Como Fazíamos sem Maquiagem

A arte de sublimar e valorizar o rosto

Nathalia Bustamante Publicado em 30/09/2016, às 14h19 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

No Egito antigo, maquiar-se estava ligado à espiritualidade
No Egito antigo, maquiar-se estava ligado à espiritualidade - divulg
Da Idade da Pedra na África aos povos nativos da América, dos casamentos hindus às passarelas da Europa, o ato de pintar a pele pode ser considerado um dos mais antigos e onipresentes rituais da espécie humana. Há, porém, uma longa distância entre os pigmentos minerais ocre utilizados pelos primeiros Homo sapiens, há 100 mil anos, e os cosméticos modernos, vendidos em revistinhas e farmácias.
Essas substâncias, empregadas a princípio em cerimônias tradicionais e religiosas, com o tempo passaram a ser usadas para reforçar o status social, copiar determinados padrões de beleza ou por razões práticas, como hidratar a pele e protegê-la do sol.
Achados egípcios de mais de 10 mil anos são as primeiras evidências do uso de cosméticos no cotidiano: foram encontrados restos que indicam marcações nas pálpebras feitas com resíduos minerais e vegetais. No Egito antigo, a maquiagem era considerada uma arte, associada à espiritualidade – os olhos eram especialmente valorizados por causa da mitologia, que os considerava “espelhos” da alma. 
O kohl – mistura de carvão, cinzas e chumbo – foi criado lá, e homens e mulheres da nobreza o utilizavam para aumentar seus olhos e protegê-
los de “espíritos malignos”. Outras “sombras”, encontradas em pirâmides e datadas de cerca de 4 mil a.C. tinham em sua composição, também, fuligem e pó de asas de besouros.
As classes mais ricas pulverizavam o rosto com produtos à base de giz e chumbo; as mais humildes usavam azeite de oliva. Tais produtos davam um tom alvo à pele, acentuado pela pintura das veias do peito, têmporas e pescoço com índigo (corante azul). Em eventos, os cosméticos eram carregados em pequenas caixas e mantidos sob as cadeiras.  
Enquanto os egípcios cuidavam especialmente da pele e dos olhos, os sumérios foram os primeiros a usar batons, feitos de cera de abelha. Por volta de 3 mil a.C., pó de pedras semipreciosas também era utilizado para decorar os lábios e o contorno dos olhos. Acredita-se que os judeus não tenham demorado a adotar tais práticas, pois há referências a tratamentos de beleza semelhantes no Antigo Testamento, em textos datados de 840 a.C.
Na Grécia antiga, a maquiagem começou a se desvencilhar do espiritual e, simultaneamente, o uso entre mulheres passou a ser mais proeminente. As gregas não usavam muito batom nem kohl, mas enfatizavam as sobrancelhas com produtos à base de pele de boi e marcavam as bochechas com extrato de frutas vermelhas.
Entre os romanos, o kohl era utilizado para escurecer os cílios, e giz era aplicado para branquear a pele. Pedra-pomes também passou a ser usada para clarear os dentes. Os produtos, geralmente feitos à base de óleos naturais, nem sempre tinham o efeito desejado sob o calor do verão mediterrâneo. Um texto creditado ao romano Ovídio critica: “Como não sentir repugnância diante da pintura espessa se dissolvendo e escorrendo até seus seios?”.
Durante a Idade Média, a maquiagem colorida, com olhos e lábios marcados, era associada ao pecado e deixou de ser bem-vista no Ocidente. Mulheres ricas usavam máscaras de farinha de trigo e mel e era comum que colocassem sanguessugas no rosto para retirar o “excesso” de sangue. 
Com o Renascimento, os produtos de beleza voltaram a se popularizar na Europa, especialmente na Itália e na França. Homens e mulheres na nobreza adotaram a maquiagem como sinal de status – em especial o pó de arroz, que valorizava a palidez de quem não precisava se expor ao Sol. 
A recepção, porém, não foi boa em todos os lugares: no século 19, a rainha Vitória, do Reino Unido, declarou que a maquiagem era “imprópria, vulgar e aceitável apenas para atores”. Isso resultou em uma resistência aos produtos de beleza na Inglaterra e nos Estados Unidos, só superada no início da década de 1920, com a industrialização da produção de cosméticos e a explosão dos salões de beleza.