Cuidado: Nigéria - país inflamável

O petróleo traz riqueza e esperança para o país, mas alimenta as diferenças de uma terra devastada pelos conflitos entre 250 etnias

Isabelle Somma Publicado em 01/05/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

O mais populoso país africano sofre com as mesmas dificuldades de seus vizinhos. Com um agravante: as pragas que assolam a Nigéria têm dimensões ainda maiores. Dentro de suas fronteiras, habitam 130 milhões de pessoas, ou quase 15% da população de todo o continente. É um verdadeiro caldeirão multirracial, dividido em 250 etnias de diferentes línguas e religiões, que disputam o poder desde a época em que o país conquistou a independência dos britânicos, em 1960. Para piorar, a Nigéria abriga o terceiro maior contingente de contaminados pelo vírus da AIDS do mundo, atrás somente da África do Sul e da Índia.

Nesse mar de problemas, a nação tem o que poderia ser considerada uma tábua de salvação: grandes reservas de gás natural, ferro, estanho e, principalmente, petróleo. Mas o ouro negro não traz apenas esperança e riqueza. Paradoxalmente, ele tem sido combustível para os mais violentos conflitos internos, alimentando ainda mais as disputas étnicas da região. Encontrado no delta do rio Níger, área dominada pela etnia ibos, o petróleo já desencadeou uma inflamada guerra civil que matou um milhão de pessoas. Hoje, responde por 90% do PIB local.

A Nigéria é o principal produtor e exportador do óleo na África e ocupa a sétima posição no mercado mundial. No entanto, as receitas geradas por ele abastecem governos corruptos, fortalecem o exército e não têm trazido benefícios para a população. Pelo contrário, as plataformas são hoje o alvo preferido dos grupos rebeldes nigerianos, que dinamitam e explodem estações, como forma de pressionar as autoridades a dividir as receitas de forma mais justa.

Atentados, roubos e seqüestros de funcionários estrangeiros são freqüentes nos locais de extração. Na última ação, em março deste ano, as milícias atacaram um importante oleoduto da italiana Agip. A produção diária foi parcialmente interrompida e caiu para 25% da capacidade total do país. Em janeiro, pelo menos oito pessoas morreram em um atentado a uma plataforma da Shell, que explodiu, dinamitada pelas milícias separatistas. O desvio de petróleo é outra prática comum. As estações passam no meio de vilas e aldeias paupérrimas, e seus moradores sabotam constantemente as instalações para provocar vazamentos e coletar o líquido em baldes e latas. Em 2003, 105 pessoas morreram em um incêndio em Port Harcourt, no sul do país. Em 1998, a explosão de um oleoduto deixou um saldo de mais de 500 mortos.

Outro problema é degradação do meio ambiente. Segundo a jornalista norte-americana Amy Goodman, que visitou o país em 1998, os oleodutos atravessam áreas densamente ocupadas, espalhando clarões resultantes da queima de resíduos. “Vivendo sob o clarão das chamas, as crianças não conhecem a noite escura. Elas respiram a poluição oriunda desses clarões, um método barato de queimar resíduos de metano, raramente permitido nos EUA. O povo não tem gás nem petróleo para si mesmo”, afirma Goodman no livro Corrupção à Americana (Bertrand Brasil, 2005). Ela também afirma que sucessivos governos norte-americanos apoiaram as ditaduras locais a fim de manter o controle do petróleo nas mãos de duas grandes companhias dos EUA. A agricultura, outrora próspera pelas terras férteis do delta do Níger, também vem sendo abandonada em favor do trabalho nos campos de petróleo.

Escravidão

A situação atual é um reflexo de séculos de espoliação de homens e de recursos por parte dos invasores europeus. Os primeiros a chegar foram os portugueses, no início do século 15. Chamada de Costa do Ouro, pela riqueza ali encontrada, a região trocou rapidamente de nome. Passou a ser conhecida como Costa dos Escravos, graças ao tráfico de seres humanos intermediado pelos recém-chegados. Depois vieram os navios holandeses, franceses e ingleses. No século 19, pelo menos 30% dos escravos retirados do continente vinham do oeste africano. Calcula-se que aproximadamente 4 milhões de pessoas deixaram a África como escravos, por meio dos portos da região, principalmente, o de Badagry.

