Ciclo da Borracha: Paris tropical

O Ciclo da Borracha, iniciado no século 19, revolucionou a economia e o modo de vida na Amazônia. Principal porto de exportação da mercadoria, Belém enriqueceu e ganhou ares de cidade européia

Luciana Zenti Publicado em 01/11/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Viver em Belém no fim do século 19 era coisa chique. No porto da cidade, atracavam navios abarrotados de queijos franceses, vinhos portugueses, vestidos italianos e serviçais europeus – como as requisitadas costureiras belgas. A cultura fervilhava, com exposições e espetáculos de música lírica. Inspirada no luxo da Belle Époque (a “bela época” que marcou a economia e as artes da França antes da Primeira Guerra), a capital paraense orgulhava-se de apelidos como “Paris Tropical”.

Escondidas na floresta amazônica, seringueiras produziam o líquido leitoso responsável por toda essa prosperidade: o látex. Ele foi a matéria-prima para que Belém se tornasse a protagonista do Ciclo da Borracha, que ocorreu entre 1840 e 1920. “A borracha era produzida em várias áreas da floresta, mas o porto mais importante por onde a mercadoria era escoada era Belém. Ali se instituíram financiadoras, exportadoras, bancos ingleses e americanos e muitos trabalhadores estrangeiros”, diz Aldrin Moura de Figueiredo, professor de História na Universidade Federal do Pará. Em 1827, a quantidade de borracha produzida no Brasil não passava de 31 toneladas por ano. Em 1860, já era de 2673 toneladas anuais. Além dos muitos imigrantes – principalmente belgas, italianos, franceses e árabes –, a borracha também atraiu para Belém uma leva de nordestinos maltratados pela seca, que se ofereciam como mão-de-obra barata.

A história da borracha começa no século anterior, em 1743. Durante uma viagem pela Amazônia, o naturalista francês Charles-Marie de La Condamine descobriu que o látex das seringueiras podia ser transformado num material maleável. Mas a borracha só passou a ser usada em larga escala a partir de 1839, quando o americano Charles Goodyear inventou a vulcanização, processo químico que deixou o produto mais resistente às mudanças de temperatura. A vantagem da borracha produzida na Amazônia estava na maior qualidade da goma elástica extraída da seringueira Hevea brasiliensis, que superava a de espécies semelhantes existentes em outros países.

Boemia amazônica

O Ciclo da Borracha mudou a aparência da cidade. “Os governantes e a elite queriam que Belém fosse cópia de Paris e Londres e reproduzisse esteticamente essas capitais”, diz o historiador Figueiredo. Ruas foram alargadas, surgiram grandes edifícios e Belém ganhou água encanada e luz elétrica. “Com a reforma urbana, hábitos tradicionais foram empurrados para o interior”, afirma.

Viver em Belém ficou caro. A alta procura por residências e a grande quantidade de dinheiro circulando fizeram com que a especulação imobiliária corresse solta – em 1884, o cônsul dos Estados Unidos no Pará chegou a dizer que a cidade era “a mais dispendiosa do mundo civilizado em termos de moradia”. A elite da borracha não via problema nisso. Nem em cultivar hábitos como mandar engomar roupas em lavanderias de Lisboa e importar patins – que eram usados no gelo durante férias em países frios.

Para quem tinha tanta vontade de se sentir na Europa, ainda faltava uma grande casa de espetáculos. “Naquela época, havia o clichê de que teatro e civilização caminhavam lado a lado”, afirma Geraldo Mártires Coelho, diretor do Arquivo Público do Pará. Em 1878, a cidade inaugurou o Theatro da Paz – então a mais monumental ópera do Brasil. Já fazia algum tempo que Belém era um pólo de atração de artistas, mas a construção do teatro havia emperrado com a Guerra do Paraguai – que enterrou nos campos de batalha muito dos recursos obtidos com a borracha. “Com o fim da disputa com o país vizinho, em 1970, passou a sobrar dinheiro no Pará e finalmente ele foi canalizado para a construção do teatro”, diz Vicente Salles, autor do livro Épocas do Teatro no Grão-Pará, sobre a história dos palcos na então província.

Além de abrigar eventos artísticos, o Theatro da Paz era um lugar para ver e ser visto. “Fazia parte do jogo da fogueira das vaidades aparecer no teatro para estar no jornal no dia seguinte”, diz Coelho. As noites de espetáculos eram as oportunidades perfeitas para que as damas ricas desfilassem seus vestidos importados. As mulheres mais aristocráticas ostentavam vestidos parisienses, enquanto os homens não dispensavam o fraque e a cartola mesmo sob o calor tropical. Os espetáculos eram patrocinados pelos empresários paraenses, que contratavam famosas companhias líricas brasileiras e estrangeiras para se apresentar na cidade. O teatro recebia visitas ilustres, como a do compositor Carlos Gomes, autor de O Guarani, que, em 1882, apresentou a ópera Salvador Rosa em Belém.

