Edição de Formação Econômica do Brasil de roupa nova

Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado, ganha edição à altura de sua elegância.

Rodrigo Cavalcante Publicado em 01/05/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Até a década de 1980, a maioria das edições dos chamados textos clássicos brasileiros tinha aparência semelhante à de uma intelectual de esquerda. Sabe aquela que se esforçava para não parecer bonita com medo de ser considerada fútil? Então. Quanto mais importante a obra, menor era o esforço empregado em torná-la visualmente atraente.

A nova edição de Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado (Companhia das Letras), é uma feliz prova de que esse tempo acabou. De roupa nova, ler o texto é uma experiência semelhante à de ouvir um concerto remasterizado. Sem ruídos, sobra o que há de melhor.

E o que há de melhor em Formação... é a clareza, a elegância e a ambição da obra, não à toa considerada uma das melhores “interpretações do país” – ao lado de outros clássicos como Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, ou Casa-Grande e Senzala, de Gilberto Freyre. Ao chegar ao fim do livro, o leitor tem a clara visão de que o país não é resultado do acaso, mas de escolhas econômicas tomadas ao longo de cinco séculos. Gostemos delas ou não.

O paraibano Furtado, morto em 2004, foi criador e presidente da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene, no governo de Juscelino Kubitschek, e ministro do Planejamento de João Goulart. Mas em sua obra não há espaço para divagações ideológicas. Da sobreposição de uma paisagem histórica bem desenhada à análise fina de dados econômicos, o Brasil aparece inteiro, como em um mural.

Os personagens são os próprios ciclos econômicos do país, do Nordeste açucareiro, no século 16, ao início do processo de industrialização, em meados do século 20. A paisagem da obra é formada pelos ciclos da economia no mundo, do mercantilismo à integração econômica mundial (quando ela ainda não era batizada de economia global). O resultado não poderia ser outro: ao traçar um nítido quadro da nossa economia, Furtado terminou desenhando um perfil da essência do Brasil.