Esparta X Atenas: a briga estúpida de duas irmãs

A luta entre os sofisticados atenienses e os guerreiros espartanos quebrou as pernas da Grécia e abriu caminho para a invasão dos macedônios

01/08/2007 00h00 Publicado em 01/08/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Você deve ter aprendido que as duas cidades-estados mais poderosas da antiga Grécia eram inimigas – e completamente diferentes. Os atenienses valorizavam a arte e a literatura, brigavam por participação popular no governo e eram grandes navegantes. Os espartanos achavam que homem que é homem fala pouco, louvavam a obediência acima de tudo e, se tivessem que guerrear, que fosse em terra firme.

As relações entre Atenas e Esparta eram de amor e ódio. Durante a guerra contra os persas, as duas cidades comandaram lado a lado a resistência ao invasor – Esparta em terra e Atenas no mar.

Mas os conflitos de interesses (para ver qual das duas ficaria com o controle das outras cidades gregas e do comércio com a Ásia) e as diferenças ideológicas (entre a democracia ateniense e rigidez espartana) acabaram levando as duas a uma baita briga, na qual a Grécia inteira afundaria.

 

SEPARADAS NO BERÇO

Embora a origem das duas cidades seja misteriosa, parece certo que os atenienses chegaram primeiro. Eles já ocupavam a península da Ática desde o período micênico (antes do século 13 a.C.). Costumavam se considerar autóctones, isto é, eles achavam que seus antepassados tinham nascido por ali mesmo. Por volta de 700 a.C., toda a região, composta por assentamentos rurais relativamente distantes uns dos outros, já se constituía numa unidade política comandada por Atenas. O solo pobre produzia trigo, uva e azeitona e fornecia a argila para produzir a boa cerâmica, que logo se tornou um dos principais artigos de exportação.

Já em Esparta todo mundo sabia que era recém-chegado. Os espartanos eram dórios, um dos quatro principais grupos étnicos em que se dividiam os gregos (aqueus, jônios e eólios eram os outros). Chegaram ao sul da península grega (o Peloponeso) vindos do noroeste. Derrotaram os antigos habitantes e transformaram alguns em vassalos. Outros viraram escravos e tinham de cultivar as terras dos cidadãos espartanos.

Seu domínio se estendia apenas pela Lacônia (onde ficava a própria Esparta), mas uma bem-sucedida expansão para o oeste acabou lhes dando também a fértil Messênia.

Acontece que uma minoria de nobres abocanhou a maior parte das terras da Messênia. Os cidadãos mais pobres se revoltaram e conseguiram redistribuir a terra. Além dessa “reforma agrária”, obtiveram o direito de vetar as decisões dos dois reis (sim, havia dois deles em Esparta) e da Gerúsia (Senado).

As mudanças em Esparta brotaram dos mesmos problemas que atazanavam Atenas nos séculos 7 e 6 a.C. Ali também só uma minoria de cidadãos, de origem nobre, podia exercer os principais cargos públicos. Os homens livres, porém pobres, tinham que se virar com pedaços de terra que mal davam para o seu sustento – e viviam sob a ameaça da escravidão por causa das dívidas.

As reformas do político e poeta Sólon (por volta de 590 a.C.) acabaram com essa prática e permitiram que pessoas ricas de origem plebéia entrassem na política. Quem se aproveitou disso foi Pisístrato, que assumiu o poder na cidade.

O governo do tirano até que conseguiu trazer um pouco de paz às terras atenienses, mas bastou que ele morresse para que a cidade voltasse às turras. Seus filhos Hípias e Hiparco brigaram para ficar no poder. Aí entra em cena Cleômenes, um dos reis de Esparta.

“Até então, parece que havia pouco contato entre as duas cidades. Nem mesmo cerâmica ateniense foi encontrada em Esparta, ou vice-versa”, afirma o historiador José Francisco Moura, da Universidade Veiga de Almeida, no Rio de Janeiro. “A cerâmica era uma espécie de saquinho plástico do mundo antigo, que transportava de azeitonas até lixo.”

DEMOCRACIA JÁ

Por volta de 520 a.C., Esparta havia se tornado a potência dominante do sul da Grécia, à frente da chamada Liga do Peloponeso. Os espartanos passaram a ter interesses mais amplos e, além do mais, tinham fama de não tolerar tiranos. Nada melhor que unir o útil ao agradável e restaurar o governo legítimo em Atenas – um governo que seria eternamente agradecido (e, talvez, subordinado) a Esparta.

