Confira o trabalho do fotógrafo que registrou a criação de Brasília

Marcel Gautherot, um francês apaixonado pelo Brasil, é autor do principal registro da construção de Brasília, que completa 50 anos

Flávia Ribeiro Publicado em 01/04/2010, às 15h21 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

fotógrafo Brasília
fotógrafo Brasília - Arquivo Aventuras

Para Lúcio Costa, trata-se do "mais artista dos fotógrafos". E o arquiteto conhecia a fundo seu trabalho. O francês Marcel Gautherot (1910-1996) acompanhou, de 1958 a meados de 1960, cada detalhe da obra que levantou Brasília. Das suas 25 mil fotos preservadas, 10% retratam a construção da capital planejada por Costa e Oscar Niemeyer no planalto Central. "Durante muitos anos, Marcel foi nosso fotógrafo preferido. E as fotos que fazia... Como sabia encontrar os pontos de vista adequados, os contrastes da arquitetura que tão bem compreendia!", escreveu Niemeyer em O Brasil de Marcel Gautherot. Ecos de seus estudos na Escola Nacional de Artes Decorativas, nos anos 1930, ainda na França. Lá, como funcionário do Museu do Homem, aprendeu a fotografar. Na mesma época leu o romance Jubiabá. Fascinado pela Bahia de Jorge Amado, desembarcou em 1939 para sua primeira visita ao Brasil. No ano seguinte, Rolleiflex em punho, mudou-se de vez. Acima de tudo, queria conhecer os brasileiros. "Detesto a fotografia espetacular. Eu me interesso mais pelo povo", dizia.

Gautherot se fixou no Rio de Janeiro, onde se tornou funcionário do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), mas viajou principalmente ao Norte e Nordeste, e circulou por todo o país. "A solidariedade humana transparecia em suas fotos. Ele estava interessado no homem e na forma como ele vivia, sem paternalismo", diz a crítica de arte Lélia Coelho Frota, autora de artigo sobre o francês na abertura de Retratos da Bahia: Fotografias.

Palácio da Alvorada, 1962 (Foto: Marcel Gautherot / IMS)

Pelo SPHAN, documentou da arquitetura colonial ao que havia de mais moderno, como as criações de Niemeyer e do paisagista Burle Marx. "Graças à amizade com Niemeyer, Gautherot teve acesso ilimitado às obras. Seu primeiro diferencial é a completude. Além disso, uma afinidade estética unia Costa, Niemeyer e o fotógrafo. Ele capta a essência da arquitetura modernista, a interação entre o prédio e a luz, entre o feito pelo homem e o providenciado pela natureza", afirma Samuel Titan Jr., coordenador do Instituto Moreira Salles e um dos editores do livro Brasília — Marcel Gautherot, a ser lançado em abril, com a exposição As Construções de Brasília, no IMS carioca.

A nova capital era a metassíntese do Plano de Metas do presidente Juscelino Kubitschek, que queria fazer o país crescer "50 anos em 5". O projeto de levantar uma cidade daquela magnitude e ainda abrir 20 mil quilômetros de estrada em menos de quatro anos foi visto com descrença. JK delegou a missão a Costa e Niemeyer. "A ideia de interiorizar o Brasil vinha de um projeto pensado desde a colonização. Mas Brasília não seria possível fora do contexto nacional-desenvolvimentista, que começa com Vargas, em 1930, e só se encerra em 1964. É o símbolo de uma proposta que incluía o estabelecimento de comunicação com estados antes isolados", afirma o historiador Osvaldo Munteal Filho, da Uerj, autor de A Imprensa na História do Brasil: Fotojornalismo no Século XX.

Monumental, a empreitada custou na época 1,5 bilhão de dólares (mais de 80 bilhões hoje), segundo estimativa do ex-ministro da Fazenda Eugênio Gudin. Foi levada a cabo por milhares de operários: em 1959, havia na capital mais de 30 mil trabalhadores, que entregaram, na inauguração, 360 mil metros quadrados de construções prontas e 143 mil metros quadrados de obras em andamento. "Brasília tem a perspectiva estética e física do Brasil de dentro para fora. E é uma capital de linhas arrojadas", diz Munteal Filho. Gautherot entende como poucos a intenção do projeto da cidade. Fotografa a luz passando sobre estruturas vazadas, os espaços vazios entre os prédios, usa a luminosidade do cerrado. E não se detém no concreto. Foca os candangos, os operários vindos principalmente do Norte e do Nordeste, instalados em barracos, a gênese das favelas na região.
Gautherot morreu de câncer, em 1996, no Rio. Deixou um filho brasileiro e um registro extraordinário sobre o país. O cinquentenário da capital é só mais um motivo para rever sua obra.


Saiba mais


LIVROS

Brasília - Marcel Gautherot, Samuel Titan Jr. (org.), IMS, 2010

Dedicado à capital, este é o quarto título do IMS (que detém o acervo desde 1999) sobre o francês. Os outros livros são O Brasil de Marcel Gautherot, Paisagem Moral e Norte. Mais informações sobre a exposição comemorativa aos 50 anos de Brasília na pág. 63.

Retratos da Bahia: Fotografias, Lélia Coelho Frota, Pinacoteca, 1996
Um artigo introduz imagens de Gautherot. Em vida, ele publicou nove livros.