A criação de Israel: uma data para não ser esquecida

O fato restituiu a dignidade a um grupo sofrido, discriminado e massacrado. Ficaram para trás as imagens do usurário e do amedrontado do gueto ou da aldeia da Europa Oriental

Moacyr Scliar Publicado em 01/05/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Eu era um garoto de apenas 11 anos. Na noite de 14 de maio de 1948, caminhava pelas ruas do Bom Fim, o bairro judaico da cidade de Porto Alegre. Lugar tranqüilo, de casas modestas. Àquela hora, 10 da noite, tudo deveria estar em silêncio. Mas não estava. Pelas janelas abertas, via pessoas cantando e dançando, pessoas se abraçando, pessoas soltando brados de alegria. Não era para menos: naquele dia, havia sido proclamado o Estado de Israel. E uma explosão de júbilo percorreu as comunidades judaicas do mundo inteiro.

A criação de Israel correspondeu a uma aspiração histórica. Quase 2 mil anos antes, ao final de uma fracassada rebelião contra o Império Romano, os judeus que habitavam a Palestina foram levados para Roma como escravos ou forçados a deixar a terra de seus antepassados. Diáspora. E não era a primeira. Tragédia parecida já havia ocorrido no século 6º antes de Cristo – a deportação de Jerusalém para a Babilônia, também resultado de uma derrota militar.

Por mais longe que estejam, no entanto, judeus não esquecem sua terra de origem. Textos tradicionais dizem isso. Uma passagem bíblica foi transformada por Luís Vaz de Camões em versos admiráveis:“Sôbolos rios que vão / por Babilônia, me achei / Onde sentado chorei / as lembranças de Sião / e quanto nela passei”.

No texto que acompanha a celebração do Pessach, a Páscoa judaica, há uma frase que simboliza exemplarmente a esperança do retorno: “No ano que vem, em Jerusalém”.

A Esperança (HaTikva), aliás, é o nome do hino nacional de Israel. Composto antes mesmo da proclamação de independência, ele fala da aspiração por um ­lar nacional para o povo judeu.

A presença judaica, ainda que pequena, sempre existiu em cidades como Jerusalém e Safed. Tratava-se, sobretudo, de judeus religiosos, fiéis à tradição e amparados pela expectativa da vinda do Messias. No século 19, porém, surgiu um movimento que extrapolava a religião e adquiria caráter político: o sionismo. Seu criador, o judeu de origem austríaca Theodor Herzl, deu-se conta da tragédia de seu povo quando, na qualidade de jornalista, foi designado para cobrir o famoso caso Dreyfus, na França. Nesse processo, o oficial do Exército francês Alfred Dreyfus foi falsamente acusado de espionagem em favor da Alemanha. As conotações anti-semitas do caso eram bem mais do que óbvias. ­­ E convenceram Theodor Herzl de que os judeus precisavam de seu próprio país.

O nascimento do sionismo político coincidiu, não por acaso, com a ascensão do nacionalismo, com o surgimento de modernas nações-estado como Itália e Alemanha e com o início das lutas contra o colonialismo. Mas o movimento sofreu uma brusca inflexão. O final do século 19 assinalou também a emergência do socialismo na Europa. Muitos judeus eram socialistas. Eles viam, na opressão a seu povo, o resultado de uma desigualdade social que precisava ser corrigida. A combinação de sionismo e socialismo indicou o caminho e deu origem a um grande fluxo migratório em direção à Palestina. Eram jovens. Lá, eles fundavam colônias coletivas: os kibutzim.

Então, sobreveio o Holocausto. As revelações sobre o massacre de judeus deram dramática legitimidade ao movimento sionista e à reivindicação de um território. A fundação de Israel, agora, era uma questão de justiça, uma necessidade urgente. A questão deveria ser decidida pela recém-criada Organização das Nações Unidas. EUA e URSS apoiavam a partilha da Palestina e a criação de dois Estados – um árabe, outro judeu.

Com as superpotências coincidindo em seus pontos de vista, não foi difícil para a Assembléia Geral da ONU aprovar, em novembro de 1947, a divisão da Terra Santa. O projeto foi rejeitado pelos representantes dos países árabes. Mas os judeus, liderados por David Ben-Gurion, levaram a proposta adiante. Quase seis meses depois, 14 de maio de 1948, proclamaram a independência. Imediatamente estourou o conflito bélico, vencido pelos israelenses. Outros conflitos vieram, notadamente a Guerra dos Seis Dias. Israel consolidou-se como potência militar. Desde então, trava-se uma luta amarga e desumana entre israelenses e palestinos, que, ao longo dessas décadas, acabaram por forjar uma identidade nacional. Há consenso de que a existência de dois Estados independentes pode ser a solução para este dramático impasse.

Israel representa uma mudança transcendente na multimilenar trajetória dos judeus. Em primeiro lugar, correspondeu a uma necessidade real. Privados de um lar nacional, os judeus viram-se reduzidos à condição de grupo marginal. Essa marginalidade expressava-se na criação dos guetos e na proibição do exercício de certas atividades – na Idade Média, judeus não podiam ser proprietários de terras. Por isso tinham de exercer funções desprezadas, como foi o caso, na sociedade medieval, da usura. Esta era proibida para os cristãos. Mas como alguém tinha de fornecer aos senhores feudais o dinheiro para expedições guerreiras e bens de luxo, a usura foi delegada aos judeus. Era um arranjo muito conveniente: se o senhor feudal não podia – ou não queria – pagar a dívida, tudo o que tinha de fazer era desencadear um massacre.

Um Estado era condição indispensável para a construção de uma sociedade normal. Israel cumpriu essa função. O país restituiu a dignidade a um grupo sofrido, discriminado e, não raro, massacrado. Ficaram para trás as deprimentes imagens do usurário, do amedrontado do gueto ou da aldeia da Europa Oriental. Agora, os judeus tinham sua terra e eram capazes de defendê-la. A culpa judaica fora substituída pelo orgulho, pela autoconfiança. Hoje, eles orgulham-se de seu país. Israel representa uma conquista não apenas de um grupo étnico, mas de toda a humanidade. A história, no fim das contas, acaba por fazer sentido.

Moacyr Scliar é médico sanitarista, autor de mais de 70 livros (muitos deles têm a condição judaica como tema central) e membro Academia Brasileira de Letras.