Full Circle: livro traça paralelo entre os hábitos da antiguidade e os atuais

Escritor britânico mostra em Full Circle que muitas atitude que nos parecem modernas hoje como o culto ao corpo e os debates climáticos, já faziam parte da vida de gregos e romanos

Leila Zampieri Publicado em 01/11/2010, às 18h13 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Full Circle
Full Circle - Arquivo Aventuras

Em busca de um pouco de descanso para o corpo e para a mente, homens e mulheres chegam às dezenas e enchem as diversas e amplas salas. Estão atrás de massagens, de terapias de relaxamento e da oferta de alimentos leves, apenas alguns dos serviços oferecidos pelos famosíssimos e disputados estabelecimentos. Pensou nos modernos spas? Quase acertou. Trata-se dos banhos públicos do antigo Império Romano. Há mais de 2 mil anos, as pessoas procuravam nas termas o alento que hoje temos nesses centros de relaxamento.

A semelhança - inclusive física - não passou despercebida ao escritor inglês Ferdinand Mount. E não é apenas nesse aspecto que a sociedade atual repete padrões da greco-romana. O que dizer da obsessão dos gregos pelos esportes? Soa familiar? Full Circle - How the Classical World Came to Us (Círculo Completo - Como o Mundo Clássico Chegou Até Nós, inédito no Brasil) reúne esses e outros paralelos. "Muito da sociedade que está agora emergindo apresenta uma semelhança surpreendente com as características mais proeminentes do que chamamos de mundo clássico - suas instituições, suas prioridades, sua moralidade sexual, sua comida, sua política e até sua religião", diz o autor. "Embora não estejamos conscientes disso, as formas com que vivemos nossa rica vida correspondem às formas com que os gregos e romanos viviam a deles."

O culto ao corpo: hábito retomado no fim do século 20. (Ilustração: Alexandre Jubran)

Mount diferencia, porém, as similaridades contemporâneas daquelas produzidas durante a Renascença. Entre o fim do século 13 e o século 16, o movimento surgido entre artistas, arquitetos e filósofos foi, segundo ele, uma "imitação consciente" do mundo antigo - uma maneira encontrada por eles para tentar reviver o passado de glórias. Hoje, o negócio é outro. "O ‘revival clássico’ atual parece ter nascido naturalmente, em grande parte sem nem percebermos."

Assim - falando sobre ginástica, ciência e outros temas -, o escritor traça uma série de coincidências entre os nossos modos de ver o mundo (com foco na realidade europeia, claro) e aqueles ancestrais.

Entre os melhores exemplos estão justamente os banhos públicos. Os estabelecimentos pululavam nas esquinas do Império Romano. No século 4, havia 865 pequenos banhos só na capital. Eram o centro da vida romana. E também apurados feitos arquitetônicos. "Suas lojas e seus lugares para comer e beber anteciparam a arquitetura dos mercados medievais e dos modernos shopping centers", afirma Mount. Os banhos menores reciclavam a água de cisternas e reservatórios. Para abastecer os maiores, aquedutos eram construídos. No tempo do imperador Trajano, Roma era servida por nove aquedutos colossais, que transportavam 1 milhão de metros cúbicos de água por dia.

Com a queda do império, os banhos foram abandonados. Só que, mais do que os bárbaros, seu pior inimigo foi a "nova fé", diz o autor. Para os cristãos, a água deveria ser usada apenas no batismo, e não para a higiene e muito menos para o deleite carnal. No século 18, houve na Europa um movimento para "reerguer" as casas de banho, mas somente com o propósito medicinal. Agora, entre o fim do século 20 e este início de 21, os spas proliferam. Em 2009, movimentaram 60 bilhões de dólares no mundo todo para vender saúde, bem-estar e prazer. Exatamente como em Roma. O cristianismo, instaurado como a religião oficial do império a partir do século 4, é apontado por Mount como o responsável pelo sepultamento de vários outros costumes e práticas dos antigos gregos e romanos. Entre elas, os exercícios físicos. A ginástica era um dos pilares da educação grega, que treinava crianças a partir dos 8 anos. Os ginásios, gigantescos complexos com vestiários, banhos, pistas de corrida e salões para boxe e jogos com bola, eram amplamente frequentados. O hábito foi incorporado pelos romanos, mas a decadência do império levou a um "eclipse gradual de todo o aparato de educação física, competição atlética e jogos organizados". Para Mount, os ginásios foram propositalmente destruídos porque os atletas faziam exercícios nus. "Os jovens gregos se exercitavam nus como uma expressão de liberdade e de prazer com o mundo físico", diz. Nudez nunca combinou com cristianismo. "As duas instituições que eram centrais à cultura clássica - os banhos e a ginástica - foram aquelas que provocaram o maior desgosto e condenação da nova fé." No século 19, a ginástica ganhou espaço, mas o culto ao corpo só voltou a ser hábito a partir do fim do século 20.

