Camuflagem: encontre-me, se for capaz

Desde os tempos das cavernas, o homem recorre à camuflagem. Mas foram as armas de fogo que deram grande impulso às técnicas de dissimulação

Carlos Chernij Publicado em 01/09/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Ser invisível deve ser um dos maiores sonhos de qualquer soldado. Passar despercebido para surpreender o inimigo e não virar um alvo fácil quando as coisas esquentam é uma vantagem tão importante quanto óbvia num campo de batalha. Por enquanto, a invisibilidade continua no âmbito dos sonhos, mas as guerras de verdade forçaram o aprimoramento de uma das técnicas de dissimulação mais antigas que existem: a camuflagem.

A idéia em si não é nova. Desde os tempos das cavernas, homens pré-históricos já usavam mantas feitas de pele de animais para tentar facilitar a caça, conforme revelam alguns desenhos encontrados em sítios arqueológicos. Mas foi apenas no final do século 19 que a camuflagem virou assunto sério nos exércitos. Até então, os soldados costumavam usar uniformes em cores chamativas, como azul e vermelho. "Ter um uniforme vistoso era uma forma de tentar abalar o moral do inimigo, convencer os jovens a se recrutar e até mesmo a facilitar a identificação dos aliados no meio da fumaça de um campo de batalha", diz o historiador britânico Guy Hartcup, autor do livro Camouflage: a History of Concealment and Deception in War ("Camuflagem: uma História de Dissimulação e Farsas em Guerra", inédito no Brasil). "Mas, com o avanço dos armamentos, dissimular as tropas e os equipamentos passou a ser uma necessidade básica".

Com a evolução das armas de fogo, já não era mais preciso chegar tão perto do inimigo para atingi-lo. Ser facilmente visto se tornou uma grande desvantagem no campo de batalha. A primeira providência foi trocar as cores dos uniformes. Azul, vermelho e outras cores berrantes começaram a dar lugar aos mais discretos tons de verde e marrom, como o cáqui adotado como padrão pelos britânicos na Primeira Guerra Mundial. Daí em diante, a ordem foi disfarçar tudo o que fosse possível. "Postos de observação que simulavam a aparência de árvores começaram a ser usados com bastante sucesso contra os alemães", diz Hartcup.

Essas providências deram resultados, e não foi por acaso. "A camuflagem baseia-se num princípio chamado de fatores de formação de unidade", diz o pesquisador e professor de arte Roy Behrens, da Universidade do Norte de Iowa, nos Estados Unidos. "Coisas parecidas, como uma série de pontos próximos que tenham a mesma cor, tendem a ser percebidas pelo nosso cérebro como uma uma única coisa, enquanto padrões diferentes tendem a ser vistos como coisas separadas", diz Behrens, que há anos estuda os padrões de camuflagem. Ou seja, quanto mais parecido com o ambiente for o uniforme de um soldado, mais trabalho nosso cérebro vai ter para diferenciá-lo do fundo.

Lições da natureza

Muito antes de esses princípios serem aplicados no campo militar, eles já estavam sendo testados em um dos maiores cenários de guerra que existem: a natureza. Animais e plantas vêm se utilizando dessas ferramentas há milhões de anos em suas mais diversas formas. A dificuldade em se identificar um coelho branco no meio de um campo coberto de neve e diversas outras situações desse tipo inspiraram o trabalho de pesquisa do pintor americano Abbott Handerson Thayer, considerado um dos pais da camuflagem militar. No final do século 19, Thayer pesquisou a função das listras em diversos animais. Daí surgiram dois dos princípios que mais tiveram importância em seu trabalho posterior. O primeiro é a noção de contra-sombra: os animais possuem partes do corpo mais claras ou mais escuras de acordo com a necessidade. Um exemplo são os tubarões, que costumam ter a parte de cima do corpo mais escura do que a parte debaixo. Dessa forma, ao ser visto de cima, ele se confunde com o fundo do mar, menos iluminado e mais escuro. Ao ser visto por baixo, sua barriga mais clara se confunde com a superfície iluminada da água.

O segundo princípio de Thayer é o da "camuflagem ofuscante". É o caso das zebras, nas quais as listras pretas iludem o cérebro do observador, dificultando a tarefa de identificar um padrão. O conceito de camuflagem ofuscante foi aplicado nos navios durante a Primeira Guerra Mundial. "Antes, os navios eram pintados geralmente de preto e, às vezes, de branco", conta Hartcup. Mas isso contrastava muito com o oceano, o que resultava em dois grandes problemas. Era relativamente fácil identificar um navio se aproximando da costa. E, com a evolução dos sistemas de artilharia, era possível atingir alvos a cerca de cinco quilômetros de distância. A maior ameaça, no entanto, vinha de dentro do próprio oceano. "Com o surgimento dos torpedos, era praticamente um presente para o capitão de um submarino ver pelo periscópio um grande navio preto, contrastando com a água", diz Hartcup.

