Dicionários - o que significa...

Eles são uma declaração de amor às definições

Celso Miranda Publicado em 01/10/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Nenhuma língua pensa, mas ninguém pensa se não o faz numa língua, graças a ela, contra ela às vezes. Sou fã de dicionários, admito. Quando era criança, meu pai me fazia ler algum livro duas horas por dia, depois de fazer a lição. Confesso que muitas vezes cabulava os romances e abria o dicionário. Os verbetes eram informação em pílulas. Dropes de literatura. Na escola, os dicionários se tornaram amigos do peito. Qualquer dúvida, pedia ajuda ao “pai dos burros” (aliás, que injustiça esse apelido!). Afinal, o que é “bisso”, “bistorta” ou “bistre”?

Já adolescente, fazia uma brincadeira que chamávamos justamente de “dicionário” – hoje em dia apareceu um jogo de tabuleiro parecido. Alguém pegava um velhíssimo Aurélio e escolhia uma palavra que ninguém conhecia. Aí, cada um inventava um significado diferente e anotava secretamente num papel. Depois liam-se todos, incluindo o verdadeiro, e votávamos no mais provável. Ganhava o jogo não quem descobria o significado correto da palavra-chave, mas quem criava um que parecesse confiável. Até aí, o que eu chamava de “dicionário” era apenas o de definições. Na faculdade, descobri um mundo de novos dicionários, que se lançavam a explicar termos mais complexos. Queria recomendar três.

O primeiro é o Dicionário Filosófico (Martins Fontes), do filósofo francês André Comte-Sponville. Inspirada pelo mais complexo, mais raro e muito mais clássico Dicionário Filosófico, de Voltaire, a obra prova que uma palavra não tem sentido absoluto. Ela só tem significado pelo uso que dela fazemos, uso que sempre supõe outras palavras e outros usos. Por isso seu sentido não pára de variar. E isso é especialmente verdade em filosofia.

Seguindo na lista, o Dicionário Temático do Ocidente Medieval (Edusc). Organizado por dois dos mais célebres historiadores do período, Jacques Le Goff e Jean-Claude Schmitt, reúne 84 pequenos artigos apresentados na forma de verbetes, que elucidam alguns dos principais conceitos da época, entre eles “amor cortesão” e “pecado”. Por fim, o Dicionário de Conceitos Históricos (Contexto), de Kalina Vanderlei Silva e Maciel Henrique Silva, historiadores da Universidade Federal de Pernambuco, que oferecem definições contemporâneas para “escravidão” e “pirataria”. Um manual sob medida para trabalhos escolares.