O chá sagrado

A ayahuasca gera controvérsia desde o século 16

Tiago Cordeiro Publicado em 22/09/2010, às 11h46 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Entre 1000 a.C. e 500 a.C., os índios da Amazônia peruana experimentavam misturar cipós e folhas para criar uma bebida. De gosto amargo e forte, a infusão final passou a ser usada pelos líderes durante os rituais religiosos, fazendo-os se sentirem capazes de contatar os mortos e promover a cura. Batizada de ayahuasca, que na língua quíchua (falada na região central dos Andes) significa "vinho das almas", ela é popularmente conhecida hoje como santo-daime. Passados pelo menos 2,5 mil anos de sua invenção, o chá mantém a aura religiosa (e polêmica) do seu uso. "A forma de preparo continua sendo basicamente a mesma", diz Henrique Carneiro, professor da Universidade de São Paulo e autor de Pequena Enciclopédia da História das Drogas e Bebidas. Mas há um porém: apesar de ser consumida por 70 diferentes povos indígenas e de estar difundida por toda a América do Sul, a ayahuasca é famosa por seus efeitos alucinógenos. No Brasil, ela é consumida por 40 mil pessoas, divididas em quatro grandes seitas: Santo Daime, União do Vegetal, Natureza Divina e Barquinha.

Seus ingredientes, as folhas de chacrona e o cipó-caapi (substituível por mariri ou jagube), são plantados da Amazônia ao interior de São Paulo. E, se foi preservada e difundida, é porque o chá escapou da pressão dos colonizadores europeus. "É plausível acreditar que a ayahuasca possa ter sobrevivido em nichos isolados durante esse período de grandes transformações pós-Conquista", afirma Alexandre Camera Varella, pesquisador do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre Psicoativos. No Brasil, o uso do chá é permitido para fins religiosos desde 1992 - do contrário, é considerado um psicotrópico e é proibido. Nas últimas décadas, a bebida foi difundida entre intelectuais e artistas e seu uso vem sendo pesquisado como uma ferramenta para o tratamento de alguns problemas mentais e para a dependência de drogas - resultados preliminares das pesquisas do Programa de Orientação e Assistência ao Dependente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) apontam melhora no quadro de dissociação da realidade em pacientes esquizofrênicos.

Ritual de fé


Para entrar em contato com seus deuses, os incas ingeriam o chá

1. Preparo

A mistura da planta cipó-caapi e da erva rainha é preparada em fornos de cerca de 2 m de raio. O xamã organiza o ritual de preparo, que pode durar até dois dias.


2. Cerimônia

Sentado no centro da roda, o líder religioso inca tem posse da maior caneca de chá. É ele quem lidera o culto, puxando rezas, hinos e cantorias.


3. Divindade

A bebida é usada para entrar em contato com os deuses. Além de proporcionar experiências de renascimento, ela é considerada catártica.


4. Sensações

Os efeitos alucinógenos do chá ampliam a percepção, provocando alterações da consciência. Alguns usuários vomitam e têm diarreia.

Bebida milenar

O chá é ingerido por tribos desde antes de Cristo

De 1000 a.C. a 500 a.C.

Índios da Amazônia (no Peru) misturam um cipó e uma folha. A bebida alucinógena é usada em cerimônias religiosas.

Século 16

Os jesuítas entram em contato com tribos da Amazônia que consomem chás alucinógenos. Seus relatos não são favoráveis.

1616

O uso da ayahuasca é condenado pela Santa Inquisição.

1858

O geógrafo equatoriano Manuel Villavicencio é o primeiro a descrever os efeitos do chá com detalhes.

1913

Raimundo Irineu Serra entra em contato com a ayahuasca. Em 1920, ele funda a primeira igreja do Santo Daime.

1961

O seringueiro baiano José Gabriel da Costa funda a União do Vegetal - hoje o maior grupo brasileiro de adeptos da bebida.

1963

Os poetas beatnik William Burroughs (dir.) e Allen Ginsberg publicam The Yage Letters, com cartas sobre os rituais de que participaram.

1992

Após sete anos de estudos, o Conselho Federal de Entorpecentes libera o uso religioso do chá no Brasil.