Filhos do holocausto: rompendo o silêncio

Filhos de sobreviventes dos campos de concentração contam como aprenderam com seus pais a valorizar a tolerância, a paz e a vida, em quatro depoimentos emocionantes

Giovana Sanchez Publicado em 01/05/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

NORMAN FINKELSTEIN

Chicago - EUA

Escritor e professor de Teoria Política na Universidade DePaul, em Chicago, 53 anos, americano.

Filho de Maryla Husyt e Zacharias Finkelstein

“A maioria dos meus conhecimentos de política não veio dos livros, mas dos meus pais. Minha mãe recebeu uma educação rígida. Estudava Matemática na Universidade de Varsóvia, na Polônia, quando a Segunda Guerra Mundial estourou. Sempre que eu dizia para ela que tinha trabalho para fazer, a mesma conversa começava: ‘Que trabalho?’, ela perguntava. ‘Tenho de ler’, eu respondia. ‘E você chama leitura de trabalho?’.

Meus pais estiveram no gueto de Varsóvia entre 1939 e 1943. Os dois foram deportados para o campo de concentração de Maidanek, na Polônia, após uma rebelião frustrada. Então, minha mãe foi levada para um campo de trabalho escravo e libertada pelos russos. Meu pai foi levado para Auschwitz – estava na ‘marcha da morte’ – e resgatado pelos americanos. Encontraram-se em um campo de refugiados na Áustria e foram para os EUA em 1947.

Eles nunca me falaram abertamente sobre suas experiências na guerra. O assunto aparecia nas conversas sobre política externa contemporânea. Viam o mundo pelas lentes do Holocausto. Ambos apoiavam a URSS porque os soviéticos haviam vencido os nazistas. Opunham-se aos EUA porque estes eram adversários dos soviéticos. Eu, muitas vezes, perdia a paciência com as teorias conspiratórias de minha mãe. E ela perdia a paciência com a minha falta de paciência.

Minha mãe era mais que sensível à guerra – ela era histérica. Embora conhecedora dos fatos, ela detestava qualquer tipo de intelectualização do assunto. Até engajar-se em um debate sobre o Vietnã seria um ato moralmente inaceitável. Isso mostrava uma genuína falta de revolta e de compreensão contra o horror: ninguém que tivesse realmente vivido a guerra iria discuti-la.

Se minha mãe falava muito da guerra, meu pai nunca disse uma palavra sobre o assunto. Um dia eu perguntei para minha mãe o porquê. Sem nenhum traço de complacência, ela disse que, na verdade, ele nunca entendera o que havia acontecido com ele mesmo.

Eu tinha muitos caminhos para seguir na vida. Mas, depois que soube do peso do que meus pais enfrentaram, restou apenas um. Logo que entrei na universidade, a área de política tornou-se o objetivo de minha existência. Ensinando, passo aos outros um pouco da graça que tive.”

TALI HELEN NATES

Joanesburgo – África do Sul

Diretora de uma organização não-governamental de direitos humanos na África do Sul, 45 anos, israelense

Filha de Judith Turner e Moshe Turner

“Meu pai foi sobrevivente na Polônia, na área de Zakopane. Passou por três campos de concentração: Zakopane, Plaszow e Brinnlitz. Ele e meu tio eram homens abençoados, ambos foram salvos por Oskar Schindler, seus nomes estavam na famosa lista. Minha mãe era de Varsóvia e, simplesmente, teve sorte. Conseguiu fugir para a Palestina dias antes de estourar a Segunda Guerra Mundial. Ela conseguia falar de suas experiências mais livremente, pois saiu antes de começar todo o horror – apesar de ter perdido muitos parentes na guerra.

Até 1960, meu pai não falava sobre o assunto, só contava de maneira geral algumas histórias. Por muitos anos, ele teve pesadelos terríveis com as lembranças de quando trabalhava nos campos de concentração. Eu só soube dos verdadeiros traumas pelos quais ele passou anos depois de sua morte, em longas conversas com meu tio, que ainda vive. Sobre Schindler eu sabia, pois, quando pequena, recordo-me que o alemão costumava ir para Israel. Era o evento mais importante do ano para meu pai e para os outros judeus salvos por ele. Todos se reuniam e iam visitá-lo. Era uma alegria enorme para eles.

Eu sempre quis cuidar muito dos meus pais, queria protegê-los, evitar o sofrimento de qualquer maneira. Queria ser a ‘mãe’ deles, mesmo quando criança ou adolescente. Aprendi muito com meu pai. Ele era um homem gentil e tolerante. Hoje, sei que não se pode generalizar sobre nada, e que é preciso respeitar as escolhas de cada um. Ele aprendeu isso com Schindler, que era um alemão, mas que salvou sua vida. Aprendi o mesmo com meu pai. Ajo muito de acordo com seu modo de ver o mundo e sinto-me honrada por poder enxergar e respeitar seu legado.

Também escolhi minha carreira em função da história de meus pais. Depois de estudar o tema do Holocausto tanto em Jerusalém como na África do Sul, resolvi fazer algo concreto, ajudar a resolver situações conflituosas. Hoje, sou diretora da ONG Facilitation of Vulindlela, dedicada aos estudos de reconciliação na África do Sul. Dediquei minha vida à prevenção do ódio e da intolerância, pois sei que o único caminho para a solução dos conflitos é o diálogo.”

