A Escola de Sagres realmente existiu?

Suposto centro português servia para reunir grandes nomes da navegação

Luciana Taddeo Publicado em 01/02/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Nos relatos e crônicas sobre as viagens de descobrimento no século 15 não há nenhuma alusão à existência da Escola Naval de Sagres, que teria sido fundada pelo príncipe português dom Henrique (1394-1460), filho de dom João I. Supostamente, no local se reuniam exploradores, cientistas e famosos professores estrangeiros. Lá, eles definiam métodos para navegar, desenhar cartas e adaptar navios, de acordo com observações astronômicas, meteorológicas e oceanográficas. Entre os freqüentadores, estariam grandes descobridores como Cristóvão Colombo, Bartolomeu Dias e Vasco da Gama.

No livro Frei Gonçalo Velho (inédito no Brasil), de 1899, o historiador português Ayres de Sá é categórico: “Não consta a fundação de um observatório e escola em Sagres ou em qualquer outra parte. Não existe o mínimo sinal de antigo edifício desse gênero. Finalmente seria para espantar que uma tão importante inovação passasse despercebida aos próprios biógrafos do infante, seus contemporâneos, e que os sábios estrangeiros fossem, por tal forma, desprezados que nem se lhes sabe os nomes”.

Já Thomaz Oscar Marcondes de Souza, sócio emérito do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, escreveu na Revista de História, em 1953, que existia um escola, mas não era tão badalada assim – e nem ficava em Sagres. “Ensinou-se sim, mas em Lagos [sul de Portugal]. De lá partiam para a costa ocidental da África os navios da empresa dos descobrimentos. À medida que as embarcações avançavam para o sul, ao longo do litoral africano, surgiam problemas náuticos, que pouco a pouco eram resolvidos, do que resultava a aquisição de conhecimentos práticos da arte de navegar.”

Ele afirma, no entanto, que o ensino no porto de Lagos era rudimentar e que somente nos últimos anos do reinado de dom João II houve de fato estudos científicos na navegação portuguesa, que chegaria ao apogeu com dom João III, entre 1521 e 1557. Os portugueses eram exímios navegantes, mas não tinham exclusividade sobre o conhecimento. “Nenhum segredo era privativo dos náuticos portugueses. A caravela não era invenção nem de uso exclusivo deles”, segundo Marcondes de Souza.