Foi o que Cleômenes fez em 510 a.C., botando Hípias para correr. Porém, as lutas na cidade não cessaram. Em meio a uma guerra civil, quem estava levando a melhor era Clístenes, um membro da nobreza que propunha uma lista de reformas que, na prática, criava uma democracia. O rei de Esparta não gostou da idéia e se dispôs a derrubar o novo regime em favor de um amigo ateniense, Iságoras. Mas a flecha saiu para o lado errado: embora conseguisse tomar a Acrópole, sede do poder ateniense, Cleômenes não contava com a resistência do povo comum, que o cercou e acabou forçando-o à rendição.

 

LÁ VEM O XERXES

Vinte anos depois da ascensão da democracia em Atenas e da derrota de Cleômenes, as duas potências tiveram de colocar as diferenças de lado para enfrentar um problema maior. Liderado pelo rei Xerxes, o superpoderoso Império Persa lançou um ataque maciço contra a Grécia. Atenas e Esparta decidiram resistir. Graças a sua aliança com quase todas as cidades do Peloponeso, os espartanos ainda eram os mais poderosos dos gregos, mas sua força só era realmente respeitável em terra. Os persas, no entanto, atacavam por terra e por mar – e, no oceano, a frota ateniense foi fundamental. Durante alguns anos, a parceria foi um sucesso. Em 480 a.C., a frota unida dos gregos esmagou as forças persas. “No fim das contas, os gregos deveram sua libertação não apenas a Esparta, mas principalmente a uma Atenas que Cleômenes tinha criado por engano, e que fizera de tudo para destruir”, afirma W.G. Forrest, historiador da Universidade de Oxford e autor do livro A History of Sparta (“Uma história de Esparta”, inédito em português).

 

AMIGO VIRA INIMIGO

Ao longo do século 5 a.C., Atenas se transformou na principal potência marítima da região. A princípio, muitas das cidades gregas aceitaram se aliar a ela, mas, aos poucos, o que era uma liga de alianças acabou virando um império. Para Francisco Moura, cidades como Corinto, que fazia parte da Liga do Peloponeso e também tinha interesses marítimos, acabaram levando Esparta a entrar em conflito com Atenas.

As duas gigantes ficaram frente a frente na chamada Guerra do Peloponeso, em 432 a.C. A princípio, os atenienses conseguiram escapar do pior dominando os mares e se refugiando atrás de suas muralhas. A captura de centenas de soldados espartanos no próprio Peloponeso chegou até a instaurar uma paz passageira entre os rivais. Mas Atenas perdeu a maior parte da frota num ataque desastrado na costa da atual Itália, e os espartanos aproveitaram para contra-atacar. Dessa vez financiados por um inusitado aliado, os persas, eles possuíam uma frota respeitável.

O conflito terminou com a vitória de Esparta em 404 a.C. Mas nenhum dos dois lados saiu realmente vencedor. Atenas perdeu os navios que lhe tinham restado e as muralhas que defendiam a cidade e, em Esparta, o impacto da guerra foi ainda maior. Apesar da vitória, a sociedade espartana desmoronou – as riquezas vindas do ex-império ateniense exacerbaram as diferenças sociais entre os espartanos.

Na cidade, a concentração de terras voltou com tudo, e o número de homens com direitos de cidadania – e que formavam o coração do Exército espartano – diminuiu muito. É que só os homens que podiam contribuir financeiramente para as refeições do Exército eram considerados cidadãos plenos, e muitos espartanos tinham ficado pobres demais para isso. Ao ser esmagado em Leuctra pelos soldados da cidade de Tebas, em 370 a.C., o Exército de Esparta contava com pouco mais de mil soldados, uma mixaria.

Por algum tempo, até a metade do século 4, Tebas se tornou o poder dominante da Grécia, ao lado de uma Atenas recuperada da guerra e ainda democrática. Esparta tinha virado carta fora do baralho: perdeu até a Messênia (os tebanos proclamaram a independência da região).

Mas uma nova força estava surgindo no tabuleiro: o rei Filipe, da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande. Em 338 a.C., ele exterminou as forças combinadas de Atenas e Tebas. Era o fim da independência da Grécia.

 

Meio a meio

Duas metades da mesma história

Arqueologia

Cidade ou vila?

Em vez de se esbaldar em projetos faraônicos, Esparta praticamente não tinha grandes prédios – aliás, a cidade era pouco mais que um aglomerado de quatro vilarejos. Nem muralhas os espartanos tinham, o que também era um jeito de dizer que a cidade, com seus soldados soberbos, não precisava delas.

 

Partenon

O “Templo da Virgem”, construído no auge do poderio ateniense na segunda metade do século 5 a.C., tornou-se o símbolo máximo da arte grega, sendo visitado por legiões de turistas até hoje. O dinheiro para esse projeto veio, em grande parte, das cidades vassalas (subordinadas) do império marítimo de Atenas.