ESTHER FINDER

Rockville – EUA

Professora de Psicologia, 53 anos, americana

Filha de Faye Rotstein Toporek e Harry Toporek

“Minha mãe costumava contar histórias sobre sua vida antes da Segunda Guerra Mundial, mas nunca disse nada a respeito dos anos de conflito até eu me tornar adolescente. Ela tinha seqüelas físicas visíveis. Um dia, perguntei como aquilo tinha acontecido. Foi então que ela falou pela primeira vez das suas experiências no gueto de sua cidade, antes de ser transferida para o gueto de Lodz, e do fato de ter perdido uma irmã em Auschwitz. Meu pai só falou sobre o assunto depois da morte da minha mãe, em 1970. Ele deve ter pensado que eu já estava grande o suficiente. Há também aquele sentimento de que os sobreviventes do Holocausto devem apenas superar os traumas e tocar a vida adiante. Mas, uma vez que ele começou a contar, nunca mais parou. Conversamos sobre o assunto até hoje.

Quando ouvia pessoas dizendo que os judeus iam para a câmara de gás como ‘ovelhas para o abate’, eu ficava irritada. Meu pai foi meu primeiro herói. Ouvir coisas desse tipo sobre sua história fazia-me muito mal. Minha reação, na época, era pensar: ‘como puderam matar tantos judeus?’ Hoje me pergunto como os judeus conseguiram sobreviver. Acho que foi por isso que fui estudar psicologia, para tentar entender como alguém pode fazer tão mal a outras pessoas. Estou realizada como profissional. Além de entender muito mais sobre a natureza humana, posso ajudar as pessoas. E tento fazer com que o mundo seja um pouco melhor.

A história de meus pais me levou a estudar assuntos relativos ao Holocausto na Universidade de Jerusalém. Hoje, faço trabalhos voluntários nas comunidades de sobreviventes e sou presidente de um grupo de filhos de sobreviventes em Washington, o The Generation After. Também fundei o Generations of the Shoah International. Casei-me com um filho de sobreviventes. Acredito que seja por isso que nós nos entendemos e entendemos nossas famílias tão bem. Crescemos em circunstâncias parecidas – nenhum dos dois conheceu os avós, por exemplo.

Acho que a coisa mais importante que aprendi com meus pais foi valorizar a vida, a liberdade, a tolerância e a paz. Vivemos em um mundo regido por valores materiais, que não trazem e jamais trarão a felicidade plena. Também descobri como é bom viver em uma democracia, ser uma cidadã completa, com direitos. Rezo todos os dias para que, um dia, ninguém mais precise vivenciar as experiências de uma guerra.”

HAVA TEPERBERG

Jerusalém - Israel

Corretora de imóveis, 59 anos, eslovaca

Filha de Ester Lorber-Moskovitz e Ariyeh Moskovitz

“Ser filha de sobreviventes tornou-me uma pessoa muito ansiosa, sempre temerosa de um possível grande desastre. Também significou crescer rápido demais, perder um pouco da minha infância e da minha juventude, pois tive de ser meio ‘mãe’ dos meus pais. Isso teve um grande impacto em minha auto-estima e em minha personalidade. Imagine você: todos os meus problemas pareciam sempre pequenos perto daquilo que meus pais haviam passado, perto do crematório que meu pai viu no campo de concentração de Auschwitz, por exemplo.

Mas foi justamente isso que me fez crescer. De uma maneira dura, mas fez. Eles me ensinaram a contornar qualquer problema, porque nunca sabemos o que vai acontecer amanhã. Nunca existiu, para mim, aquele pensamento de adolescente: ‘isso nunca vai acontecer comigo’. Eu estava sempre preparada, tinha de estar.

Desde pequena, eu me interessava em ouvir as histórias dos meus pais. Principalmente quando seus amigos e parentes iam em casa e ficavam na sala durante horas falando sobre as situações que enfrentaram. Eram longos relatos, cheios de detalhes. Hoje, sei que essas histórias – e o Holocausto em si – tiveram importante significado em todo o meu processo de crescimento.

Minha mãe tinha 16 anos quando foi para Auschwitz, e 19 quando conseguiu fugir. Ela sobreviveu graças a seu impecável alemão, que a ajudou a conseguir um emprego como desempacotadora de malas, em um lugar em que havia mais comida. Quando a ‘marcha da morte’ começou, ela conseguiu escapar. Foi para uma cidade pequena, próxima de onde estava, e encontrou um fazendeiro que permitiu que ela se escondesse em seu bar. Ela teve muita sorte. Lá, ficou até o final da guerra, em 1945. Meu pai também esteve em campos de concentração, mas não sei como ele conseguiu fugir. Algumas histórias, às vezes, fogem-me da memória.

Pais e parentes de muitos dos meus amigos também eram sobreviventes dos campos de extermínio nazistas. Foi toda uma geração que cresceu junta. Quando olho para trás, acho que talvez nós soubéssemos demais para crianças daquela idade. Com cinco ou seis anos, tínhamos uma imaginação enorme para cada detalhe narrado por nossos pais. As histórias ficavam maiores e mais tenebrosas. Mas foi a verdade que, no final, acabou por nos salvar também.”