Como fazíamos sem ALIANÇA

Quanto mais caro o material usado, mais valioso o compromisso

Nathalia Bustamante Publicado em 21/06/2016, às 08h01 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Banquete de casamento no século 18
Banquete de casamento no século 18 - divulg
A noção romântica da troca de alianças como prova de amor entre duas pessoas é recente. Historicamente, o adereço representava parcerias estratégicas entre famílias e servia como demarcação de território – indicando à sociedade quem não estava disponível para ser cortejado. 
Embora variem de acordo com tradições e culturas, os símbolos de compromisso conjugal foram utilizados predominantemente por mulheres ao longo dos séculos. Achados pré-históricos mostram que homens produziam para suas parceiras adornos feitos com grama e fibras vegetais, que elas carregavam nos pulsos, canelas e cintura. Na tradição hindu, mulheres casadas devem usar um pó avermelhado na raiz dos cabelos e não podem sair de casa com os braços descobertos ou sem ornamentos. Em algumas sociedades poligâmicas, os símbolos eram utilizados para diferenciar as esposas das concubinas: entre os assírios, usar um véu sobre o rosto era obrigatório para mulheres casadas e proibido para as amantes; na China antiga, apenas as esposas tinham o direito de usar anéis.
O anel de compromisso mais remoto de que se tem registro foi produzido no antigo Egito, há cerca de 4 800 anos, com fibras vegetais secas. Traduções de hieróglifos indicam que o círculo, já naquela época, simbolizava a eternidade do vínculo matrimonial.
Também foram os egípcios os primeiros a adotar o uso da aliança no dedo anelar, pois acreditavam que passasse ali a Vena Amoris, ou Veia do Amor, que se conectaria diretamente com o coração. Uma perspectiva mais prática, porém, explica que esse dedo foi escolhido por ser menos utilizado e mais protegido de choques que os outros.
Com o tempo, materiais mais resistentes foram adotados – logo, os ornamentos vegetais foram substituídos por anéis feitos de couro, ossos, marfim e metais. Quanto mais caro o material, mais valioso o compromisso, que indicava também a riqueza do parceiro e quanto ele estava disposto a investir na relação.
Acredita-se que os romanos foram os primeiros a gravar a aliança com nomes e mensagens. Durante a cerimônia de casamento, a esposa ganhava dois anéis: um de ouro, para ser usado em festas, e um de ferro, para o dia a dia. Para eles, o uso do anel demonstrava que ela aceitava ser considerada propriedade do marido.
Além do valor simbólico das alianças, outras estratégias foram criadas para garantir a fidelidade das esposas: no Oriente Médio, no século 1 a.C., sultões presenteavam cada uma de suas noivas com uma joia quebra-cabeça. Composto de encaixes entre diversos anéis, o adorno não poderia ser removido sem que a combinação se desfizesse irreversivelmente. Assim, a mulher que retirasse o anel podia ser publicamente julgada por traição. 
O papa Nicolau I foi responsável por tornar a aliança dourada símbolo universal para o casamento cristão. Em 860, ele declarou que todas as noivas casadas pela Igreja deveriam usar uma aliança de ouro; o metal nobre era necessário porque o sacrifício financeiro demonstraria a profundidade da dedicação do noivo. 
A partir de 1500, tornou-se comum que os homens também usassem alianças, embora cerimônias com o rito de troca dos anéis só tenham se popularizado após a Segunda Guerra Mundial – passando de 15% dos casamentos, na década de 20, para mais de 80%, ao final da década de 40.


Para saber um pouco mais

Aliança de noivado
No Brasil usa-se o mesmo anel para noivado e casamento, mas em muitos países não há “sim” sem as caríssimas alianças com pedras preciosas. Mais que declaração de amor, presentear a futura esposa com uma joia de valor é uma herança cultural do noivado como contrato simbólico. Entre os séculos 15 e 19, o presente era tanto uma amostra do poder aquisitivo das famílias como um “seguro-rompimento” para a noiva, a parte mais vulnerável do acordo. O primeiro anel de diamante de que se tem notícia foi dado em 1477 pelo arquiduque de Hammond, da Áustria, à sua noiva, Maria de Burgundy. Mas foi só no século 20 que, por uma jogada de marketing, os diamantes se tornaram sinônimo de noivado: em 1947, a redatora de publicidade Frances Gerety cunhou o slogan “Diamantes são para sempre”. Com isso, ela conectou o produto à eternidade do vínculo matrimonial e criou mercado para a pedra. Por ironia do destino, Frances nunca casou.