Curdos, um conflito que não tem fim

Batalhas, genocídios, grupos terroristas e uma luta constante pela independência são parte da história desta etnia, que tem 27 milhões de despatriados

Natalia Yudenitsch Publicado em 01/01/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Em 1919, pouco antes do nascimento oficial do Estado Iraquiano (ainda sob o controle britânico), os curdos estavam a um passo de ter sua nação independente. O xeque Mahmoud Barzanji, o então líder curdo, se autoproclamou rei do Estado Independente Curdo, reclamando a Suleimânia (uma cidade do Curdistão, no Iraque) e áreas adjacentes. Menos de um ano depois, o excército britânico depôs Barzanji. Em 1920, foi assinado na França o Tratado de Sèvres. O texto delimitava as fronteiras do Curdistão e prometia a tão esperada autonomia. Mas isso não foi colocado em prática. Para complicar, em 1923 um novo acordo foi assinado na Suíça entre países participantes da I Guerra Mundial (1914-1919) e da Guerra da Independência da Turquia (1919-1922). O documento não só dividia o Curdistão entre Turquia, Iraque e Síria como também desobrigava o governo turco a garantir a autonomia curda. Em 1925, após a repressão a uma revolta curda, a Liga das Nações decidiu que o mandato britânico na região se estendesse por mais 25 anos. Como em toda a história curda, as coisas não aconteceram como o esperado. “Os ingleses ficaram menos de cinco anos. Quando, em 1930, o Iraque conseguiu sua independência dos britânicos, os curdos se rebelaram novamente”, diz Juan Cole, professor da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

As rebeliões aconteceram em várias partes do Curdistão. A ocorrida na Turquia, na região do monte Ararat, foi apoiada pelas forças britânicas no Iraque – onde, em paralelo, vários focos rebeldes explodiram. Muitas das revoltas foram encabeçadas pelo líder nacionalista curdo Mustafá Barzani. Nenhuma lhes deu um país independente, e eles continuam lutando até hoje por isso.

Extermínio em massa

Para entender a obstinação desse povo – a maior etnia sem pátria da atualidade – em ter o Curdistão reconhecido, é preciso voltar a suas raízes. Os curdos sempre habitaram a região que ocupam hoje. Eles são uma etnia nativa das áreas montanhosas ao norte do Iraque e ao sul da Turquia. “As terras que querem ver reconhecidas como suas sempre estiveram em suas mãos”, fala Anna Olson, professora americana da Universidade de Washington. “Essa região, com cerca de 500 mil km2, que atualmente configura o Curdistão, fica em sua maior parte na Turquia, ocupando ainda partes de Iraque, Irã, Síria, Armênia e Azerbaijão. Como a área não é reconhecida como independente, os cerca de 25 a 27 milhões de curdos vivem hoje espalhados por essas seis nações, sem um núcleo oficial.” Em sua maioria, são muçulmanos sunitas, e a língua oficial é o curdo.

A história desse povo começa há cerca de 8 mil anos, na região da antiga Mesopotâmia, onde fica hoje parte de Iraque, Turquia e Síria. Sempre habitando as regiões montanhosas e acostumados ao frio intenso que acompanha a altitude, os curdos da Antigüidade se dividiam em clãs com nomes como gutis, kurti e mushku e viviam em cidades-estado. Com o passar dos séculos, outros povos indo-europeus – como os medas (cujo império, há 2,6 mil anos, englobava boa parte do que hoje é o Curdistão), cíntios, partos, mitanis, cassitas, hititas e guttis, entre outros – se fixaram na região. “Os curdos são, portanto, o produto da miscigenação de todos os povos invasores ou migrantes para a região, incluindo assírios, acádios, armênios, persas, gregos, romanos, bizantinos, árabes, mongóis e turcos”, diz Olso.

Da Antigüidade ao século 20, a mistura de cultura e a falta de unidade e de um país levaram os curdos a intermináveis batalhas, guerras civis e levantes (leia quadro Luta Milenar). Após as revoltas na época da independência do Iraque, na década de 1930, eles tentariam criar seu estado próprio ao fim da II Guerra Mundial. Quando terminou o conflito, as terras curdas no Azerbaijão foram ocupadas por forças soviéticas. Em 1946, os curdos criaram um estado independente na cidade de Mahabad, conhecido como República de Mahabad. Menos de um ano depois, porém, quando os soviéticos partiram, a república viu seu fim com a reanexação da região pelo Irã.

