Chechenos X Russos: vizinhos do barulho

Ocupando um território estratégico, por onde passam importantes oleodutos e gasodutos, os chechenos lutam há mais de dois séculos contra o domínio russo

Isabelle Somma Publicado em 12/07/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

A iminente desintegração da União Soviética, em 1991, foi a grande chance encontrada pelos chechenos para livrar-se de vez do domínio russo. O poderoso vizinho promovia incursões militares desde o século 18, que resultavam em deportações e massacres de sua população. A oportunidade, porém, mostrou-se um fiasco: Moscou não desistiria facilmente de um território tão estratégico como o da Chechênia. Duas guerras e dezenas de atentados terroristas seguiram-se à negativa russa de reconhecer a independência. O resultado foi a morte de mais de 200 mil chechenos e soldados russos e a fuga de mais da metade da população da região.

Hoje a Chechênia é, sem dúvida, um dos piores campos de batalha do planeta, em que guerrilheiros chechenos e tropas russas travam combates cada vez mais sangrentos. “A guerra na Chechênia ainda se arrasta. Apesar de uma campanha bastante cruel que visa eliminar os combatentes chechenos e seus partidários, as forças russas falharam em acabar com a resistência e em capturar líderes como Shamil Basayev”, afirma o professor Georgi Deluguian, especialista em Repúblicas do Cáucaso da Universidade Northwestern, nos Estados Unidos.

Petróleo e gás

A Chechênia está localizada no Cáucaso, região que abriga grandes reservas de petróleo e gás natural. Os oleodutos que abastecem os compradores têm de passar por boa parte dos 13 mil quilômetros quadrados do território checheno. É essa ligação o principal interesse da Federação Russa na região. Os russos também acreditam que a região é parte integrante de seu território, ao contrário de outras repúblicas, como o Cazaquistão e a Ucrânia, que, logo após a queda da União Soviética, se tornaram países independentes sem nenhuma resistência do governo central.

O Cáucaso, região montanhosa entre o mar Cáspio e Negro onde vivem vários grupos étnicos, está sob o domínio russo há muito tempo. Mesmo quando não se sabia da existência de petróleo na região, o então Império Russo também considerava o território estratégico. Duas rebeliões chechenas, em 1791 e em 1859, foram sufocadas pelas tropas czaristas. A Revolução Russa de 1917 não mudou muito a vida da população caucasiana. Com a ascensão bolchevique, a população sofreu um forçado processo de coletivização da produção agrícola nos anos 30.

Em 1936, a Chechênia tornou-se uma república autônoma dentro da então União Soviética, juntamente com a Inguchétia. Mas a autonomia duraria pouco. Ao final da Segunda Guerra, Josef Stalin ordenou a deportação de chechenos e inguchétios, acusando-os de colaboração com os nazistas, o que realmente havia acontecido. Os habitantes da região tinham apoiado os alemães para obter em troca a tão sonhada independência. O castigo infligido pelo ditador foi deportar entre 400 mil e 800 mil pessoas para a Ásia Central e Sibéria. A volta do exílio só seria permitida em 1956, três anos após a morte do ditador.

Duas guerras

Desde 1936, chechenos e inguchétios viveram sob o status de uma mesma República Autônoma. Em 1991, os chechenos declararam-se independentes e formaram uma república. A Inguchétia também aproveitou para separar-se da Chechênia. Mas nenhum país reconheceu sua independência. Três anos depois, o impasse foi parar no campo de batalha. Tropas russas voltaram à região e destruíram a capital, Grozny. Nessa primeira guerra, mais de 80 mil pessoas morreram, principalmente civis chechenos.

A guerrilha chechena buscou a ajuda de radicais islâmicos como os experientes combatentes da guerra do Afeganistão e o auxílio financeiro da Arábia Saudita. A tática deu certo. Em 1996, o então presidente russo, Boris Yeltsin, retirou o exército da região. Seguiram-se anos de tensão até que o novo presidente russo, Vladimir Putin, ordenasse uma nova invasão. Dessa vez, o governo russo conseguiu emplacar um presidente pró-Moscou. O primeiro deles, Akhmad Kadyrov, morreu num atentado suicida em 2004. O atual, general Alu Alkhanov, mantém-se no poder graças às tropas de Putin.

Tanto os governantes apoiados por Moscou quanto as tropas russas são acusadas de freqüentes abusos contra a população chechena, como massacres, estupros e tortura. Além disso, a deterioração da economia local e o surgimento do crime organizado fizeram com que houvesse uma radicalização do conflito, com a aproximação chechena do fundamentalismo islâmico.

Atualmente, as forças chechenas estão divididas entre os seguidores do presidente pró-Moscou e os guerrilheiros contrários ao domínio russo, que, por sua vez, se fragmentaram em vários grupos que também lutam entre si. Esses grupos são formados por antigos agricultores e trabalhadores de baixa qualificação que não conseguiram fugir do país. “A fragmentação de forças dos dois lados continua estável e conduz a uma perpetuação da violência, porque nenhum governo estável consegue surgir”, afirma Derluguian.

 

Para saber mais

The Dirty War, Anna Politkovskaya, Harvill Press, 2004

Jornalista russa denuncia a barbárie cometida por seus compatriotas na Chechênia. Após o lançamento, a autora foi obrigada a exilar-se por ameaças de morte.

A Small Corner of Hell, vários autores, University of Chicago Press, 2003

Em uma série de artigos, especialistas sobre o conflito descrevem várias facetas da guerra entre russos e chechenos, do século 18 aos dias de hoje.

 

Personagens do conflito

Djohar Dudayev

Declarou a independência chechena em 1991 e tornou-se o primeiro presidente. Liderou a resistência contra os invasores, até ser morto por um míssil russo em 1995.

Aslan Maskhadov

Eleito presidente em 1997, instituiu a lei islâmica (Sharia). Não conseguiu unir a resistência chechena e morreu em março de 2005 durante cerco realizado por forças russas.

Shamil Basayev

Participou do seqüestro de um avião russo em 1991 e organizou a invasão da escola em Beslan. É o mais violento líder checheno, conhecido como Che Guevara do Cáucaso.

 

Seqüestros sangrentos

O movimento pela independência chechena organizou os piores atentados terroristas da Federação Russa. Foram em sua maioria seqüestros de civis em locais públicos, aviões derrubados e explosões de estações de metrô e prédios residenciais. Em apenas dois anos, as ações provocaram a morte de quase mil pessoas.

O principal deles ocorreu em setembro de 2004 em uma escola em Beslan, na Ossétia do Norte. Durante três dias, 32 terroristas chechenos mantiveram mais de 1 200 reféns, principalmente mulheres e crianças. Os seqüestradores exigiam a retirada das tropas russas de Grozny. Um tiroteio ainda não explicado provocou a explosão de bombas e a invasão do ginásio. O saldo foi a morte de 339 reféns e de 31 seqüestradores.

A ação foi semelhante a uma ocorrida dois anos antes. Cerca de 50 terroristas chechenos dominaram o Teatro Dubrovka, em Moscou. A platéia era composta de cerca de 800 pessoas. Para evitar uma tragédia, as forças russas usaram um gás paralisante antes de invadir o teatro. Só que o gás era tóxico: matou os seqüestradores e 127 reféns.