Exército do Vietnã do Sul: derrota heróica em Xuan Loc

Na última grande batalha da guerra, Exército do Vietnã do Sul sofreu uma derrota heróica em Xuan Loc

Tiago Cordeiro Publicado em 01/01/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Em 1975, o Exército do Vietnã do Sul era o quarto maior do mundo. Graças ao apoio dos Estados Unidos, detinha uma enorme quantidade de armamentos de ponta. Mas as forças do presidente Nguyen Van Thieu entraram para a história como um grupo corrupto e despreparado, incapaz de resistir aos inimigos do norte sem a ajuda americana. No entanto, pelo menos em uma oportunidade, os militares sul-vietnamitas mostraram que eram capazes de lutar com bravura. Foi no distrito de Xuan Loc, em abril de 1975. Durante 12 dias, um único batalhão de 6 mil homens sustentou o controle da região contra 40 mil inimigos. Ao final do conflito, o comandante do sul, o general Le Minh Dao, foi obrigado a recuar depois de perder 1,5 mil homens, entre mortos e feridos. Mas Dao cobrou caro do comandante do norte, o general Hoang Cam: impôs a ele uma baixa de 5 mil soldados.

Desde janeiro daquele ano, o norte vinha se aproximando rápido da capital do sul. Em quatro meses, caíram Quang Tri, Phan rang, Ban Me Thout, Hue, Danang e Qui Nhnon. Xuan Loc tinha uma grande importância estratégica por estar localizada a cem quilômetros ao nordeste de Saigon, no entroncamento de duas das cinco estradas que levavam à capital do sul. No começo de abril, seis divisões sul-vietnamitas formavam um círculo defensivo em volta da cidade. Na região de Xuan Loc, que incluía as bases aéreas de Bien Hoa e Tan Son Nhut, estava a 18ª Divisão. No dia 9 de abril, a cidade foi atacada pela 4ª Corporação do Exército Popular do Vietnã do Norte, que contava com três divisões de infantaria, além de tanques e artilharia. Em reação, o sul usou a poderosíssima bomba Daisy BLU-82, de 3,6 metros de comprimento e 6 750 quilos. É tão poderosa que abre clareiras de 1,8 mil metros de diâmetro e tão grande que precisa ser lançada a partir de um avião cargueiro.

Em duas semanas, os homens do general Dao dispararam 20 mil tiros e destruíram 37 tanques T-54 do norte. Em função disso, os comandantes da campanha Ho Chi Minh fizeram uma mudança de planos para o ataque a Saigon e reposicionaram três novas divisões em Xuan Loc. Foi só então que, na noite de 20 de abril, o coronel Dao abandonou a cidade e instalou-se em Bien Hoa. Localizada no caminho da capital, a cidade era um centro de refugiados católicos de que os americanos se apropriaram para construir uma base aérea de grande importância estratégica. Mas Bien Hoa resistiria poucos dias. Com Xuan Loc rendida, estava definitivamente rompido o cerco de proteção a Saigon.

 

Dois estilos de comando

Entre junho de 1968 e junho de 1969, o primeiro-tenente americano Mark Scully serviu em Xuan Loc. O que ele viu ali mostra dois aspectos diferentes do exército sul-vietnamita: ao lado de comandantes dedicados, havia também líderes corruptos. Scully contou sua história para o fotógrafo Jeffrey Wolin, que em 2003 iniciou a exposição itinerante de imagens e textos “Inconvenient Stories”. “O comandante Dai-uy Diew tinha uma vasta ficha de crimes de guerra, acumulada desde a metade da década de 50”, conta Wolin. “Para reforçar o próprio salário e conseguir mais comida, medicamentos e combustível, Diew tinha soldados-fantasma. Vendia mantimentos no mercado negro e embolsava as bonificações de seus homens. Deveria ter matado aquele cara.”

PAPÉIS TROCADOS

Em compensação, o comandante Tieu-ta Tan, anterior a Diew, era um grande guerreiro tático, muito respeitado por seus subordinados. “Ele tinha passado por treinamento nos Estados Unidos”, diz Scully. “O problema é que perdeu poder e foi transferido para uma função inferior: garantir a segurança da estrada entre Xuan Loc e a base de Bien Hoa”.