãos!” Dois dias depois, a Bastilha foi tomada por uma multidão enfurecida.

Em Londres, na mesma época, quem desejava se informar sobre os últimos acontecimentos políticos, as mais novas descobertas científicas ou as fofocas da corte se dirigia a um café. Havia estabelecimentos especializados e divididos segundo a localização. Os próximos ao Palácio de Westminster, a sede do Parlamento britânico, eram freqüentados por políticos. Os que ficavam perto da Catedral de Saint-Paul, por clérigos e teólogos. Já os próximos à Bolsa de Valores atraíam os homens de negócio. Pelo preço de uma xícara da bebida, era possível ler jornais, conversar com outros fregueses ou participar de debates literários ou políticos. Os cafés eram grandes fontes de informação, mas o que se descobria lá nem sempre era confiável – mais ou menos como a internet no dias de hoje.

Chá

No século 18, muitas das rotas comerciais entre a Grã-Bretanha e o Oriente foram traçadas graças à enorme popularidade do chá entre os ingleses. Essa paixão contribuiu para que, naquela época, o Império Britânico chegasse a abranger 20% da superfície mundial. O lucro obtido com esse intercâmbio serviu para financiar o desenvolvimento acelerado das fábricas inglesas. O chá se transformou, assim, na bebida por excelência da Revolução Industrial. Os capitalistas ofereciam a seus empregados intervalos para o consumo da bebida – graças à cafeína, o líquido mantinha os operários acordados nos longos turnos de trabalho braçal.

Mas o chá também causou problemas sérios para a Inglaterra, já que, como o rum, foi um dos pivôs da independência dos Estados Unidos. A reação contra a tentativa britânica de taxar o produto provocou as chamadas “festas do chá”, em que colonos americanos jogavam ao mar carregamentos de chá de navios ingleses. Uma das mais conhecidas foi a Boston Tea Party (“Festa do Chá de Boston”), em 1773, quando agitadores esvaziaram três cargueiros. “Festas” como essa ajudaram a desestabilizar o poder da metrópole.

Depois da derrota na independência americana, o chá levou os ingleses a uma outra guerra, do outro lado do mundo. O consumo do produto na Inglaterra cresceu tanto que o país passou a ter prejuízo no saldo comercial com a China, de quem importava as folhas. Para tentar equilibrar a balança, os ingleses resolveram aumentar a produção de ópio que vendiam para os chineses. A disputa comercial levou à Guerra do Ópio, de 1839 a 1842, vencida pelos britânicos. No fim, os chineses foram forçados a assinar um tratado de paz humilhante, entregando o controle de Hong Kong aos vitoriosos – o território só foi devolvido em 1997.

Coca-Cola

A ascensão dos Estados Unidos e a globalização da guerra, da política, do comércio e das comunicações no século 20 foram acompanhadas pela ascensão da Coca-Cola, considerada símbolo dos valores americanos. Para os que admiram os Estados Unidos, ela significa liberdade de escolha e democracia. Para os que odeiam aquele país, ela representa o capitalismo cruel, a hegemonia das marcas globais e a diluição das culturas numa mediocridade homogeneizada.

A Coca-Cola acompanhou os Estados Unidos em diversos conflitos pelo mundo. Durante a Segunda Guerra, a bebida foi mandada para os campos de batalha, pois fazia os soldados americanos lembrarem-se de casa e ajudava a manter o moral elevado. Tal era sua importância que a empresa foi isenta do racionamento de açúcar imposto em 1942 – a justificativa foi a de que a bebida era essencial para o esforço de guerra. Essa presença no front se mantém até hoje. Quando as tropas norte-americanas ocuparam o palácio do ditador iraquiano Saddam Hussein em Bagdá, em abril de 2003, elas fizeram um churrasco com hambúrgueres, cachorros-quentes e, claro, muita Coca-Cola.

 

 

Cerveja

Quando surgiu - Entre 10 000 & 4 000 a.C.

Como foi criada - Povos coletores comiam uma espécie de mingau feito de água e cereais. Eles perceberam que, se deixassem a mistura parada durante alguns dias, ela fermentava. O resultado era uma cerveja primitiva.

Local de origem - Região do crescente fértil, que corresponde hoje ao Egito, sudeste da Turquia e Iraque

Curiosidades

Pão líquido

O que surgiu antes: o pão ou a cerveja? Não se sabe. O certo é que ambos surgiram do mingau de cevada – a piada de que cerveja é “pão líquido” tem um fundo de verdade.

“Zuzo bem?”

Na Antiguidade, a expressão “pão e cerveja” era uma forma de cumprimento entre as pessoas (algo como “boa sorte”).

Viva o tubo

O hábito de usar canudo para beber surgiu para evitar grãos, palha e outros fragmentos desagradáveis que ficavam flutuando na superfície da cerveja.

