A corrida pelo primeiro vôo

Na mesma época de Santos Dumont, outros inventores criaram engenhocas bizarras - do varal alado ao avião-morcego - na tentativa de ganhar os céus

Amauri Segalla Publicado em 01/09/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

A Paris do início do século 20 era o lugar ideal para pessoas que possuíam algum grau de excentricidade. Tolerante, a cidade abrigava gente de todos tipos. Além de intelectuais, escritores, artistas, boêmios, milionários, príncipes e cientistas, a capital da França recebia com orgulho inventores que disputavam a primazia de conceber a forma mais eficaz de voar. Enquanto Santos Dumont reinava como uma espécie de guru dessa turma, muitos aviadores desenvolviam aeroplanos bizarros aos olhos de hoje, mas verdadeiras proezas para um período em que os automóveis ainda eram raros. Quanto mais esquisita a máquina supostamente voadora, maior era o destaque nas páginas dos jornais, o que tornava os jovens inventores estrelas pop cortejadas nas ruas, cafés e restaurantes.

Os campos de prova atraíam multidões, embora quase sempre os experimentos terminassem sem alcançar seu objetivo – o de voar, obviamente. Não era um desafio simples. Os estudos no campo da aerodinâmica aérea avançavam rapidamente, mas havia ainda muita incerteza quanto à possibilidade de decolar com uma estrutura pesada e de motor potente, capaz de gerar força suficiente sem, no entanto, destruir a aeronave e o piloto. A química dos combustíveis também alcançara um estágio surpreendente, mas explosões não eram raras de acontecer. Dezenas – talvez centenas – de pioneiros morreram em suas tentativas, o que só reforçava o aspecto heróico dos primeiros aviadores.

A atmosfera revolucionária, realçada por conquistas recentes como os grandes balões e os dirigíveis movidos a gás, impulsionava os inventores, apesar dos perigos evidentes. Eles sabiam que o primeiro a realizar um vôo num aparelho mais pesado que o ar teria como recompensa a glória definitiva. Numa feliz coincidência histórica, naquele momento a fotografia também avançava a passos largos, o que permitiu que fotógrafos profissionais e amadores registrassem para a posteridade as imagens dos inventores e suas máquinas aladas. Parte dessas imagens saborosas está no livro Aviation: The Early Years (Aviação: Os Primeiros Anos), publicado em Londres pela The Hutton Getty Picture Collection.

 

Excesso de peso

Um dos aviadores mais populares na virada do século 19 para o século 20 era o francês Clement Ader. Mais do que um aventureiro, Ader era um cientista por vocação. Formado em engenharia, foi o responsável pela instalação dos primeiros telefones em Paris e por notáveis experimentos com motores a vapor. Em 1890, ele teria conseguido levantar a 20 centímetros do solo, por alguns segundos, numa engenhoca mais pesada que o ar, o Eole. No entanto, o feito não foi confirmado pela falta de testemunhas. Sete anos depois, Ader apresentaria ao mundo o Avion III, aeronave com hélice de bambu e asas de seda. O aparelho foi inspirado em seus estudos sobre morcegos. Com motor a vapor que deveria gerar uma força equivalente a 40 cavalos, o Avion III jamais decolaria, justamente por ser pesado demais. No entanto, o gênio inventivo tornou-o famoso na Europa e idotrado na França, onde até hoje é considerado um dos pioneiros da aviação.

O reconhecido rigor científico de Clement Ader não era norma entre muitos de seus contemporâneos. Bem ou mal, o avião-morcego incorporava conceitos aerodinâmicos e não poderia ser acusado de aberração. O mesmo não se pode dizer do extravagante aparelho construído em 1908 pelo marquês d’Ecquevilley- Montjustin. Estranhas telas fixadas por uma armação de tubos de aço e sustentadas por uma hélice de 2,5 metros de comprimento lembravam a forma de um varal. Para levar o vôo, o aparelho contava com um motor de 7 cavalos. Animado com a obra, Montjustin acionou a imprensa, que acabou por fazer algum estardalhaço. No dia e hora marcados, o varal alado fez inúmeras tentativas e, claro, nada de levantar vôo.

