Febre Tifóide: Guerra bacteriológica no Peloponeso

Descoberta a doença que matou 30 mil atenienses na guerra da Antiguidade

Bruno Tripode Bartaquini Publicado em 01/08/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Atenas, 430 a.C. Enquanto o exército espartano sitia a cidade, milhares de camponeses se amontoam dentro de suas muralhas. Subitamente, uma peste se instala entre a população. Ela causa febre, inflamação nos olhos e na garganta (que provoca um bafo fétido), refluxos de bile, calores terríveis, insônia e convulsões violentas. Se sobreviver, o pobre coitado ainda tem de suportar uma diarréia aguda e conviver para sempre com marcas no corpo. Em poucas semanas, milhares de vidas são ceifadas e, estranhamente, nem os cães nem os urubus se alimentam dos corpos insepultos. Que doença seria capaz de tamanha desgraça em plena Guerra do Peloponeso, na Grécia?

A resposta veio agora, 24 séculos depois. Pesquisadores da Universidade de Atenas acabam de descobrir que foi a febre tifóide a responsável pela tragédia que resultou em 30 mil mortes – número duas vezes maior que o de atenienses mortos em batalha. Partindo de relatos do historiador Tucídides (460 - 400 a.C.), Manolis Papagrigorakis e sua equipe examinaram o DNA de bulbos dentários de esqueletos encontrados na cova de Karameikos, datando de 430 a.C. E descobriram que a vilã foi a bactéria Salmonella typhi.

A peste matou cerca de um quarto da população total da cidade e fomentou um estado de caos nunca antes visto. Ela afetou tanto os costumes dos atenienses que eles, contrariando o hábito religioso de cremarem os corpos, se viram obrigados a enterrar seus mortos em covas coletivas como a de Karameikos. “O funeral foi conduzido em um estado de pânico em uma cova com poucas oferendas, o que parece razoável se você considerar que milhares de corpos jaziam pelas ruas”, diz Papagrigorakis.

Mesmo não tendo sido o fator decisivo na guerra (que foi, principalmente, uma desastrosa derrota na Sicília, seguida pela perda da frota em Aegospotami), a epidemia foi o primeiro grande revés de Atenas na guerra. Produziu um imenso choque moral para seus supersticiosos habitantes e os privou da liderança insuperável do governante Péricles, vitimado pela doença.

 

Tanta briga por nada

Esparta e Atenasse engalfinharam pelasupremacia grega

A Guerra do Peloponeso, península no sul da Grécia, foi travada entre 431 e 404 a.C. No fim, Esparta ganhou, mas a luta fez mal para as duas cidades, que acabaram perdendo seu poderio para uma nova potência, a Macedônia.

1. E começa a guerra

A disputa por Epidamnos, em 432 a.C., foi o estopim para a guerra. Atenas, apoiando seus aliados da ilha de Córcira, derrota a frota de Corinto, aliado de Esparta. Os espartanos consideram que o tratado de paz entre as cidades-estados fora rompido.

2. Menos é mais

Uma das vitórias navais mais espetaculares de Atenas foi em 429 a.C. Com 20 trirremes, embarcação com remos colocados em três níveis, os atenienses derrotam uma frota de 77 barcos coríntios e espartanos.

3. Soldados reféns

Seis anos após o início da guerra, os atenienses obtêm uma vitória importante: capturam 400 hoplitas espartanos – soldados de infantaria armados com lança e couraça. Os reféns servem como moeda de troca e para desmoralizar o adversário.

4. Chacina

Em 413 a.C., Atenas resolve tomar a maior cidade da Sicília e envia sua maior força até então: 134 trirremes e 4 000 hoplitas. Mas a cidade-estado é derrotada pelas forças combinadas de Siracusa e Esparta. Cerca de 40 mil homens são mortos.

5. Xeque-mate a atenas

Na batalha de Aegospotami, segundo o historiador grego Xenofonte (427-355 a.C.), navios peloponésios capturaram os trirremes atenienses enquanto os marinheiros de Atenas, espalhados e desorganizados, procuravam comida.

6. Fome no fim da guerra

Após a perda de 168 trirremes na batalha de Aegospotami, Atenas se vê sem sua última força naval e sem seu suprimento de grãos. A cidade-estado, tomada pela fome, capitula em 404 a.C., perdendo todas as suas possessões ultramarinas.