Nesse mesmo balaio dos prazeres comuns aos antigos, rejeitados pelos cristãos e agora recuperados, o autor aponta ainda a comida e a bebida. O sexo sem envolvimento e a traição têm destaque. "Os gregos encaravam o sexo mais como comer e beber do que outras culturas", afirma ele. "A visão do prazer sexual da maioria das pessoas hoje varia entre o pensamento de Aristóteles (filósofo grego, século 4 a.C.) e o de Lucrécio (filósofo romano, século 1 a.C.): parte natural de uma relação saudável (ainda que, para a maioria, expressada pelo casamento) e uma maneira igualmente saudável, mas emocionalmente independente, de exercício físico."

A mente

Durante séculos, a humanidade viveu como se não houvesse amanhã. Recursos naturais foram usados sem a noção de que são finitos. Também no fim do século 20, o debate ambiental ganhou espaço. Se as ações de preservação ainda são limitadas, já se pode falar em consciência ecológica. Mas estaríamos poupando recursos há séculos se tivéssemos ouvido os filósofos pré-socráticos. Mount explica que a questão climática já era uma preocupação entre os gregos. Xenófanes era um dos que se interessavam pelo assunto. Dizia que o planeta estaria ficando mais úmido, baseado em estudos de conchas e marcas em fósseis encontrados em montanhas distantes quilômetros do mar.

O mesmo Lucrécio, que tinha teorias modernas sobre sexo, antecipou ideias sobre o código genético, agora decifrado. Observando a semelhança entre crianças e seus bisavós, escreveu: "Isso ocorre porque os corpos dos pais preservam uma quantidade de sementes latentes, agrupadas em várias combinações, que derivam de um ancestral e são estocadas e transmitidas de geração a geração".

Causaram espanto ainda ao autor as semelhanças entre as crenças esotéricas recentes e as dos romanos. Antes de ir a Genebra encontrar-se com Mikhail Gorbachev, o ex-presidente americano Ronald Reagan procurou traçar um mapa da personalidade do colega russo. Para isso, consultou sua astróloga favorita, Joan Quigley. Ela aconselhou Reagan sobre o exato momento em que ele deveria assinar o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário, em dezembro de 1987. Atitude parecida com a do imperador Otão, que, no século 1, marchou para cima de Vitélio a conselho de astrólogos do reino, contrariando o chefe de seu exército. Deu certo.

Em Full Circle, Ferdinand Mount não trata do legado deixado pelos gregos e pelos romanos. Não estão lá descrições sobre a língua desenvolvida durante o Império Romano. Nem há menções sobre as contribuições médicas, como a identificação pelos gregos da maior parte dos órgãos e de doenças como artrite e câncer. "As questões que quero explorar não são sobre quanto nós devemos aos gregos e aos romanos, mas sobre quanto nós somos como eles. Em tantos jeitos, grandes e pequenos, triviais e profundos, nós somos eles e eles são nós", afirma Mount.

A obra mostra que, por mais que acreditemos ser "modernos" e "avançados", duas antigas sociedades já o foram antes. Milênios antes de nós.


As (pa)redes sociais

Os romanos também publicavam suas ideias


Se algo nos parece digno de contar a outras pessoas, logo corremos a escrever em blogs. Vemos uma notícia interessante na internet e a indicamos para nossos seguidores no Twitter.

Queremos parabenizar o amigo por seu aniversário? Deixamos um recado no Facebook. Estamos todos conectados pelas redes sociais. Os romanos não dispunham de tantos recursos tecnológicos, mas tinham as paredes. E nelas escreviam o que pensavam.

Davam recados uns para os outros, anunciavam lutas de gladiadores, publicavam declarações de amor, difamavam os desafetos.

Essa história não está em Full Circle, mas pode ser encontrada em A Vida Quotidiana da Roma Antiga, do historiador Pedro Paulo Funari. No livro, o professor da Unicamp mostra como paredes encontradas em escavações de Pompeia ajudaram a desvendar a rotina daquele período. E como, sem nem cogitar

O futuro, os romanos anteviam as modernas mídias sociais - o que, algum dia, também deve ajudar a entender como somos hoje.

Saiba mais

A Obra
Full Circle: How the Classical World Came Back to Us. Ferdinand Mount, Simon & Schuster, 2010 R$ 37,14*