Elite brasileira: gente fina é outra coisa

Nos tempos em que a corte esteve aqui, a elite brasileira redecorou suas casas com a última moda na Europa: o estilo neoclássico

Fred Linardi Publicado em 01/03/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Entre e sinta-se à vontade. Você está na sala de uma típica residência de gente rica no Brasil do século 19. Repare nos móveis, ou melhor, no design dos móveis. Linhas equilibradas, traços simples e serenos. Nada a ver com aquelas formas arredondadas, esculpidas e cheias de pompa do barroco e do rococó. É o estilo neoclássico, uma tendência de franca inspiração iluminista, que foi buscar sua essência nas culturas da Antiguidade Clássica. Já podia ser visto por aqui desde o começo do século, mas tomou força em todas as casas da elite brasileira após a chegada da corte.

Muitas casas iguais a essa, em centros urbanos como Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Recife, foram habitadas por famílias inteiras vindas da Europa ou funcionários com altos cargos na administração pública da colônia. Seus moradores tinham dinheiro e estudo. Freqüentavam o teatro, iam a festas, eram convidados para jantares e recitais... Enfim, desfrutavam de todo status e conforto que o topo da pirâmide social brasileira podia oferecer naqueles tempos.

SÓ PARA LETRADOS

Os alfabetizados eram uma parcela ínfima da população, ou seja, um móvel como este, feito para escrever e guardar documentos, só poderia estar numa casa de gente endinheirada. Além das fechaduras de marfim, esta escrivaninha tinha gavetas secretas, atrás de uma frente falsa, que se soltavam ao ser empurradas.

HORA DA SESTA

Muito usadas para o descanso depois do almoço, as cadeiras podiam ser de vários tipos, mais ou menos sofisticadas, dependendo do poder aquisitivo da família. Eram feitas com palha indiana delicadamente trançada e madeira de lei, adornada com discretos entalhes.

“CHIQUE NO ÚRTIMO”

Algumas casas já contavam com iluminação a gás de carbureto, que vinha por tubulações internas e passava por dentro da estrutura dos lustres. Importados da França e feitos de cristais bacará, estes lustres foram os primeiros a substituir lamparinas de azeite nas casas mais chiques.

BRILHO EUROPEU

As peças de cristal eram importadas da França. Um dos mais sofisticados era o cristal overlay, modelado artesanalmente sob altíssimas temperaturas. Para a confecção de esmaltados, como este, a temperatura tinha de ser ainda maior.

MADEIRA NOBRE

O jacarandá, uma madeira mais dura que as outras, era a matéria-prima de praticamente todo o mobiliário das famílias nobres. Móveis grandes, como armários, podiam levar até um ano para serem concluídos. O trabalho de carpintaria era lento. E respeitavam-se as fases da lua no corte das árvores.

JEITINHO BRASILEIRO

No início do século em que o Brasil se tornaria independente, já se buscavam ornamentos típicos do país, como os entalhes mostrando flores de maracujá. Móveis que na Europa eram estofados, aqui foram “tropicalizados”. O tecido deu lugar à palha indiana.

 

Saiba mais

Livros

Sobrados e Mucambos, Gilberto Freyre, Global, 2006

Ao estudar com maestria a decadência do patriarcado rural, Freyre relata os costumes adotados dentro das novas moradias urbanas.

A talha neoclássica na Bahia, Luiz Alberto Freire, Organização Odebrecht, 2003

Este livro descreve em detalhes a transição do estilo barroco para o neoclássico em Salvador, a cidade precursora do novo estilo.

 

O luxo e o lixo

Escravos carregadores de água só entravam pelo cano

Embora já pudesse contar com iluminação a gás, a elite brasileira não tinha água encanada. Quem pagava o pato eram os escravos, que iam buscar toda a água necessária para o abastecimento da casa em chafarizes públicos. Algumas famílias chegavam a ter 20 escravos, entre cozinheiros, copeiros, amas-de-leite, moleques de recado e mucamas.

O trabalho dos carregadores de água era o mais extenuante. Mas isso não era tudo! Eles também tinham de levar para fora o lixo e os excrementos dos moradores. Enchiam um barril, colocavam-no sobre a cabeça e seguiam para um rio, uma praia ou um beco onde a sujeira pudesse ser despejada.