A vida boêmia da cidade, contudo, não era feita só do Theatro da Paz. No mesmo largo da Pólvora (hoje praça da República) onde ele foi erguido, havia pelo menos outras oito casas noturnas. Os teatros exclusivos para homens, como o Cosmopolita, faziam um contraponto com o da Paz. Enquanto este era conhecido pela programação refinada, aquele exibia atrizes européias que trabalhavam como prostitutas. Para os brasileiros, ter a seu lado uma dessas mulheres era artigo de luxo. “Algumas companhias de arte chegavam a fazer tráfico de mulheres para Belém”, conta Salles.

Réquiem para a riqueza

Na outra ponta do mercado da borracha não havia nem luxo nem glamour. Armados de facão, vestindo roupas simples e carregando alimento suficiente apenas para não morrer de fome, lá iam os seringueiros se aventurar na mata atrás da goma elástica. Expostos a um calor intenso e a uma série de doenças, eles passavam meses isolados na selva fazendo o trabalho braçal da extração do látex. Mesmo em áreas onde a seringueira era abundante, era muito raro encontrar uma árvore próxima da outra. Isso forçava o seringueiro a percorrer, todos os dias, grandes percursos para conseguir uma produção considerada bastante baixa.

A comida de que os seringueiros precisavam era fornecida, a crédito, pelo seringalista, o dono das terras cultivadas. Os preços, sempre muito altos, geravam uma dívida eterna para os trabalhadores, que usavam praticamente todo o salário para pagá-la ao patrão. Mas o seringalista também tinha suas dívidas, adquiridas para manter os hábitos luxuosos comuns na elite de Belém. Tudo o que ele consumia era comprado do aviador – uma figura emblemática da época, que seria uma mistura de comerciante com agiota. Na Amazônia, a expressão “aviar” se tornou sinônimo de vender mercadorias a crédito. “O aviador fornecia comida, roupas e objetos ao seringalista, que, passado um tempo, quitava suas despesas pagando com a borracha”, diz Aldrin Figueiredo. Era o aviador que negociava a borracha com as casas exportadoras, antes que a mercadoria fosse embarcada para a Europa e os Estados Unidos.

Enquanto o Brasil despontava como maior fornecedor mundial de borracha, os países ricos promoviam expedições à Amazônia. O objetivo era descobrir novos – e lucrativos – usos para plantas exóticas. Foi numa dessas aventuras que, em 1876, o inglês Henry Wickham enviou à Grã-Bretanha milhares de sementes de seringueira (leia quadro na pág. ao lado). Não demoraria mais de 50 anos para que a riqueza de Belém trocasse de mãos.

A seringueira era uma árvore de difícil cultivo. Os brasileiros optaram por apoiar-se apenas no extrativismo, que tinha custo baixíssimo. Com a explosão da indústria automobilística, no início do século 20, europeus e americanos precisavam de cada vez mais borracha para carros e pneus. A insistência no método mais primitivo de produzir fez com que o Brasil se tornasse incapaz de atender a essa crescente demanda. Enquanto isso, a tentativa britânica de plantar seringueiras, levada a cabo na Ásia, havia se provado um sucesso tremendo. A planta pegou tão bem que, em um intervalo de dez anos, entre 1909 e 1919, a produção asiática pulou de 3685 toneladas para 381860 toneladas anuais. Nessa mesma época, a produção brasileira não passava de 35 mil toneladas.

Enquanto os países importadores de borracha voltavam seus interesses para a Ásia, Belém havia passado a enfrentar forte concorrência interna: Manaus também estava exportando grandes quantidades da mercadoria. Uma das principais vítimas da crise foi o Theatro da Paz, que não podia contar mais com a fortuna dos seringalistas para trazer atrações famosas. A última grande estrela internacional a se apresentar na casa de espetáculos foi a bailarina russa Ana Pavlova, em março de 1918.

Junto com as companhias artísticas estrangeiras, foram embora de Belém os caros hábitos europeus e a efervescência social do ciclo da borracha. Mas esse período deixou, além de nostalgia, um grande legado para a cidade: o gosto pela arte. Com grupos locais e teatro de rua, os próprios paraenses ocuparam a lacuna deixada pela época de maior esplendor artístico que já existiu na Amazônia.

 

