Confira como a trajetória do vaso sanitário refletiu em mudanças na sociedade

Mesmo tardia, a invenção do vaso sanitário começou a resolver uma séria questão de saúde pública que, por incrível que pareça, assombra a humanidade até hoje

Bruno Lazaretti Publicado em 04/07/2012, às 15h35 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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privada - Arquivo Aventuras

Gravidade, inércia, ação e reação já estavam explicadas nas melhores livrarias de Londres em 1687, enquanto a cidade inteira cheirava a excremento humano - as valetas de rua, estagnadas de fezes e urina, atraíam moscas, ratos e outras pragas. A civilização esperou 6 mil anos para que Isaac Newton publicasse as leis da física, mas teve de aguardar mais um século para que Alexander Cumming patenteasse a primeira privada, em 1775. A Inglaterra, centro e vanguarda do "mundo civilizado", foi o império do penico e da cloaca. A estrutura mais parecida com um esgoto era o rio Tâmisa, que recebia com as chuvas o lixo abandonado. Cólera e febre tifoide eram só algumas das enfermidades comuns por falta de saneamento - em Londres ou em qualquer lugar. "Além das bactérias, os dejetos também podem transmitir vírus, como o rotavírus e o da hepatite A", diz o infectologista Stefan Cunha Ujvrai.

A dificuldade por trás dessa "demora" não foi tecnológica, mas lógica. Sem a assimilação entre doenças e o tratamento inadequado dos excrementos, avanços e retrocessos na área sanitária revezavam-se à revelia da cronologia histórica. Os romanos tinham sistemas exemplares no século 4, mas, na Idade Média, o hábito nas cidades europeias era esvaziar os penicos pela janela. Newton teve sorte com aquela maçã... Até o século 15, o mais comum era promover "o despejo" do andar superior da casa. Em Paris, antes, gritava-se "Água vá!".

O vaso sanitário conectado a uma rede de esgoto subterrânea ficou popular só a partir do século 19. "Foram as cidades industriais lotadas da Inglaterra Vitoriana que ergueram a privada moderna, especificamente por causa das epidemias crônicas de cólera", afirma Julie Horan, professora de educação comparada na Universidade da Virgínia. Mas o herói dessa revolução foi mesmo o reformista inglês Edwin Chadick, que, em 1842, relacionou doenças como aquela ao indevido tratamento dos excrementos humanos. Uma conclusão aparentemente mais simples e menos importante do que "toda partícula de massa no universo atrai outra". Bem, você não pensaria assim se tivesse de limpar sua própria latrina.

Clique na imagem para ampliar (design: Fábio Matxado / ilustração: Pedro Hamdam)