Ben-Gurion: o parteiro de Israel

Ele carregou o país nas costas em seus primeiros anos. Tinha menos de 1,6 metro de altura. Mas foi um grande estadista

Luciana Pinsky Publicado em 01/05/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Ao chegar a Israel de avião, o viajante pousa em um aeroporto chamado Ben-Gurion. Se decide conhecer a Universidade de Negev, descobre que seu nome também é Ben-Gurion. Quando sai para passear em qualquer cidade do país, encontra ruas, praças, edifícios do governo... Tudo igualmente batizado Ben-Gurion. Figura onipresente na história judaica, o primeiro premiê israelense permanece na memória dos mais velhos e nos livros escolares como um dos grandes nomes da formação do Estado de Israel. Nada mal para esse judeu baixinho, com menos de 1,6 metro de estatura, nascido em 1886 na cidade polonesa de Plonsk.

No dia 14 de maio de 1948, uma voz desafinada, extremamente familiar aos judeus, anunciou pelo rádio o nascimento de Israel. Era David Ben-Gurion declarando a independência do país em Tel-Aviv. Poucas horas depois, o infante Estado seria atacado por cinco países árabes vizinhos. Começava uma guerra terrível, a mais sangrenta de todas na história de Israel. Ela dizimaria cerca de 1% da população israelense e acabaria mandando para o exílio centenas de milhares de árabes palestinos (leia mais na reportagem da página 30).

Para Ben-Gurion, aquele era um sacrifício que valia a pena. Ele sonhara com o anúncio da independência desde muito cedo, quando se deu conta da perseguição aos judeus disseminada por quase toda a Europa no início do século 20. Sionista e socialista convicto, Gurion migrou para a Palestina ainda jovem, quando tinha apenas 20 anos de idade. Àquela altura, ele engrossava as fileiras da Segunda Aliá, ao lado de outros 40 mil judeus da Polônia, Ucrânia, Bessarábia e Lituânia que rumavam para o terroritório sob domínio do Império Otomano. Em 1915, porém, acabou expulso por conta de suas atividades políticas. Ele não foi o único a ser banido. Durante a Primeira Guerra Mundial, as autoridades turcas expulsaram da Palestina cerca de 12 mil judeus. Ben-Gurion foi morar nos EUA. Casou-se por lá. E voltou à Terra Santa depois da guerra, já sob o Mandato Britânico.

A tarefa que ele havia escolhido para ser sua missão de vida não era nada fácil: fundar um Estado soberano em uma região quase inóspita, com pouquíssimos judeus em meio à maioria absoluta de árabes. E ainda havia um agravante: esses poucos judeus vinham de diversos países, trazendo culturas distintas. Mas de 1935 a 1948, Ben-Gurion liderou a comunidade judaica na Palestina – como presidente da Agência Judaica – sem deixar um só instante de se preocupar com essas metas. Político hábil e pragmático, foi um dos artífices do duplo apoio americano e soviético à partilha. E trabalhou arduamente para que a estrutura do futuro Estado de Israel fosse construída nesse período.

Nada mais natural, portanto, que Ben-Gurion acabasse sendo o escolhido para declarar a independência de Israel no dia 14 de maio de 1948. Fundado o Estado judeu, ele imediatamente tornou-se o primeiro-ministro, cargo que exerceu até 1953. Ao deixar o governo, foi viver no kibutz Sde Boker, em pleno Negev, por considerar importante o incentivo à ocupação daquele imenso deserto. Em 1955, voltou ao cargo de premiê, de onde só saiu em 1963. Afastado definitivamente do poder, Gurion voltou para o kibutz Sde Boker, onde morreu quase dez anos mais tarde, em 1973.

Direita ou esquerda?

Como heróis não costumam ser unanimidades, Ben-Gurion teve de enfrentar desafetos em sua carreira política. Grupos de direita atacavam-no por considerá-lo de esquerda. Em compensação, grupos mais à esquerda do que ele reclamavam de sua mão-pesada ao tratar de assuntos árabes. Até hoje o “estilo Gurion” gera polêmica. Na própria universidade que leva seu nome, há pesquisadores que questionam, por exemplo, a atuação do estadista na questão dos refugiados árabes.

De acordo com o historiador israelense Benny Morris, lideranças sionistas já falavam da transferência de árabes palestinos bem antes da criação de Israel. Ou seja: ela não seria apenas uma conseqüência infeliz da Guerra da Independência, em 1948. Segundo o historiador, documentos datados de 1937 comprovam que o próprio Gurion considerava essa transferência importante, embora soubesse o quanto ela seria difícil. Para Morris, o problema dos refugiados foi causado, principalmente, pela ação de forças judaicas em aldeias e cidades árabes, cujos métodos incluíam intimidação, ameaça de expulsão e violência. Outros pesquisadores, no entanto, debitam na conta dos países árabes vizinhos boa parte da responsabilidade pelos refugiados – ao usar politicamente a questão, eles estariam mais interessados em “cozinhá-la” do que em resolvê-la.

Independentemente da polêmica, o fato é que Ben-Gurion pode ser apontado como um dos maiores estadistas do século 20. Idealista ou excessivamente pragmático, pouco importa. Este polonês baixinho foi um dos grandes responsáveis pela sobrevivência de Israel.