Dom João VI: O novo retrato do rei

Imagem do monarca é revista nos 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Brasil

Rodrigo Cavalcante Publicado em 01/05/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Ao enviar suas tropas para invadir Portugal, há 200 anos, Napoleão Bonaparte deu, sem saber, um dos grandes impulsos para o desenvolvimento do Brasil. Encurralada pelo anúncio da chegada dos soldados franceses, a corte portugue­sa transferiu-se para o Rio de Janeiro e pronto: a cidade se tornou a primeira a sediar um império europeu fora da Europa. Ganhou imprensa, banco, jardim bo­tânico e outras obras importantes, que mudaram a fisionomia da cidade.

Não é à toa que a prefeitura do Rio es­tá organizando uma série de eventos pa­ra comemorar o bicentenário da chegada da família real por aqui. Batizada de “D. João VI no Rio: 1808-2008”, a programação conta com concursos literários sobre o tema, encenações teatrais, um longa-metragem e a restauração de prédios históricos como o da Igreja Nossa Senhora do Carmo, já em andamento – o local serviu de Capela Real durante a estada de dom João VI no país.

“Quem conhece a história com seriedade sabe que dom João VI foi um estadista responsável pela criação das gran­­des instituições do país”, diz o embaixador e escritor Alberto da Costa e Silva, que dirige a comissão responsável pelas comemorações. Leia abaixo os principais trechos da entrevista que o diplomata concedeu a História.

 

Entrevista

História – A comemoração do bicentenário da chegada da família real vai enterrar definitivamente a visão caricaturesca sobre dom João VI, de ele ser um monarca glutão e dominado pela mulher, Carlota Joaquina?

Aberto da Costa e Silva – O processo de reconhecimento do papel de dom João VI começou bem antes desse projeto. Quem se debruça com seriedade sobre o tema sabe que nossas instituições nasceram com ele, sobretudo as culturais, como a imprensa e a primeira escola de artes do país, por exemplo. Mas não tenha dúvidas de que o evento ajudará a promover um resgate desse período por meio da promoção de novas obras sobre o tema e da recuperação de prédios históricos que marcaram o período.

O que sobrou da paisagem urbana da época?

Pouco, já que o Rio de Janeiro se modificou muito, principalmente na virada do século 19 para o 20. Por isso mesmo é tão importante o investimento da prefeitura na restauração de edifícios como a Igreja Nossa Senhora do Carmo, a antiga catedral. Foi lá que dom João VI foi coroado rei do Reino Unido de Portugal, Algarves e Brasil (fato ocorrido em fevereiro de 1818). A prefeitura vai identificar também os caminhos e pontos na cidade que foram referências no período.

Ao reconhecermos o papel da corte no Brasil, o que muda na visão dos brasileiros sobre a herança portuguesa?

Acredito que aquelas tolices de que o país seria melhor caso os holandeses houvessem conquistado o Brasil estão completamente superadas. Costumo dizer que nossa espinha dorsal é portuguesa, nosso sistema nervoso é africano e nosso útero é ameríndio. Ou seja: nossa estrutura é portuguesa. Por isso que, ao percorrer algumas ruas do centro do Rio, um cidadão poderia ser transportado para uma rua na cidade do Porto sem perceber.