O Brasil do profeta Daniel

O sonho de construir um império na América era mais antigo que a própria existência do reino de Portugal

Laurentino Gomes Publicado em 18/12/2009, às 05h08 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

O historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), pai do compositor Chico Buarque e autor do livro Raízes do Brasil, procura explicar a formação da identidade nacional brasileira observando a história, a cultura e os traços de comportamento do povo português. Uma raiz muito mais antiga, porém, pode ser encontrada na Bíblia. Nesse caso, é uma raiz mitológica. O livro do profeta Daniel, no Antigo Testamento, é a origem do mito do Quinto Império - a semente do sonho português que resultaria na criação de um império na América, ou seja, o próprio Brasil.

O cenário do livro de Daniel é a Babilônia, poderoso reino da Antiguidade onde o povo judeu permaneceu exilado por 70 anos, seis séculos antes de Cristo. Segundo a narrativa bíblica, o rei Nabucodonosor teve um sonho no qual uma estátua gigantesca composta de bronze, ferro e argila, entre outros materiais, se desintegrou ao ser atingida por uma pedra misteriosa. A visão deixou o rei transtornado a tal ponto que ele decidiu convocar um grupo de sábios para ajudar a decifrá-la.

Um deles era o profeta Daniel. Sua interpretação associa o sonho à criação de cinco impérios. Os quatro primeiros, todos terrenos, seriam supostamente a própria Babilônia, a Grécia, Roma e Egito ou talvez a Pérsia. O quinto império, porém, seria diferente de todos os demais porque teria dimensão simultaneamente secular e espiritual. "Nos dias desses reis", escreveu Daniel, "o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído. Esse reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos esses reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre."

O que esse texto enigmático da Bíblia tem a ver com o Brasil? É preciso levar em conta que Portugal foi sempre um país profundamente influenciado pelas idéias religiosas. A própria fundação do reino, em meados do século 12, era parte de uma grande cruzada religiosa. Foram os cruzados ingleses que, a caminho de Jerusalém, ajudaram o príncipe Afonso Henriques (1109-1185), primeiro rei português, a expulsar os mouros e a consolidar o reino. Reza a lenda que, na véspera da batalha decisiva, na localidade de Campo do Ourique, Afonso Henriques teria visto uma cruz no céu acompanhada da seguinte mensagem de Jesus Cristo: "Quero em ti e na tua geração criar um império para mim". O chamado Mito do Ourique nada mais é que a profecia do Quinto Império em versão mais atualizada. Não bastava a Portugal apenas expulsar os "infiéis" da península Ibérica. O novo reino sentia-se imbuído da missão de evangelizar e espalhar a fé católica ao redor do mundo.

Dom Sebastião

Essa motivação religiosa foi um dos fatores fundamentais das grandes navegações e descobrimentos no século 15. E continuaria a funcionar assim nos séculos seguintes, durante o período colonial. Em 1580, menos de um século depois do descobrimento do Brasil, o rei Felipe II (1527-1598), da Espanha, assumiu também o trono português, vago com o desaparecimento do rei dom Sebastião (1554-1578) numa cruzada contra os mouros no Marrocos, dois anos antes. Nos 60 anos seguintes Portugal seria governado pela Espanha, numa aliança que ficaria conhecida como União Ibérica. Em 1640, ano da restauração da independência portuguesa, um grupo de conselheiros reais, incluindo o padre jesuíta Antônio Vieira (1608-1697), se reuniu para avaliar as constantes ameaças à autonomia do reino. Entre as propostas resultantes do encontro estava a transferência da coroa para o Brasil. Uma vez mais, as necessidades geopolíticas se misturam ao mito religioso. Na opinião do padre Vieira, caberia a Portugal criar na América um império temporal e espiritual, com a missão de converter os pagãos, reformar a cristandade e estalecer a paz no mundo sob a égide de um rei santo - no caso, dom João IV (1604-1656), primeiro monarca da dinastia de Bragança.

Por defender essas idéias, Vieira foi investigado pela Inquisição e censurado pelo papa, mas sua profecia acabou se realizando nos séculos seguintes. Em 1736, o então embaixador português em Paris, Luiz da Cunha (1662-1749), escrevia num memorando secreto a dom João V (1689-1750) que Portugal não passava de "uma orelha de terra", onde o rei "jamais poderia dormir em paz e em segurança". A solução sugerida por Cunha era mudar a corte para o Brasil, onde João V assumiria o título de "Imperador do Ocidente" e indicaria um vice-rei para governar Portugal. Em 1762, diante de mais uma ameaça de invasão, o então marquês de Pombal (1699-1782) propôs que o rei dom José I (1714-1777) tomasse "as medidas necessárias para sua passagem para o Brasil".

Em 1803, com a Europa ocupada por Napoleão Bonaparte (1769-1821), esse antigo plano ganhou senso de urgência. Nesse ano, o então chefe do Tesouro Real, dom Rodrigo de Souza Coutinho (1782-1894), futuro conde de Linhares, fez ao príncipe regente dom João (1767-1826) um relatório da situação política na Europa. Na sua avaliação, o futuro da monarquia portuguesa corria perigo. Seria impossível manter por muito tempo a política de neutralidade entre Inglaterra e França. A solução? Vir embora para o Brasil.

Foi o que de fato ocorreu quatro anos mais tarde, com a partida da corte para o Rio de Janeiro. O príncipe regente dom João fugiu de Portugal para não cair prisioneiro do imperador francês Napoleão Bonaparte, mas, ao chegar ao Brasil, em janeiro de 1808, colocou em execução a antiga profecia de Daniel. O resultado não seria tão santo nem tão glorioso quanto teria imaginado o profeta no Antigo Testamento, mas um novo império começava a ser construído na América - tarefa que, bem ou mal, os brasileiros de hoje tentam levar adiante.


Saiba mais

LIVROS

Raízes do Brasil, Sérgio Buarque de Holanda, José Olympio, 1987
Explica as origens da identidade nacional dos brasileiros.

O Império Marítimo Português (1415-1825)
, Charles R. Boxer, Edições 70, 1969
Obra clássica que explica a formação do império lusitano.