Jóia do Amazonas

Orgulho de Belém, o Theatro da Paz foi inspirado nas óperas italianas

Entre as várias mudanças pelas quais o Theatro da Paz passou em seus 128 anos, a primeira aconteceu pouco antes da inauguração, ocorrida em 1878. Foi uma troca de nome. Segundo historiadores, a idéia de usar a palavra “paz” foi uma alusão ao fim da Guerra do Paraguai, travada entre 1866 e 1870. Assim, seguindo a tradição religiosa da época, a construção foi batizada de Theatro Nossa Senhora da Paz. Mas, conforme as obras iam sendo concluídas, a Igreja Católica passou a temer que o palco da casa recebesse peças “impróprias” para o público religioso. Por causa dessa controvérsia, o teatro perdeu a parte santa de seu nome – e ficou sendo apenas o Theatro da Paz, mantendo até hoje a grafia do português antigo.Projetado pelo engenheiro militar José Tibúrcio de Magalhães, o teatro segue o modelo consagrado pelas óperas italianas, com a parte interna construída em forma de ferradura. Quando foi inaugurado, entretanto, ele trazia uma característica que fugia aos padrões arquitetônicos da época: sete colunas sustentando o frontão, quando o normal eram 6. A inovação trouxe tanta polêmica que foi desfeita numa reforma, em 1904, com a retirada de uma das colunas. Foi nessa época que a fachada do Theatro da Paz ganhou suas feições atuais, com bustos que simbolizam a música, a poesia, a dança e a tragédia. O cuidado com a acústica, que é ótima dentro do teatro, também existiu do lado de fora. Quando as ruas em volta do teatro receberam calçamento, ele foi feito com um material especial: paralelepípedos de asfalto comprimido, que abafavam o ruído das carruagens e bondes que passavam por lá e impediam que o intenso movimento atrapalhasse os espetáculos.

1. Escadaria

Feita de pedra francesa, fica no salão de entrada. Entre as passagens, há bustos de mármore representando o poeta Gonçalves Dias e o escritor José de Alencar. As pinturas decorativas do teto são originais da inauguração.

2. Salão nobre

Também chamado de foyer, era usado para abrigar exposições de arte. As pinturas originais dos artistas italianos De Angelis e Capranesi, que ficavam no teto, se deterioraram e foram substituídas na década de 1960 por uma pintura de Armando Balloni.

3. Palco

Em 1890, um ano após o fim do Império, a sala de espetáculos ganhou um pano de boca com uma pintura chamada Alegoria à República, feita em Paris, no ateliê Carpezat. A decoração dos arcos, com folhas de ouro, representa a riqueza da época da borracha.

4. Platéia

Era comum que estudantes e pessoas de baixa renda fossem contratados para aplaudir ou vaiar os espetáculos. Eles sentavam nas torrinhas, no alto da platéia, onde ficavam os assentos mais baratos.

 

Biopirataria à moda antiga

Não se sabe como, mas um inglês levou a seringueira para a Ásia

Era uma vez uma árvore amazônica, chamada pelos cientistas de Hevea brasiliensis e de seringueira pelos nativos. Única no mundo, era alvo de cobiça internacional, pois dela se extraía a melhor borracha conhecida até então. Um belo dia, apareceu o inglês Henry Wickham. Em 1876, ele levou milhares de sementes de seringueira para a Grã-Bretanha e trabalhou anos com pesquisas até que elas pudessem, finalmente, ser plantadas na Ásia. A partir deste ponto, nossa história ganha duas versões completamente distintas. Wickham é herói na Inglaterra e vilão por aqui. A versão brasileira diz que o pesquisador britânico teria entrado em terras brasileiras e simplesmente contrabandeado as sementes de Hevea brasiliensis – biopirataria pura, para usar o jargão atual. Do outro lado do Atlântico, o que se diz é que Wickham nada tem de lobo mau. No livro A Luta pela Borracha no Brasil, o historiador americano Warren Dean defende a tese de que Wickham conseguiu uma autorização oficial a fim de levar as sementes para a Inglaterra As plantas teriam, até mesmo, sido registradas na alfândegae levadas com o estímulo das autoridades brasileiras. “A idéia de que a borracha-do-pará pudesse ser cultivada em algum lugar do outro lado do mundo devia estar muito além da imaginação da maioria dos funcionários públicos brasileiros”, escreveu. Há quem diga até que o próprio governo brasileiro ajudou Wickman na coleta das sementes, mandando índios à floresta para fazer o trabalho. Fruto de ingenuidade ou contrabando, fato é que a saída das sementes de Hevea brasiliensis acabou com um ciclo de milionárias exportações que, para muitos, parecia eterno. Até a velhice, Wickman, o responsável por isso, deu entrevistas contando como tinha sido arriscada e complexa a tarefa de tirar as sementes da selva amazônica e levá-las para a Inglaterra. Louvável ou não, sua aventura lhe rendeu muitos frutos: Wickman ganhou uma pensão vitalícia do governo e conquistou o título de sir – cavaleiro da coroa britânica.

Saiba mais

Livros

A Borracha na Amazônia: Expansão e Decadência, Bárbara Weinstein, Edusp, 1993

Aborda a importância econômica da borracha para o Brasil e faz um paralelo entre os ciclos da borracha e do café.

A Luta pela Borracha no Brasil, Warren Dean, Nobel, 1989

Apresenta a mudança de costumes na cidade de Belém durante o ápice da borracha e mostra o dia-a-dia dos seringueiros.

Épocas do Teatro no Grão-Pará ou Apresentação do Teatro de Época, Vicente Salles, Editora Universitária da Universidade Federal do Pará, 1994

Em dois volumes, a obra descreve o papel da música e do teatro no Pará, do fim do século 19 até o início do século 20.