A camuflagem deu bons resultados na Primeira Guerra, mas teve de se reinventar rapidamente para dar conta dos desafios que vieram na Segunda Guerra. O principal deles foi a evolução dos aviões, que agora eram mais numerosos e voavam mais alto e mais longe. A camuflagem ofuscante nos navios praticamente perdeu sua função. "Além de poderem ser atingidos de cima, houve também o surgimento dos torpedos acústicos, que usavam as vibrações produzidas pelo navio na água para orientar sua rota", diz Hartcup.

Falsos alvos

Os bombardeios tornaram-se uma séria ameaça, já que a destruição agora podia ser levada para além das frentes de batalha, alcançando as cidades e parques industriais. Tornou-se necessário proteger essas regiões, e então a camuflagem mostrou sua nova face: a de enganar o inimigo, fazendo com que ele despejasse suas bombas em alvos falsos. Esses objetos eram de todos os tipos: artilharias, tanques, estradas de ferro e até fábricas falsas, feitas como maquetes de madeira e papelão. "Como a artilharia antiaérea e o contra-ataque de outros aviões eram constantes, os bombardeiros alemães desperdiçaram toneladas e toneladas de bombas nesses alvos, que não eram fáceis de serem identificados como falsos", afirma Hartcup.

Enquanto isso, no solo, os uniformes camuflados com cores e padrões geométricos, parecidos com os atuais, começaram a se popularizar. "Antes, os tecidos camuflados precisavam ser pintados à mão, e eram destinados principalmente aos atiradores de elite. Com a evolução das máquinas têxteis, eles puderam ser produzidos em larga escala", diz Hartcup. "Os veículos também passaram a ser camuflados. Mas a eficiência era menor, já que um tanque, por exemplo, tem um formato bastante difícil de ser dissimulado."

Com o final da Segunda Guerra Mundial, a camuflagem entrou em um novo ciclo de transformações que continua até hoje. "As novas tecnologias, como o radar, o sonar, a visão infravermelha e imagens de satélites, diminuíram em muito a dependência da visão direta", diz Hartcup. Novas armas, como os mísseis intercontinentais, também modificaram profundamente o conceito de campo de batalha. Mas a camuflagem está com os dias contados? "Enquanto houver conflitos, a camuflagem sempre estará presente, da forma mais simples até a mais sofisticada", diz o historiador. "Novas tecnologias de detecção levam a novas formas de camuflagem, e vice-versa."

Invisibilidade: chegaremos lá?

Cientistas da Universidade de Tóquio estão tentando realizar um antigo sonho do homem: tornar-se invisível. Chamada de camuflagem óptica, a tecnologia é composta de um manto coberto de micropontos eletrônicos, que atuam como pixels num monitor de computador ou televisor. A imagem do que está atrás do manto é captada e transferida para os pixels na frente, o que dá a um observador a impressão de que a pessoa ficou literalmente transparente do pescoço para baixo. Ainda falta muito para se chegar ao nível da camuflagem dos alienígenas do filme Predador, mas já é um belo começo. Vídeos bacanas da engenhoca podem ser conferidos no site dos cientistas, www.star.t.u-tokyo.ac.jp/.

 

A camuflagem nos ares

Desde o final da Segunda Guerra, a principal ferramenta usada para detectar aviões e mísseis de longo alcance é o radar. Ondas de rádio são emitidas e seus reflexos nos objetos que encontram pelo caminho são captados e analisados. Dessa forma, é possível até estimar seu tamanho e velocidade. Por isso, enganar os sistemas de radares virou prioridade e deu origem a uma série de camuflagens conhecidas hoje como tecnologia stealth (furtividade). Seu objetivo é desenvolver aviões com formatos e materiais que minimizem a reflexão das ondas, e que também as absorva. É preciso ainda ocultar outros sinais que podem levar à detecção por outros tipos de sensores, como vibrações acústicas e sinais infravermelhos (calor).

 

DESAFIO

Tudo isso torna possível invadir o espaço aéreo inimigo com chances mínimas de ser detectado. Mas, como não podem produzir muitas vibrações nem muito calor, esses aviões não são supersônicos, o que os torna facilmente alcançáveis pelos caças. Outra desvantagem é que a fuselagem necessária para evitar as ondas de radar traz vários problemas aerodinâmicos, gerando instabilidade nos três eixos da aeronave. Isso significa que são precisos sistemas computadorizados que auxiliem o piloto a corrigir essas falhas o tempo todo. Se esses sistemas pararem de funcionar, é quase certo que o avião se espatife no chão.

 

Para saber mais

Camouflage: a History of Concealment and Deception in War, Encore Editions, 1980 - A evolução da camuflagem nos campos de batalha.