O drama das crianças de Chernobyl

Vítimas do acidente nuclear de 1986 sofrem com doenças e preconceito

Rita Loiola Publicado em 02/03/2010, às 16h06 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Já se passaram quase três décadas desde que duas explosões na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, espalharam radiação pela Europa. Na época, o acidente da madrugada de 26 de abril de 1986 deixou 32 mortos. Mas os efeitos da tragédia não ficaram no passado e muito menos têm data para acabar. "Chernobyl não parou de fazer vítimas. Suas consequências foram inesquecíveis e irreversíveis", diz Angèle Mosser, integrante da associação francesa Les Enfants de Tchernobyl (As Crianças de Chernobyl).

A área mais gravemente atingida passa por três países: Ucrânia, Rússia e Bielo-Rússia. Mesmo com os reatores fechados e isolados, quem sobreviveu ainda enfrenta vários problemas de saúde (veja na pág. ao lado). Desde que a terra e a água da região foram contaminadas por elementos radioativos, frutas, legumes, carne e pão nunca são totalmente sadios. E esse drama não atinge somente os sobreviventes. Crianças nascidas depois de 1986 têm de lidar com doenças graves. No norte da Ucrânia, a incidência de câncer na tireoide é quase 100 vezes maior que o normal. E dois em cada três adolescentes têm problemas no coração.

Para quem ficou contaminado, uma medida simples faz toda a diferença: estudos ucranianos e franceses demonstraram que a permanência de três meses em regiões não-radioativas é capaz de diminuir em 30% o césio presente no corpo. Sabendo disso, desde 1993 a associação Les Enfants de Tchernobyl leva jovens para passear no exterior. Associações semelhantes fazem o mesmo em diversos países: Alemanha, Itália, Espanha, Bélgica, Irlanda, Canadá e Estados Unidos. "No entanto, além dos problemas de saúde, precisamos lidar também com o preconceito que essas crianças sofrem", afirma Angèle Mosser. "Como a informação ainda é escassa, há quem tema até chegar perto desses jovens."

As dificuldades de relacionamento com as vítimas resultam da falta de informação e do impacto causado pelas antigas imagens de recém-nascidos monstruosos, nascidos em regiões próximas às explosões. Entidades especializadas fazem campanhas para alertar que pessoas contaminadas não são contagiosas. Ainda assim, o desastre nuclear é um fantasma presente. "Chernobyl foi - e ainda é - o inferno", diz Monique Sene, integrante do grupo francês.


Radiação no corpo

As áreas mais atingidas

A radioatividade ataca principalmente as células do coração, da tireoide e do cérebro, provocando baixa imunológica e problemas em órgãos vitais. Mas o maior problema são as taxas de câncer.


Incidentes em série

A usina, antes e depois da tragédia

1977 - Inauguração
Depois de sete anos de obras, a usina começa a funcionar. A abertura é celebrada com grande festa na cidade ucraniana.


1986 - Explosão
Em 25 de abril, inicia-se um teste no sistema de resfriamento. À 1h23 do dia 26, dois reatores explodem. O desastre lança 100 vezes mais radiação que a bomba de Hiroshima.


1991 - Incêndio
Um incêndio de pequenas proporções atinge uma turbina. Mais uma vez, as autoridades locais demoram para evacuar a área.


1993 - Grupo de apoio
Surge o grupo As Crianças de Chenobyl, que procura reintegrar as vítimas. Desde então, todos os anos, 200 jovens da Ucrânia são levados para passar férias de verão na França.


2000 - O fim do pesadelo
Finalmente, o governo ucraniano decide fechar a usina nuclear de Chernobyl. A decisão é tomada logo depois de um novo vazamento em um reator.


2010 - Balanço mórbido
Desde o acidente, 7 milhões de pessoas da região foram afetadas e 30 mil pessoas morreram em decorrência dos efeitos da radiação. Ainda hoje, 9 milhões de pessoas vivem em áreas contaminadas.