No século 19, os britânicos chegaram para ficar. Com a intenção de explorar os negócios nos arredores do Delta do rio Níger, instalaram uma colônia em que o governo era local, mas controlado pelos agentes reais. “Um dos legados do colonialismo para o país, do lado político, é o senso pouco institucionalizado de identidade e interesse nacionais”, diz Keith Shear, professor do Centro de Estudos do Oeste Africano da Universidade de Birmingham, na Inglaterra. Por isso, assim como acontece em muitos países de Terceiro Mundo, a corrupção é um dos principais problemas encontrados atualmente na Nigéria.

Independência

A independência veio em 1960, com a bênção dos colonizadores. O novo país contava com mais de 250 etnias, que agora dividiam um mesmo território e uma mesma nacionalidade. Entre os principais grupos étnicos estão os hauçás e os fulanis, em sua maioria, muçulmanos que vivem ao norte, os ibos, cristãos e adeptos de cultos animistas acomodados a sudeste, e os iorubas, a sudoeste, também de influência muçulmana. “O colonizador atuou para abafar as diversidades que, aparentemente adormecidas, ressurgiram com grande força no fim do sistema colonial e foram reforçadas no pós-independência”, afirma a professora de História da USP, Leila Leite Hernandez, no livro A África na Sala de Aula (Selo Negro, 2005). A tensão culminou na Guerra de Biafra (leia box), uma das maiores tragédias ocorridas na África.

No pós-guerra, a história do país foi marcada por golpes e contragolpes militares. Pelo breve período de 1979-83, houve um governo democrático. A última ditadura do país foi marcada pela corrupção e grande repressão contra os opositores. Os excessos do ditador Sani Abacha podem ter provocado sua morte em 1998. Um ataque cardíaco fulminante foi a versão oficial, mas acredita-se que ele foi eliminado por um grupo de opositores dentro de seu próprio governo. Com a morte do ditador, foram convocadas eleições e Olusegun Obasanjo, militar aposentado que fazia oposição a Abacha, elegeu-se presidente. Em 2003, foi reeleito com índices próximos a 100% em algumas regiões, o que provocou acusações de fraude.

No governo de Obasanjo, cresceram as violências étnica, política e religiosa. A partir de 2000, os conflitos religiosos também começaram a explodir. O país é dividido em 36 Estados, cada um deles formados por grupos étnicos e religiosos diversos, com línguas e culturas distintas. Estimativas atuais revelam que 46% da população são cristãos, 44%, muçulmanos; e 10% seguem cultos animistas. Por isso, o estabelecimento da lei islâmica pelos governantes de 12 Estados, entre eles o de Kaduna, no qual metade da população é cristã, provocou conflitos e a morte de cerca de 2 mil pessoas. Um cotidiano violento que a Nigéria é obrigada a conviver.

 

Biafra: uma das maiores tragédias africanas

Nos primeiros anos de independência da Nigéria, o poder político concentrou-se nas mãos dos hauçás-fulanis e dos iorubas. Os ibos, alijados politicamente, anunciaram em 1966 a criação de um novo país: Biafra. A secessão provocou uma guerra civil, que durou até 1970, e matou cerca de um milhão de pessoas, a maioria delas de fome.

“Os confrontos alimentados por um nacionalismo ‘xenófobo’ ressurgiram com grande força e acabaram resultando na guerra de Biafra, em 1967. O conflito foi provocado por um movimento separatista composto por membros das etnias ibo e ibibio, que se consideravam periféricas e subjugadas, o que ia de encontro às expectativas de alguns países da África e de fora do continente. Em comum, havia um nítido interesse em promover o desmembramento da Nigéria”, diz a professora Leila Hernandez. A reivindicação de Biafra foi apoiada por vizinhos africanos, além da França, que tinha interesse no petróleo da região. Entretanto, o apoio logístico da Inglaterra, interessada na retomada da produção petrolífera do país, pesou em favor das tropas governamentais, levando-as à vitória.

 

Para saber mais

Corrupção à Americana, Amy Goodman, Bertrand Brasil, 2005

A África na Sala de Aula, Leila Leite Hernandez, SeloNegro, 2005

 

Ditadores massacram opositores

Sani Abacha (1943-1998)

Ele foi ditador entre 1993 e 1998. Após sua morte, cercada de mistério e desinformação, descobriu-se que Bacha possuía US$ 4 bilhões em contas particulares.

Wole Soyinka (1934)

Primeiro africano a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura, foi preso durante a guerra civil (1967) e condenado à morte em 1997. Vive hoje nos EUA.

Olusegun Obasanjo (1937)

Chegou ao poder em 2003 em um pleito considerado fraudulento. Desde sua eleição, em 1999, 10 mil pessoas já morreram em conflitos étnicos, políticos e religiosos.