Vinho

Quando surgiu - Entre 9 000 e 4 000 a.C.

Como foi criada - O suco de uvas amassadas era guardado em recipientes de cerâmica por longos períodos e, ao fermentar, se transformava em vinho

Local de origem - Região de Zagros (atuais Armênia e norte do Irã)

Curiosidades

Raspadinha

No verão, para refrescar, o vinho era misturado a neve guardada do inverno. Para que ela não derretesse, era empacotada com palha e mantida em buracos no solo.

O chique era misturar

Os gregos e os romanos tomavam vinho misturado com água. Beber vinho puro era considerado primitivo.

Vinho ao alvo

Kottabos era um jogo grego. Consistia em dar petelecos nos últimos goles de vinho de uma taça em direção a um alvo – que podia ser uma pessoa ou uma taça boiando numa tigela de água.

Rum

Quando surgiu - Século 17

Como foi criada - Plantadores de cana aprenderam a fermentar as sobras da produção de açúcar, como o melaço, e a destilar o resultado, obtendo o rum.

Local de origem - Barbados

Curiosidades

Drinque salvador

Em 1795, a Marinha inglesa fez do rum com suco de lima ou limão sua bebida oficial. A vitamina C das frutas prevenia o escorbuto, mal que matava muitos marujos. Foi sem querer, mas ajudou na supremacia britânica nos mares.

Uísque

Quando surgiu - No fim do século 15

Como foi criada - A partir da destilação de cereais fermentados, como cevada e centeio.

Local de origem - Provavelmente na Escócia

Curiosidades

Água da vida

A origem da palavra “uísque” é uisge beatha, expressão gaélica para aqua vitae (“água da vida”, em latim), uma bebida destilada usada como remédio durante a Idade Média.

Café

Quando surgiu - Por volta do século 15

Como foi criada - Uma das versões é a de um criador de cabras etíope que notou que seu rebanho ficava alegre após consumir as frutas do café. Ele as experimentou e contou para um religioso, que descobriu uma maneira de preparar os grãos.

Local de origem - Mundo árabe, possivelmente no Iêmen ou na Etiópia

Curiosidades

Para ver Deus

O café foi adotado pelo sufismo, uma corrente do Islã. Era usado contra o sono em cerimônias noturnas em que se tentava chegar a Deus por meio de cantos e movimentos repetidos.

Clube fechado

Na Inglaterra do século 17, os cafés públicos surgiram como uma alternativa sofisticada às tavernas, decorados com livros. As mulheres eram proibidas de entrar.

Chá

Quando surgiu - Entre 2737 e 2697 a.C., segundo a tradição chinesa

Como foi criada - A lenda conta que o imperador Shen Nung estava fervendo água e usando galhos de um arbusto selvagem para alimentar o fogo. Foi quando uma rajada de vento levou folhas da planta para dentro do pote, transformando a bebida em chá.

Local de origem - Na China, provavelmente

Curiosidades

Idéia Secular

Há 300 anos, Thomas Twining, dono de um café em Londres, abriu uma loja de chá. Foi a origem da marca que leva o sobrenome do fundador até hoje.

Mistureba

Buscando lucrar mais com a venda de chá preto, comerciantes adulteravam o produto, misturando a ele serragem, flores e até estrume de cavalo.

Para as moças

As casas de chá inglesas do século 18 eram bastante freqüentadas por mulheres, já que elas eram proibidas de entrar nos cafés.

Coca-Cola

Quando surgiu - 1886

Como foi criada - Ao misturar folhas de coca e extrato de cola com água gasosa, John Pemberton, um farmacêutico que vivia em Atlanta, criou a Coca-Cola. O amargor dos dois principais ingredientes foi mascarado com açúcar.

Local de origem - Estados Unidos

Curiosidades

Coca na coca

A versão original da Coca-Cola continha um pouco de cocaína. Isso foi eliminado no começo do século 20, embora derivados de folhas de coca permaneçam até hoje na fórmula secreta da bebida.

Codca-cola

Após a Segunda Guerra, uma versão da Coca-Cola foi feita especialmente para o general russo Georgy Zukov, herói da União Soviética. Era incolor, para que se parecesse com a vodca, tradicional bebida do país.

Livres para beber

Na queda do Muro de Berlim, em 1989, os alemães-orientais que passaram para o outro lado da barreira recém-demolida foram recebidos com Coca-Cola, ícone do consumo proibido no lado comunista.

 

Saiba mais

Livro

História do Mundo em Seis Copos, Tom Standage, Jorge Zahar, 2005 - Em uma linguagem ágil e acessível, o autor narra o desenvolvimento da humanidade a partir das bebidas. No fim, ele dá dicas sobre como é possível, hoje em dia, experimentar o sabor original das bebidas antigas.