Filhos da vergonha: pais americanos, mães vietnamitas

Filhos da vergonha: pais americanos, mães vietnamitas

Tiago Cordeiro Publicado em 01/01/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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Em média, os soldados americanos que combateram no Vietnã tinham 19 anos quando começaram a lutar. Enquanto estiveram no Oriente, tiveram suas namoradas. Ao voltar para casa, muitos deles deixaram filhos abandonados do outro lado do planeta. No Vietnã, essas crianças eram motivo de vergonha de suas mães, que tinham de enfrentar o preconceito da família e a má vontade do regime comunista, que as considerava traidoras da pátria – isso em um país onde os mais velhos costumam dizer que é melhor casar a filha com um cachorro da própria vila a dar sua mão a um forasteiro. Em alguns casos, quando a criança era loira demais e destoava dos padrões étnicos locais, as mães tentavam disfarçar as diferenças pintando os cabelos dos filhos.

Ainda em abril de 1975, os Estados Unidos tentaram repatriar órfãos sul-vietnamitas, muitos deles filhos de americanos. Usando aviões e helicópteros, o Exército salvou mais de 3 mil crianças, apesar de ter perdido centenas delas quando um C5A Galaxy com 400 crianças e 60 voluntários a bordo caiu e 170 pessoas sobreviveram. Desde a queda de Saigon, milhares de vietnamitas tentaram sair ilegalmente do país. Estima-se que, até 1979, 100 mil pessoas tenham conseguido fugir. Foi só em meados da década de 80 que os Estados Unidos criaram um programa consistente de repatriação de vietnamitas que tinham vínculos de parentesco com ex-militares americanos. Em 1988, o Congresso aprovou o Amerasian Homecoming Act, lei que facilitava a entrada dos amerasiáticos, como eram chamados. “Muitas dessas crianças já eram adolescentes. Depois de anos de abandono das famílias vietnamitas, elas se viram cercadas de parentes que queriam fazer a vida nos Estados Unidos”, diz o psiquiatra americano Robert McKelvey, que lutou no Vietnã e há 30 anos pesquisa as mudanças psicológicas causadas pela imigração.

Sem família nem pátria

A partir de 1989, entraram nos Estados Unidos 25 mil amerasiáticos. Segundo uma pesquisa realizada pela Universidade de Ohio, 76% deles pretendiam reencontrar os pais, mas somente 30% sabiam os nomes deles. Apenas 3% conseguiram localizar sua família americana – destes, só um terço teve a sorte de ser bem recebido, já que, em muitos casos, os militares se casaram e tiveram outros filhos depois da volta para casa. O que significa que, das 19 mil pessoas que queriam encontrar os pais, apenas 190 ganharam uma família no novo país. “Todas as demais se viram sem vínculos. Muitas delas ainda hoje não falam inglês e, por isso, não conseguem nem mesmo a cidadania americana”, diz McKelvey. “Os vietnamitas filhos de soldados americanos têm menos estudo e maior incidência de abuso de álcool do que outros imigrantes de mesma idade e vindos da mesma região.” No caso desses jovens, não há pátria possível. Eles vão passar o resto da vida pagando o preço de existirem.

Efeito colateral

O Vietnã faz parte do Triângulo Dourado, uma área de extensas plantações de papoulas entre o Camboja, o Laos e a Birmânia. Não surpreende que, durante a Guerra do Vietnã, 30% dos soldados americanos tiveram algum contato com heroína, cocaína e ópio. Entre os combatentes, havia 80 mil viciados em heroína, contra 68 mil em todo o território americano. Para esses soldados, uma dose de heroína que custava apenas 2 dólares era uma tentação. Em 1970, o índice de mortes por overdose entre militares aumentou 175%. Na volta para casa, esses americanos deram uma contribuição importante para que os EUA se tornassem o maior consumidor de psicotrópicos do mundo.