Frida Kahlo: Mulher de tintas fortes

A pintora Frida Kahlo não tem papas na língua. Com seujeito aguerrido e apaixonado, fala sobre sua tumultuada vida,suas convicções políticas e seu amor por Diego Rivera

Maria Fernanda Vomero* Publicado em 01/03/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Aos 18 anos, numa tarde de 1925, a mexicana Frida Kahlo sofreu um acidente que mudou completamente o rumo de sua vida. O microônibus que a levava da escola até sua casa chocou-se com um bonde. A jovem teve fraturas múltiplas: na coluna, na perna e no pé direitos, na clavícula e na pélvis – esta causada por uma barra de aço lhe atravessou a bacia até a vagina. Muitos médicos duvidavam que fosse sobreviver, mas ela se restabeleceu. E mais: no longo período em que ficou na cama, começou a pintar, estimulada pelo pai, Guillermo, um imigrante alemão que trabalhava como fotógrafo e pintava de vez em quando. Surgia, assim, uma pintora de cores apimentadas, herdeira da cultura mexicana, que viveu intensamente – apesar das dores que não a abandonaram. Em suas telas, expôs seu sofrimento físico, suas convicções políticas (era comunista) e seu amor inebriante pelo muralista mexicano Diego Rivera, com quem se casou duas vezes. Morreu em 1954, aos 47 anos.

História – Você nasceu em 1907, mas gostava de dizer que era de 1910, ano que marcou o início da Revolução Mexicana. Por quê?

Frida Kahlo – Era uma licença poética, muchacha! Afinal, sempre me identifiquei com os ideais nacionalistas que motivaram a derrubada da ditadura de Porfírio Diaz. Eu era adolescente quando a revolução terminou, em 1917, com um saldo de mais de 1 milhão de mortos. Venustiano Carranza subiu ao poder e adotou um nacionalismo, veja só, que fazia concessões a empresas americanas. Só alguns anos depois entendi que o movimento não foi bem-sucedido politicamente, mas favoreceu uma efervescência cultural que celebrava o retorno às nossas origens indígenas.

Foi por isso que você passou a usar saias longas e coloridas, blusas com bordados, coques e fitas?

Minhas roupas são uma extensão de minha manifestação artística. Comecei a usar esse estilo depois que me casei com o Diego, em 1929. Ele levava muito a sério o compromisso de pintar, em seus murais, temáticas sociais e históricas, usando elementos da arte popular mexicana. Resolvi fazer isso também. Não só em meus quadros daquela época, mas em meu jeito de vestir. Às vezes, usava uma espécie de blusão, com uma trança na frente, que no México chamamos “huipil yalalteco”. Em outras, colocava roupas de “tehuana”, com anáguas e bordados, símbolo da mulher forte. O Diego adorava! Mas quando minha auto-estima ia para o chão – por causa dele, lógico –, ou quando eu simplesmente queria provocar, vestia trajes masculinos.

Sua relação com Diego Rivera não foi das mais tranqüilas, não é?

(Frida solta um longo suspiro) Não, pelo contrário: foi uma turbulência! Casamos, nos divorciamos e voltamos a casar. Tive vários relacionamentos extraconjugais, inclusive com mulheres, mas ele – e só ele – foi o grande amor da minha vida. Diego me dizia o mesmo, apesar de suas incontáveis puladas de cerca. Acredita que até com minha irmã Cristina ele teve um caso? Hombre, como chorei no dia em que descobri. Eu costumava dizer que sofri dois acidentes na vida: um foi no ônibus e o outro, Diego. Porém, ele era minha seiva, minha inspiração, meu grande companheiro. Graças a ele, me sentia a mulher mais especial do mundo.

Como foi a experiência de morar nos Estados Unidos?

Diego recebeu vários convites para pintar murais ou expor trabalhos por lá. Por isso, moramos um tempo em São Francisco, mas também estivemos algumas vezes em Detroit e Nova York, entre outras cidades. Fiquei impressionada com o estilo de vida americano, fincado no progresso industrial, na falta de valores humanos e na ausência de tradições. Eu me perguntava: esse país não tem história? Cheguei a pintar alguns quadros com essa indagação. Tudo tão frio e artificial... Às vezes, me sentia num galinheiro sujo e incômodo. Acho que peguei pesado, não? Pode cortar essa frase, se seu editor achar que é demais.

E o episódio do Rockefeller Center, em Manhattan?

Pois é, o Diego tanto teimou em pôr um retrato do Lênin no mural que acabou sendo despedido! Veja bem: Lênin num elegante edifício capitalista! Devo confessar que adorei a irresponsabilidade dele... Éramos comunistas, por que negar isso?

O que os ideais do comunismo significavam para você?

Uma crença profunda e um amparo nos momentos de desilusão. Eu era completamente devotada ao movimento revolucionário. Jovem ainda, me filiei ao Partido Comunista Mexicano. Nem sempre estive próxima da militância, mas jamais deixei de acreditar num mundo sem classes, com justiça social. Lênin, Stálin, Mao... todos esses foram meus ídolos.

E Trótski?

Chica, essa história já deu o que falar. Eu e Diego conseguimos permissão para abrigar Trótski e a mulher durante o asilo político dele no México, em 1937. Nós dois passávamos boa parte do dia conversando sobre política e arte. Surgiu, então, uma admiração mútua. Como eu estava separada de Diego, deixei rolar... E rolou. Foi só um affair. Trótski era muito carinhoso, mas do jeito dele: russo demais e latino de menos, entende?

Se pudesse, você mudaria algo em sua vida? Faria algo diferente?

Nada. É claro que preferiria não ter sofrido o acidente, mas isso estava além do meu controle. Também queria muito ter sido mãe, mas não consegui. De qualquer modo, vivi o suficiente. É como eu disse na última linha do meu diário: “Aguardo alegre a saída e espero não voltar jamais”.

*Maria Fernanda Vomero é editora de cinema da revista Bravo. É fã de Frida Kahlo e de seus auto-retratos, que, segundo ela, expressam a alma feminina de modo universal. Quando esteve no México, no ano passado, fez questão de ir ao museu sobre a pintora. Em São Paulo, quando não está vendo filmes, até arrisca umas pinceladas.

 

Saiba mais

Livros

Frida Kahlo, Coleção Gênios Del Arte, Susaeta, 2004

Um bom livro introdutório sobre a vida e a obra da pintora, com reproduções de seus mais importantes quadros, como Dos Fridas e La Columna Rota.

El Diario de Frida Kahlo – Un Intimo Autorretrato, Frida Kahlo, Harry N. Abrams, 2005

Edição fac-símile do diário que Frida manteve entre 1944 e 1954, com poemas, textos breves, desenhos e aquarelas.

Filme

Frida, Julie Taymor, 2002

Com Salma Hayek como protagonista, vale como introdução às principais passagens de sua vida.