Divina Salamina

Com um estratagema ousado, coragem e muita sorte, a aliança grega esmagou o poderio naval de Xerxes na ilha de Salamina

01/03/2007 00h00 Publicado em 01/03/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Do alto do monte Egaleu, o Grande Rei tinha uma visão privilegiada do braço de mar entre o continente e a ilha de Salamina, onde seus marinheiros se preparavam para aniquilar de vez a resistência grega no mar. Acomodado em seu trono, Xerxes achava que sua presença finalmente faria seus escravos lutarem com bravura.

O espetáculo naval, porém, logo desandaria. Após o “empate” no Artemísio, a Marinha grega havia se reorganizado em Salamina, uma ilha do litoral de Atenas para onde a maior parte dos refugiados da cidade tinha ido. Os espartanos e seus aliados do Peloponeso recusavam-se a mandar um exército para enfrentar os persas em terra. Assim, o Grande Rei avançou para Atenas e tomou a cidade.

A esquadra de Xerxes, porém, tinha perdido sua superioridade inicial. Por quase três semanas, os adversários esperaram que o outro lado desse um passo em falso. Heródoto diz que, durante esse tempo, o comandante espartano Euribíadas ficou no meio do fogo cruzado entre seus aliados do Peloponeso, que queriam defender suas cidades natais, e o ateniense Temístocles, que insistia em travar uma batalha nas águas estreitas de Salamina. Poucos historiadores de hoje acreditam nisso: para eles, Temístocles e seus colegas estavam planejando uma forma de induzir Xerxes ao erro.

O plano do ateniense finalmente entrou em ação certa noite, quando um barco a remo saiu das linhas gregas e chegou ao ancoradouro persa. O barco carregava Sícino, escravo de Temístocles e tutor de seus filhos. Numa audiência com o comando persa, Sícino contou que os aliados gregos estavam desunidos e em pânico; que planejavam fugir para o Peloponeso naquela madrugada; se os persas atacassem, pegariam-nos de surpresa.

Mudança de vento

A história colou. As trirremes do Grande Rei rumaram para o estreito de Salamina, prontas para atacar de manhã. Quando o sol nasceu, uma imagem pareceu confirmar a fala de Sícino: os navios de Corinto, um dos maiores contingentes gregos, rumaram para o oeste, na direção do Peloponeso. Mas a manobra não passava de coreografia. A Liga Helênica, na verdade, estava atacando.

Dentro do espaço exíguo do estreito, os persas não tinham como manobrar. Com suas trirremes engarrafadas, viraram presa fácil para os esporões dos navios gregos e para os hoplitas helênicos. No dia seguinte, o que restava da frota asiática tomou o caminho do estreito de Dardanelos. A invasão de Xerxes, agora, estava manca.

 

A fúria dos mares

O combate com trirremes era perigoso e complicado. À primeira vista, quem levava a pior eram os gregos, cujos barcos eram relativamente mais pesados. Entre os comandados do Grande Rei, os fenícios tinham as melhores trirremes e o melhor treino em manobras. A preferida deles levava o nome grego de diekplous (“navegar através e para fora”). Consistia em fazer o barco passar por uma abertura nas fileiras adversárias, girá-lo e fazer seu esporão de bronze furar a lateral do casco do inimigo. Havia também o periplous (“navegar em volta”), na qual os barcos inimigos eram cercados até trombarem entre si. Durante a guerra, porém, o combate em águas estreitas impediu quase sempre essas manobras. Na maioria das vezes, o esporão de um barco ficava preso no casco de outro, e uma tripulação podia invadir a trirreme inimiga, lutando sobre o convés como se estivesse em terra.