Mesmo aqueles que conseguiram sair do solo por uma margem pequena não puderam reinvidicar a invenção do avião. Justamente por voar muito baixo e percorrer distâncias curtas demais, sem sustetanção, eles fazem parte de um seleto grupo de notáveis – mas não tem seu mérito historicamente reconhecido. Um caso clássico é o do engenheiro romeno Trajan Vuia, que em março de 1906 fez seu monoplano decolar a uma altura de um metro e a voltar ao chão 12 metros depois. O feito foi alcançado no região de Montesson, perto de Paris, e passou para a posteridade por uma outra razão. Puxado por um motor de automóvel de 26 cavalos, seu monoplano tinhas rodas, constituindo-se num precursor primário do trens de pouso que anos depois passaram a fazer parte da estrutura de toda aeronave.

Houve, no entanto, quem levantasse vôo por poucos metros, mas mesmo assim conseguiu um lugar nobre na história da aviação. Em 1906, Paul Cornu, um modesto inventor que desenvolvia motores, triciclos a vapor e automóveis, construiu a primeira máquina capaz de fazer uma decolagem vertical, o que lhe garantiu um lugar na história como o inventor do helicóptero. Movida por um motor de 2 cavalos, a máquina consistia numa estrutura composta por duas rodas de bicicleta ligadas por um correia, um chassi de aço e telas de seda dispostas como hélices. Em novembro daquele ano, o aparelho decolou verticalmente, sem piloto, e permaneceu por quase 2 minutos no ar – uma eternidade. Em 1907, Cornu foi mais longe: ele próprio voou durante 20 segundos a 30 centímetros do chão num aeroplano com asa rotatória

Precursor do joystick

As mentes brilhantes que viviam na Paris do início do século 20 foram responsáveis pelo surgimento de vários equipamentos e artefatos tecnológicos que ainda hoje, 100 anos depois, continuam a demonstrar eficiência na suas aplicações. O matemático e físico Robert Esnault-Pelterie desenhou e construiu vários aeroplanos, todos eles batizados com as iniciais R.E.P, marca que se tranformou num mito no mundo da aviação. Pelterie introduziu os amortecedores nas rodas e inventou o cinto de segurança. Mas sua maior criação foi o manche, como é chamado o volante dos aviões. Os primeiros exemplares que construiu tinham alavancas verticais e deslocavam-se de forma longitudinal. Daí a explicação para o fato de muitos atribuírem a ele a invenção do joystick. Hoje, há na internet comunidades de jogadores de videogame que consideram o aviador francês um mito.

Algumas dessas conquistas devem-se à competição tecnológica e científica estimulada pelas autoridades francesas. Era comum o lançamento de desafios e prêmios em dinheiro conferidos a aviadores que alcançassem determinados feitos – o próprio Santos Dumont venceria alguns deles. Em 1908, os parisienses ficaram especialmente eufóricos com a façanha de Henri Farman e Gabriel Voisin, vencedores da prova do primeiro vôo de um quilômetro. O biplano pilotado por Farman, que se tornaria amigo de Santos Dumont, fez um vôo circular de 1,5 mil metros e, o que ainda era considerado um fato notável, aterrissou em segurança. Meses depois, Farman atingiu a marca de 2 mil metros. Não demorou e as grandes distâncias percorridas pelos aviões tornaram-se banais, mas os feitos desses desbravadores dos ares permaneceram intocados pela história.

Como um albatroz

No rol de esquistices, poucos inventores foram tão criativos quanto o marinheiro Jean-Marie Le Bris. Homem ligado ao mar, Le Bris construiu um um planador inspirado num albatroz. O aparelho tinha casco igual ao de um barco, asas e rabo de pássaro. Em 1868, Le Bris decolou após ser puxado por cavalos a galope. Para sua surpresa – e pavor – o planador atingiu uma altura de 100 metros, mas conseguiu pousar na areia com segurança. Le Bris teve o mérito de deixar para a posteridade o primeiro registro fotográfico de um aeroplano.

Transporte de carga

O primeiro vôo de carga ocorreu em novembro de 1910, quando uma loja de departamentos de Columbus, nos Estados Unidos, contratou os irmãos Wilbur e Orville Wright – que sete anos antes haviam voado pela primeira vez com o Flyer – para transportar um lote de seda até a cidade de Dayton, em Ohio. O vôo foi realizado em meio a protestos da imprensa local, que não se conformava com o fato de os trens terem sido preteridos em favor do “perigoso e imprevisível avião”. Um anos depois, também nos Estados Unidos, foi realizada a primeira experiência de correio aéreo.