Bíblia: A biblioteca de um livro só

Coletânea de documentos milenares, a Bíbliaé a obra sagrada para os 2 bilhões de cristãos. E, paraos historiadores, é um texto rico em referências sobrea cultura e a vida dos povos do antigo Oriente

Michelle Veronese Publicado em 01/11/2005, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Imagine como seria entrar numa biblioteca cujos livros começaram a ser escritos há mais de 3 mil anos. Nela é possível ler histórias incríveis que um dia foram registradas em papiros e pergaminhos. Graças a escritores persistentes, esse acervo não se perdeu no tempo. Aliás, neste exato momento, ele pode estar ao seu lado, guardado na sua estante. Dentro de uma Bíblia. Não é exagero comparar a obra a uma biblioteca, já que seu próprio nome, em grego, significa “livros” ou “livrinhos”. Texto sagrado do cristianismo, religião de mais de 2 bilhões de pessoas em todo o mundo, a Bíblia contém os mais variados gêneros literários: cânticos, parábolas, sagas, epopéias e novelas. Há narrativas sobre pessoas oprimidas e marginalizadas, que se rebelaram contra os poderosos e defenderam sua fé. E não faltam histórias de reis, façanhas de guerreiros, descrições de batalhas, detalhes sobre templos opulentos, cultos, pecados e perdões.

As páginas da Bíblia falam de acontecimentos que teriam começado por volta de 1700 a.C. e se estendido até o primeiro século da era cristã. Não é à toa que historiadores, arqueólogos e exegetas (pessoas especializadas em interpretar esse livro sagrado) a consideram não apenas uma obra religiosa, mas um importante documento histórico. “Ela nos dá acesso a praticamente 1800 anos de história de um povo. Além disso, espelha todo o contexto histórico-cultural do antigo Oriente”, explica o teólogo Matthias Grenzer, da Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, em São Paulo.

Para quem quer se aventurar nas páginas bíblicas, o passo inicial é entender como e por que a obra foi escrita. Durante muito tempo, os livros que a compõem circularam de maneira independente, até serem condensados numa única obra. O título de cada um desse livros é uma referência à história que contam ou ao personagem central da narrativa. Assim, por exemplo, o livro do Gênesis fala da criação do mundo, o livro dos Reis apresenta a vida de vários monarcas e o livro de Rute conta as dificuldades enfrentadas por uma jovem viúva e sua sogra. Boa parte de seus autores eram pessoas anônimas, que se encarregaram de colocar no papel (ou melhor, nos pergaminhos e papiros) essas histórias que circulavam oralmente.

Quem abre uma Bíblia percebe que ela é dividida em dois blocos, o Antigo Testamento e o Novo Testamento (os especialistas preferem chamá-los de Primeiro e Segundo Testamento). Os livros que compõem a primeira parte teriam começado a ser redigidos por volta de 1100 anos antes de Cristo, em hebraico e, mais tarde, em aramaico e grego. Escribas, reis e sacerdotes relatam neles a vida dos hebreus, que teriam fugido da escravidão no Egito, feito aliança com um Deus único e partido em busca da Terra Prometida. O Segundo Testamento, escrito em grego, trata da vida e dos ensinamentos de Jesus. Escritos por seus discípulos e seguidores, esses textos teriam surgido entre os anos 30 e 150, nas primeiras comunidades cristãs da Ásia Menor, Síria, Grécia e Roma. Em várias passagens, é possível saber até mesmo quem os redigiu. É o caso dos quatro evangelhos, que levam o nome de seus autores – Mateus, Marcos, Lucas e João.

A intenção de organizar todo o material num único livro surgiu por volta do ano 150, quando os cristãos viviam um momento difícil. “Eles sofriam as perseguições do Império Romano, viam o crescimento do movimento gnóstico, que negava a encarnação de Jesus, e ainda encaravam idéias que refutavam as origens judaicas do cristianismo”, explica o historiador Martin Norberto Dreher, professor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), em São Leopoldo. “Os líderes cristãos sentiram então a necessidade de afirmar aquilo que consideravam verdade.” À antiga Bíblia Hebraica, livro sagrado dos judeus, os cristãos acrescentaram seus próprios textos. Mas a Bíblia não nasceu acabada. Várias versões, em diferentes línguas, circularam durante séculos.