Durante os primeiros anos do regime imposto pelo partido Baath, que assumiu o poder no Iraque em 1968, os curdos viveram em relativa paz. O cenário mudou radicalmente a partir de 1971, quando começaram a entrar em vigor as primeiras medidas de uma campanha anticurda, oficializada em 1986 sob o nome de Anfal, no governo de Saddam Hussein, e que só terminou em 1989. O objetivo era eliminar as aspirações de criar uma nação independente ou mesmo de se organizar como uma etnia de cultura e linguagem próprias. As formas de repressão começavam com a expulsão dos curdos que viviam próximos às fronteiras iraquianas com as da Turquia e do Irã. A prisão com base em acusações de atividades oposicionistas complementava o processo. Os curdos sofreram todo tipo de violência no período. De alvos de armas químicas a destruição de cidades e vilas. Em novembro de 1987, cerca de 600 curdos presos foram mortos pelos iraquianos com o tálio, um metal pesado utilizado em veneno para ratos. Em junho de 1989, mais 2 mil curdos foram envenenados da mesma maneira em Mardim e, em janeiro de 1990, outros 400 morreram na cidade de Diyarbakir.

A repressão aos curdos não foi restrita apenas ao Iraque. Até 1991, eles estavam proibidos de falar o curdo na Turquia. Ali, atualmente, programas de rádio ou TV no idioma são vetados, assim como o aprendizado da língua nas escolas. No Irã e na Síria, o quadro é similar. Na Síria, muitos não conseguem tirar passaporte, votar, registrar seus filhos com nomes curdos, comprar terras ou se casar com sírios.

Entre 15 e 19 de março de 1988, durante a campanha Anfal e em meio à guerra entre Irã e Iraque, os curdos sofreram um dos piores ataques a sua etnia. Em represália às forças iranianas, que haviam fornecido suporte militar aos rebeldes curdos, o Iraque lançou um ataque de armas químicas à cidade curda de Halabja (a cerca de 240 km de Bagdá, no Iraque), na época com cerca de 80 mil habitantes. Liderado por Ali Hassan Al-Majid – mais conhecido como Ali Químico, integrante do governo de Saddam Hussein –, o ataque usou o gás sarin (que ataca o sistema nervoso) e o gás mostarda (que abre feridas quando em contato com a pele). Não há registros precisos sobre as baixas, estimadas em 10 mil.

 

Realidade atual

Já nos anos 1990, enquanto levantes promovidos por guerrilheiros rebeldes da PKK levavam a Turquia a um estado de guerra civil, os curdos ganharam a proteção dos Estados Unidos no Iraque. Sob o comando de George Bush, o pai, os EUA e as forças aliadas que lutaram contra o Iraque na Guerra do Golfo, em 1990 e 1991, apoiaram uma série de rebeliões e revoltas curdas. Isso estabeleceu uma área segura para a etnia no Iraque com um governo próprio. A questão curda, porém, só ganhou destaque no mundo em 2003, com a invasão do Iraque pelos EUA governados por George W. Bush, o filho. Apesar da oposição ferrenha da Turquia, que negou apoio à independência curda, a delegação da etnia no Comitê Constitucional conseguiu que as províncias curdas se reunissem numa região autônoma, com suas próprias forças armadas, taxas e leis, tornando o curdo a língua nacional, juntamente com o árabe. Os turcos chegaram a negar a abrir caminho para os americanos e seus aliados até o norte do Iraque. Tinham medo de que, com Saddam Husseim deposto, os curdos proclamassem um estado independente.

Hoje, apoiando o programa criado pelos EUA no Iraque, se destacam cerca de 100 mil peshmergas, que lutam para ganhar poder no futuro sistema político que está sendo criado na região, usufruindo da rede de proteção aliada. A situação, contudo, continua delicada, já que os EUA temem que o Iraque se torne uma terra instável, com uma eterna luta entre os vários grupos étnicos. Evitam um apoio explícito ao que continua sendo a meta única dos curdos: criar uma pátria.

