Chegada da família real portugesa: carnaval na Bahia

Quando a corte portuguesa desembarcou em Salvador, teve início uma festa que durou mais de um mês

André Luís Mansur Publicado em 01/03/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Após tantos dias ao sabor dos humores do oceano e em meio a toda sorte de imprevistos, a visão da baía de Salvador surgia como um sonho. A exuberante natureza parecia até sorrir para os maltratados nobres portugueses. Mesmo descontando o efeito de uma certa fome de terra firme pelo qual passava o pessoal a bordo, a paisagem encantava: de um lado e de outro, ilhas de vários tamanhos e praias virgens encimadas por uma coroa verdejante; à frente, as cintilantes construções brancas no alto de um morro, emolduradas por uma mata luxuriante. Na chegada à Bahia, dia 22 de janeiro de 1808, a colônia parecia bem melhor que a encomenda.

A única peça fora do lugar naquele primeiro contato era o estranho vazio no cais da cidade. Postado nas docas, havia apenas a figura do governador da província, João Saldanha da Gama. Logo apareceu também o arcebispo dom José da Santa Escolástica. Dom João estranhou tanta calmaria. E o governador apressou-se em explicar que preferia, primeiro, receber o príncipe, para depois levá-lo ao povo. O monarca português, então, retrucou: “Deixe o povo vir como quiser, porque deseja ver-me”.

Dom João e a corte decidiram esperar que toda a arrumação fosse providenciada. O desembarque ocorreu um dia depois, sob um autêntico carnaval baiano – com direito a tiros de canhão, sinos repicando nas muitas igrejas de Salvador e uma imensa multidão aglomerada no cais da Ribeira. Era a primeira vez que um monarca europeu pisava numa de suas colônias.

SUJA E MISERÁVEL

Ao pisar em terra, a comitiva real deparou-se com um cenário muito diferente do paraíso que Salvador parecia quando vista do mar. A cidade era suja, miserável e de um mau cheiro exasperador. Fezes eram jogadas na rua, havia lojas barulhentas e animais soltos. Esse era o retrato da área baixa, onde se concentrava a população mais pobre.

Mas festa é festa, e os portugueses tinham todos os motivos para mergulhar naquele autêntico carnaval baiano. Dom João e comitiva seguiram pela rua da Preguiça até a Ladeira da Gameleira, chegando ao largo do Theatro (atual Praça Castro Alves). Depois, todos se dirigiram à Igreja da Sé, onde o arcebispo celebrou um Te Deum Laudamus, em agradecimento pelo sucesso da viagem. No dia 24 de janeiro, houve o desembarque definitivo de toda a corte. A exceção foi Carlota Joaquina – ela só desceu do navio no dia 28. Dom João ficou hospedado na melhor casa da cidade, o Palácio do Governador, enquanto a comitiva foi para a Casa de Relação, uma espécie de Palácio da Justiça.

Os detalhes que cercam a chegada da corte a Salvador são bem conhecidos. Mas um mistério ainda suscita debates: por que dom João decidiu passar pela Bahia antes de se instalar no Rio de Janeiro? Para muitos pesquisadores, a mudança de rumo se deveu às fortes tempestades que avariaram alguns navios da frota. Mas o historiador inglês Kenneth Light, que pesquisou durante anos os diários de bordo dos navios britânicos que acompanharam a esquadra portuguesa, apresenta uma versão mais plausível.

Light reforça a tese de que a visão política de dom João predominou, contrariando a imagem de um monarca indolente e obtuso. Segundo o historiador, as embarcações não ficaram à deriva e o príncipe teria comunicado a decisão da mudança de rota no dia 21 de dezembro de 1807 – 11 dias após a terrível tormenta. Salvador tinha sido a primeira capital da colônia e ainda era um importante centro de decisões. Havia um grande ressentimento dos moradores com a mudança da capital para o Rio, em 1763, e o grande receio do governante português era que esse sentimento provocasse algum tipo de insurreição.

SIMPATIA DO POVÃO

Durante sua estada na Bahia, dom João tomou decisões importantes, como a criação da escola médico-cirúrgica (o primeiro curso de nível superior do país e que iria se transformar na Faculdade de Medicina) e da primeira companhia de seguros do Brasil. Também tratou de garantir a simpatia do povão. Mandou reduzir a pena daqueles que estavam presos. E chegou a distribuir moedas de prata na rua, num dia de efusiva manifestação popular.

Apesar da insistência das autoridades locais, que queriam até construir um palácio para dom João, o príncipe-regente finalmente embarcou para o Rio de Janeiro no dia 26 de fevereiro, argumentando que Salvador era mais vulnerável a um ataque francês. Mas designou, em 1810, dom Marcos de Noronha e Brito – conde dos Arcos e último vice-rei do Brasil – para governar a Bahia.

 

Momento família

Passeios e descontração marcaram a passagem do príncipe regente pela Bahia

Dom João fez passeios e aproveitou raros momentos de informalidade. Na visita à ilha de Itaparica, junto com o filho Pedro, acabou por pernoitar na casa de um morador. Impedido de voltar por causa de uma tempestade, o monarca ficou hospedado na residência de João Antunes Guimarães. Mais tarde, Pedro I voltaria ao local, já como o imperador. Hoje, a construção é sede da Secretaria de Turismo de Itaparica.

Saiba mais

LIVRO

Uma história da cidade da Bahia, Antonio Risério, Versal, 2004

A história da Bahia contada desde antes de Cabral até os dias atuais, numa narrativa leve e agradável.

 

Altos e baixos de Salvador

A capital da província no século 19 vivia uma profunda divisão social

Como toda cidade brasileira da época, Salvador apresentava condições quase medievais de higiene e organização. “Foi, sem nenhuma exceção, o lugar mais sujo em que eu tenha estado”, resumiu a inglesa Maria Graham – que seria a responsável pela educação de Maria da Glória, filha do futuro imperador dom Pedro I.

A educadora viajou pelo país no século 19 e descreveu em seu diário as condições do lado pobre da capital baiana: fezes no meio da rua, lojas barulhentas, porcos andando soltos e muita miséria. No quarteirão comercial da cidade baixa, ficavam o cais, o arsenal, a oficina marítima e o mercado de escravos – “uma cena que ainda não aprendi a ver sem vergonha e indignação”, escreveu Graham.

A divisão entre cidade alta (onde viviam os ricos) e cidade baixa (reservada aos pobres) fez de Salvador a perfeita tradução da profunda desigualdade social que existia na colônia. A capital da província tinha cerca de 50 mil habitantes – na maioria, negros e mulatos. Estava em franca decadência econômica por dois motivos: a concorrência da cana-de-açúcar das Antilhas, que diminuiu drasticamente a exportação dos engenhos baianos, e a mudança da capital do Brasil para o Rio, em 1763.

Se na parte baixa predominava o mau cheiro, na alta havia praças amplas, chafarizes e igrejas grandiosas. A Praça do Palácio era o epicentro dessa opulência. A Biblioteca Pública contava com quase 5 mil livros – um luxo para a época. O belo Teatro São João, no largo do Theatro (atual Praça Castro Alves), oferecia vista para o mar. E o Passeio Público, era um jardim amplo e iluminado, com alamedas ladeadas por árvores frutíferas.