 

Batalhas

Argos

Com a ajuda de navios de cidades aliadas, o rei espartano Cleômenes invade o território de Argos, velha inimiga de Esparta, e mata a maior parte de seus soldados. A partir dessa luta, em 494 a.C., os espartanos ficam sem rivais importantes na região (o Peloponeso).

 

Salamina

A frota combinada dos gregos, comandada pelo espartano Euribíadas e formada em grande parte por navios atenienses, derrota os navios de Xerxes, em 480 a.C. É o embrião da hegemonia marítima de Atenas.

 

Aigospótamos

Depois de quase 30 anos de guerra, os navios de Atenas são pegos despreparados pelo almirante espartano Lisandro, em 405 a.C. A marinha da cidade é praticamente aniquilada, e os atenienses acabam se rendendo. É o fim da Guerra do Peloponeso

Esparta

Início - 669 a.C. - Esparta sofre uma derrota séria para sua principal rival, a cidade de Argos. É possível que os espartanos tenham sido vencidos porque os argivos já usavam o equipamento de infantaria que passaria a ser padrão entre os gregos (o mais antigo exemplo dessas armas foi achado em Argos).

Meio - 550 a.C. - Até a metade do século 6, tudo indica que os espartanos não tinham se tornado o povo invocado e avesso à arte da época da Guerra do Peloponeso. A competição com a cerâmica ateniense, de melhor qualidade, e, talvez, uma reorganização das leis da cidade podem ter encerrado essa fase.

Fim - 450 a.C. - Conforme Atenas vai se tornando impopular entre os membros de sua liga, os espartanos reforçam sua imagem de “libertadores da Grécia”, apoiando-se no papel que desempenharam durante a invasão dos persas. Leônidas, líder morto na luta contra Xerxes, torna-se um símbolo de resistência.

Atenas

Início - Século 7 a.C. - As relações comerciais com o mar Egeu ajudam a criar uma minoria de homens ricos e cosmopolitas na Ática (região onde fica Atenas). A influência de civilizações mais antigas, como a egípcia, é demonstrada em diversas esculturas monumentais encontradas entre as ruínas da cidade.

Meio - 480 a.C. - As trirremes, barcos com três linhas de remadores usados nas batalhas navais de Salamina e Mícale, garantem a vitória grega contra os persas. Os marinheiros de Atenas se tornaram especialistas em atravessar brechas na formação inimiga e cercá-la até provocar o choque dos barcos adversários.

Fim - 440 a.C. - Pouco a pouco, os aliados de Atenas na luta contra os persas foram se transformando em vassalos, e a cidade começou a exigir deles tributos anuais. A cobrança de tributos foi um dos motivos que levaram a rebeliões entre os aliados e à Guerra do Peloponeso.

 

Guerra bacteriológica

Descoberta a terrível doença que matou 30 mil atenienses na guerra contra Esparta

Atenas, 430 a.C. Enquanto o exército espartano sitia a cidade, milhares de camponeses se amontoam dentro de suas muralhas. Subitamente, uma peste prolifera entre a população. Ela causa febre, inflamação nos olhos e na garganta (que provoca um bafo fétido), refluxos de bile, calores terríveis, insônia e convulsões violentas. Se sobreviver, o pobre coitado ainda tem de suportar uma diarréia aguda e conviver para sempre com marcas no corpo. Em poucas semanas, milhares de atenienses caem mortos. Estranhamente, nem os cães nem os urubus se alimentam dos corpos espalhados pelo chão. Que doença seria capaz de tamanha desgraça em plena Guerra do Peloponeso? A resposta veio agora, 24 séculos depois. Pesquisadores da Universidade de Atenas descobriram que a febre tifóide foi a responsável pela morte de 30 mil pessoas – número duas vezes maior que o de atenienses mortos em batalha. Manolis Papagrigorakis e sua equipe examinaram o DNA de bulbos dentários de esqueletos datados de 430 a.C. Descobriram que a vilã foi a bactéria Salmonella typhi. A peste matou cerca de um quarto da população total da cidade e criou um estado de caos e pânico nunca antes visto. Contrariando os costumes religiosos da época, em vez de cremar os corpos os sobreviventes se viram obrigados a enterrar seus mortos em covas coletivas. Mesmo não tendo sido o fator decisivo na guerra, a epidemia foi a primeira grande derrota de Atenas. Produziu um imenso choque moral para seus supersticiosos habitantes e os privou da liderança insuperável do governante Péricles, também vítima da horrível doença.