É difícil mensurar com exatidão a quantidade de curdos vivendo no mundo hoje pela falta de um censo específico e por causa da miscigenação dos curdos nas várias regiões em que habitam. Os números aproximados são:

• Turquia: 14 milhões

• Irã: 6 milhões

• Iraque: 5 milhões

• Síria: 1 milhão

• Azerbaijão: 200 mil

• Líbano: 80 mil

• Armênia: 75 mil

• Geórgia: 40 mil

 

Luta milenar

6 000 a.C.

Primeiros registros arqueológicos dos povos de quem descendem os curdos, na antiga Mesopotâmia

Século 7 ao 13

Os curdos são conquistados pelos árabes e suas terras são ocupadas por mongóis, turcos, safávidas e, no século 13, por otomanos

1834

Os curdos tentam sua independência da Turquia, mas são reprimidos

1919

O xeque Mahmoud Barzanji se autoproclama rei na Suleimânia, mas é deposto

1920

Tratado de Sèvres cria as fronteiras do Curdistão, mas é rejeitado e nunca chega a entrar em vigor

1923

Tratado de Lausanne: Curdistão é dividido entre Turquia, Síria e Iraque

1961

Revolta de Barzani, que se estende até 1970

1986-1999

Grande genocídio curdo na campanha anticurdos, batizada de Anfal

1990

Levantes do PKK, um grupo separatista, ocorrem na Turquia

1991

Revoltas curdas recebem o apoio dos EUA após a Guerra do Golfo. Mas milhares morrem, e 2 milhões fogem para Turquia e Irã

1995

35 mil tropas turcas invadem bases da PKK no Iraque

2003

Invasão americana ao Iraque. Curdos se unem aos EUA e à Inglaterra para derrubar o regime de Saddam Hussein

 

Faces de um povo

Ali Hassan Al-Majid (ou Ali QuÍmico)

Nascido em 1941, o primo de Saddam Hussein governou o Iraque entre 1990 e 1991, promovendo campanhas contra os curdos. O apelido de Ali Químico veio em 1988, quando reprimiu rebeliões curdas no norte do Iraque, matando milhares com armas químicas. Foi o responsável pelo ataque de gás em Halabja, em 1988, envolvendo gás mostarda e sarin. Dado como morto em 2003, foi capturado pelos EUA no mesmo ano, julgado e condenado por genocídio e crimes contra a humanidade.

Massoud Barzani

Filho do líder Mustafá Barzani, Massoud nasceu em 1946 no Irã e integrou o governo interino do Iraque em 2004. Foi eleito presidente do Curdistão iraquiano em 2005, cargo que ocupa até hoje.

Leyla Zana

Primeira mulher curda a chegar ao parlamento turco. Desafiou as autoridades ao falar em curdo e usar roupas com cores da bandeira do Curdistão. Presa em 1994, foi torturada e condenada a 15 anos de prisão. Só saiu em 2004.

Mustafá Barzani

Presidente do Partido Democrático do Curdistão. Nascido em 1903 no Iraque, esteve à frente de rebeliões curdas. Chegou a fundar uma república em 1945. Em 1975, foi viver nos EUA. Morreu em 1979.

Abdula Ocalan

Líder separatista curdo, considerado um herói da sua etnia e terrorista para os turcos. Foi preso em 1999 e condenado à forca, mas teve a sentença comutada. Continua preso em uma ilha, em regime de segurança máxima.

 

Glossário

Anfal

Campanha genocida anticurdos do regime de Saddam Hussein entre 1986 e 1989 que matou mais de 200 mil civis curdos.

Partido Baath

Partido Socialista Árabe Baath. Fundado em 1945, governou o Iraque de 1968 a 2003.

Peshmerga

Combatentes curdos que lutam pela independência. Juntaram-se aos americanos em 2003 na invasão do Iraque.

PKK

Fundado em 1975, o grupo separatista curdo, de linha marxista, planejou uma revolta em 1985, matando cerca de 35 mil pessoas. Fazem ataques suicidas na Europa.

Sunitas

Ramo do Islã de cerca de 85% dos muçulmanos.