Entre os católicos, seu formato atual só foi definido durante o Concílio de Trento (encontro das autoridades da Igreja ocorrido entre 1545 e 1563). Desde então, ela conta com 73 livros tidos como inspirados por Deus – os chamados apócrifos ficaram de fora. Já a Bíblia dos protestantes contém 66 livros – foram excluídos Macabeus 1 e 2, Tobias, Judite, Eclesiástico, Sabedoria e Baruc. O status de Escritura Sagrada só veio com o tempo, fruto da tradição. “Nenhum texto é redigido com a finalidade de se tornar sagrado. Mas a eficácia e a repercussão que ele alcança conferem essa conotação. É o que ocorreu com a Bíblia”, explica o teólogo Pedro Vasconcellos, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Não é fácil ler a Bíblia com olhos de pesquisador. “Ela tem dados históricos que se tornam dados de fé, e dados de fé que se tornam dados históricos. E distinguir uma coisa da outra é complicado”, diz o frei Jacir de Freitas, professor do Instituto Teológico São Tomás de Aquino, em Belo Horizonte. Com tanto simbolismo, parece difícil selecionar informações que sejam úteis aos historiadores. E os livros bíblicos não foram escritos com intenção de registrar imparcialmente os acontecimentos. “A meta não era escrever uma biografia de Jesus, e sim fazer propaganda, pregar sobre o impacto que ele causou nas pessoas”, diz o professor Martin Dreher.

Existem outras fontes que ajudam a esclarecer o que está nas Escrituras. É o caso de Tácito e Suetônio, historiadores romanos dos séculos 1 e 2, que escreveram algumas linhas a respeito de personagens bíblicos. Segundo Tácito, Nero incendiou Roma em 64 e lançou a culpa sobre uma casta de homens chamados de cristãos, cujo nome era uma referência a Jesus Cristo, que havia sido morto no governo de Pôncio Pilatos. Já Suetônio lembra um episódio em que o imperador Cláudio mandou expulsar de Roma cristãos que se desentenderam ao discutir sobre Jesus.

O historiador romano Flávio Josefo ajuda a confirmar outros detalhes da Bíblia, como o perfil do rei Herodes. “Ele conta que Herodes era tão malvisto pela população que, em seu leito de morte, mandou matar alguns cidadãos proeminentes de Jerusalém para garantir que houvesse gente chorando no dia de seu enterro”, diz Dreher. Ao apresentá-lo como um governante cruel, capaz de mandar matar crianças, os evangelhos podiam estar narrando algo real.

Uma outra opção para os historiadores é tentar entender o contexto no qual os livros foram produzidos, o que inclui investigar as influências que eles receberam de outras obras. “Os textos bíblicos dialogam perfeitamente com grandes tradições literárias dos países vizinhos”, diz Matthias Grenzer. “Os Provérbios, por exemplo, imitam a sabedoria do antigo Egito. E há leis do Antigo Testamento que espelham nitidamente algumas legislações da Mesopotâmia.”

Quem lê as entrelinhas pode encontrar muitas informações sobre as sociedades da época. Nas parábolas de Jesus, por exemplo, não há apenas lições morais. Segundo o teólogo Vasconcellos, aquelas que mencionam o trabalho no campo fazem referência aos agricultores da Palestina do século 1, que perderam suas terras para o Império Romano. “A história do homem que joga sementes em pedras e espinhos representa a situação de muitos camponeses que buscavam desesperadamente um lugar para semear e viver”, diz ele.

