Crianças de Grozni: Infância roubada

Jornalista relata o dia-a-dia sofrido das crianças na Chechênia

Fábio Varsano Publicado em 01/06/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

O garoto Timur era chicoteado com um fio de metal com a ponta em brasa. Sua irmã, Liana, foi violentada aos 8 anos pelo tio, que manteve a rotina de estupros por mais seis anos até ser preso em flagrante. Adlan perdeu a fala desde que sua mãe começou a espancá-lo todos os dias. Os nomes foram trocados, mas os dramas são verídicos. Com histórias assim, a jornalista norueguesa Asne Seierstad, autora de O Livreiro de Cabul, compôs em seu novo livro, Crianças de Grozni, um retrato da tragédia que se abateu sobre a Chechênia a partir de 1994, quando a república tentou se separar da Rússia. Seguiram-se dois conflitos, que, somados, provocaram 300 mil mortes e deixaram pelo menos 25 mil órfãos.

Situada entre as montanhas do Cáucaso, na Ásia Central, a Chechênia era ocupada por tribos nômades até o século 14, quando grupos islâmicos fixaram residência por lá. Os primeiros embates com os russos ocorreram dois séculos depois, na época do czar Ivan IV, o Terrível. Em1859, o país foi anexado ao Império Russo. Focos de resistência surgiram logo após a Revolução Russa de 1917. Em 1944, Josef Stálin ordenou a deportação de 400 mil chechenos para a Sibéria e o Cazaquistão. O fim da União Soviética fez renascer o desejo de independência, decretada em 1991. A reação veio em 1994, em uma guerra de dois anos. Em 1999, Moscou começou outro conflito; em resposta, a resistência chechena se aproximou de grupos terroristas. Nessa escalada de violência, o ponto mais bárbaro foi o massacre de Beslan, em 2004, quando o resgate de 1200 vítimas tomadas reféns em uma escola na Ossétia do Norte terminou com 339 vítimas fatais. Destas, 186 eram crianças.

 

Entrevista

História – A Chechênia tem alguma chance de se tornar independente?

Asne Seierstad – Não acredito nisso. A Chechênia foi a primeira nação conquistada pelas forças do czar, em 1859, e a primeira e tentar abandonar a Rússia depois do fim da União Soviética. Acontece que, se a Rússia não quer, a independência é impossível. Estamos falando de uma nação de 1 milhão de pessoas lutando contra um estado de 150 milhões de habitantes. Além disso, a partir de 1996, a Chechênia até alcançou alguma independência, mas aí começou a tropeçar nos próprios conflitos internos. Depois do segundo conflito, em 1999, a população chechena se cansou de guerra. Hoje eles preferem uma vida estável à própria independência.

Mas, no plano religioso, a região não tem autonomia?

Sim, tem. Quando se trata de religião, Ramzan Kadyrov, o presidente checheno, faz o que bem entende. Ele chega ao ponto de colocar guardas armados em frente à universidade de Grozni, a capital, para impedir a entrada das estudantes que não estejam com o rosto inteiramente coberto por véus. Além disso, a censura à imprensa e as perseguições aos adversários do presidente são muito sérias, e o governo da Rússia faz vista grossa para o problema. Mesmo que se tornasse um estado totalmente independente, a Chechênia de hoje não seria uma democracia.