Até a censura deixou sua marca na Bíblia. O sombrio e fantástico Livro do Apocalipse, por exemplo, parece tratar de fatos não tão distantes da realidade. Ele teria sido escrito pelo apóstolo João no ano 90, enquanto estava preso na ilha mediterrânea de Pátmos. O autor recorreu a uma linguagem cifrada para evitar retaliações e garantir que o texto chegasse aos cristãos perseguidos pelo Império Romano (algo parecido aconteceu no Brasil da década de 70, quando músicos faziam canções com duplo sentido para criticar a ditadura militar). Domiciano, um dos mais cruéis imperadores, teria sido retratado em um personagem condizente com seus atos. “Ele queria ser venerado vivo, como um deus. Por isso, é associado à besta do Apocalipse”, afirma Martin Dreher.

 

Pedro ou "Rochoso"?

Cada tipo depúblico pode contar com sua própria Bíblia

No Brasil circulam diferentes traduções das Escrituras, como a Bíblia de Jerusalém (edição para estudiosos) e a Tradução Ecumênica (organizada segundo as tradições judaica e cristã). Entre os protestantes, é muito popular a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, publicada pela Sociedade Bíblica do Brasil. A SBB distribui, em média, 4 milhões de exemplares por ano, o que equivale a 50% do mercado nacional de Bíblias. Os responsáveis pela Nova Tradução fizeram modificações para tentar melhorar a compreensão do texto sem mudar o sentido. Compare: “O homem conheceu Eva, sua mulher; ela concebeu e deu à luz Caim” (Bíblia de Jerusalém) e “Adão teve relações com Eva, sua mulher, e ela ficou grávida” (Nova Tradução). Outras versões trazem adaptações no texto, mas não tão radicais. Um exemplo é a substituição de “homem” por “ser humano”. “Fizemos a substituição sempre que a expressão original, em hebraico, era adam, que significa ‘ser humano’, homem e mulher”, diz o frei Ludovico Garmus, que coordenou a tradução da Bíblia da editora Vozes. No exterior a moda de fazer adaptações foi mais longe. No ano passado, uma versão inglesa causou polêmica ao dar apelidos a alguns personagens famosos. Maria Madalena virou Maggie e Barrabás foi chamado de Barry. Já o apóstolo Pedro ganhou um pseudônimo apropriado ao seu papel de pedra fundamental da Igreja: virou Rocky (o que, em inglês, significa “rochoso”).

Leitura rasteira

Interpretação literaldo texto serve de basepara o preconceito

Todas as palavras contidas na Bíblia foram inspiradas por Deus e são verdades absolutas. É basicamente isso que defendem os fundamentalistas, adeptos de um movimento cristão protestante que surgiu no século 19. Hoje o termo é usado para se referir a todos os que interpretam passagens bíblicas (e de outros livros sagrados) ao pé da letra, muitas vezes tiradas de seu contexto. É o que ocorre com os trechos abaixo, utilizados para justificar atitudes preconceituosas.

Anti-semitismo

Prestes a condenar Jesus, Pôncio Pilatos pergunta: “Mas que mal fez ele?” O público, composto por judeus, responde gritando com força: “Seja crucificado!” Então o governador lava as mãos diante da multidão e diz: “Eu não sou responsável pelo sangue desse homem. É um problema de vocês” (Evangelho de Mateus, capítulo 27, versos 23 a 26). Durante séculos, essa passagem tem servido para acusar os judeus pela morte de Jesus.

Papel da mulher

Após descobrir que Adão e Eva comeram do fruto proibido, Deus anuncia como o homem deverá tratar a mulher: “E ele a dominará” (Gênesis, capítulo 3, verso 16). Já o apóstolo Pedro diz: “Quero que vocês saibam que a cabeça de todo homem é Cristo, que a cabeça da mulher é o homem” (Carta aos Coríntios I, capítulo 11, verso 3). Ambas as citações são usadas por aqueles que defendem a submissão da mulher ao homem.

 

Saiba mais

Livro

Bíblia de Jerusalém, Paulus, 2002 R$ 57