O futuro dos fuzis de assalto

Mais compactos e versáteis, os novos fuzis refletem as mudanças ocorridas nos campos de batalha

Carlos Emilio Di Santis Junior Publicado em 12/07/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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Desde sua criação, em 1942, durante a Segunda Guerra, o fuzil de assalto, idealizado como uma arma longa, com o poder de fogo de uma submetralhadora e a potência de um fuzil de ferrolho, comum naquela época, tornou-se o armamento básico de soldados em todo o planeta. Durante as cinco décadas que se seguiram ao fim do conflito, o fuzil de assalto teve poucas mudanças de projeto em relação ao conceito original, promovido pelo modelo MP-42, mais conhecido como STG-44. As mudanças mais notáveis foram a diminuição do calibre, devido a uma nova doutrina segundo a qual se pode anular três soldados inimigos quando se fere um soldado, já que pelo menos dois soldados terão de carregar o ferido, anulando assim três membros do pelotão inimigo. Como um soldado morto é deixado para trás, a tática de matar, pura e simplesmente, é menos eficaz. Por isso, o calibre 7,62 x 51 mm, adotado nos principais fuzis, foi substituído pelo famoso 5,56 x 45 mm, usado em quase todos os projetos ocidentais atuais – seu mais famoso representante é o AR-15 e sua versão militar, o M-16 automático.

No início dos anos 90, durante a Guerra do Golfo, o Iraque invadiu o Kuait e foi repelido por uma aliança de 28 países, comandada pelos Estados Unidos. A partir desse evento, ficou clara a necessidade de se modificar a capacidade do fuzil de assalto, incorporando-lhe recursos que pudessem dar uma vantagem real sobre o equipamento do inimigo. Foram realizados estudos para detectar as mudanças que estavam ocorrendo nos campos de batalha. Além disso, houve, nos Estados Unidos, o atentado de 11 de setembro, que acabou por justificar a invasão do Afeganistão por tropas americanas apoiadas por aliados, como os ingleses, com o objetivo de banir do governo afegão o Talibã, tido como um grupo terrorista.

Com esses acontecimentos e o estudo das necessidades e das mudanças nos campos de batalha do futuro, chegou-se à conclusão de que os combates de infantaria têm como ambiente mais provável a área urbana. Com isso, a primeira atualização dos novos projetos de fuzis de assalto foi no sentido de diminuir seu comprimento. Um fuzil M-16 A-2 tem 99 centímetros, medida similar à da maioria dos fuzis de assalto no padrão ocidental. Já os novos projetos tiveram duas soluções para compactar o comprimento. Primeiro, foi introduzida a coronha rebatível, ou telescópica. A segunda solução foi à diminuição do cano. Essa modificação não é tão importante para o emprego tático do fuzil, uma vez que as distâncias do combate no ambiente urbano são bem menores que as do campo aberto, onde um cano mais longo é necessário para se conseguir precisão em maiores distâncias. O novo fuzil da Heckler & Koch, o XM-8 desenvolvido para o Exército americano, tem como versão básica o modelo com cano encurtado e coronha telescópica, que, aliás, está presente em todas as versões da arma. Outra mudança importante foi a incorporação de trilhos picatinny, na parte superior da arma e na parte inferior e lateral da telha da arma. Esses trilhos fornecem praticidade na instalação de acessórios como miras eletrônicas e ópticas, videomiras (para visada indireta), lanternas, miras laser, manoplas de apoio e bipés, para tiros mais precisos. Por isso, a primeira coisa que se pode observar em um moderno fuzil de assalto é a existência desses trilhos na superfície do fuzil.

Modulares e práticos

Os novos fuzis de assalto serão modulares, permitindo a modificação de suas características técnicas e de seu desenho, de forma tão fácil que poderá ser executada pelo próprio soldado no campo de batalha. Um exemplo é a necessidade de se trocar de calibre – com a simples substituição do cano da arma e de seu carregador – para adaptar-se à munição do inimigo, ou ainda, mudar o calibre da arma para um mais potente, a fim de conseguir um melhor poder de parada. Essa característica é decorrente de inúmeras reclamações de soldados americanos em combate no Afeganistão e no Iraque. Eles relataram que dificilmente conseguiam derrubar seus inimigos com apenas um disparo, ou seja, era necessário acertar o oponente pela segunda vez para detê-lo. Essa dificuldade decorre do fato de que os soldados estão usando uma vestimenta cada vez mais resistente ou com blindagem, por meio do uso de colete balístico ou mesmo de roupas pesadas e acessórios junto ao corpo, o que dificulta a penetração dos pequenos projéteis do calibre 5,56 mm, tão comuns nas forças ocidentais e um padrão das forças americanas. Uma arma com essas características é o novíssimo fuzil FN SCAR, que foi selecionado pelo comando de forças especiais dos Estados Unidos (USSOCOM). Esse novo fuzil tem como característica mais marcante a facilidade de troca de seu cano e carregador para adaptar calibres diferentes, como o 5,56 x 45 mm, 7,62 x 51 mm ou o 7,62 x 39 mm.

Quando falamos dos novos fuzis de assalto, não podemos esquecer dos benefícios aplicados ao projeto, decorrentes da miniaturização da eletrônica. Novos conceitos de armas de infantaria estão buscando, além de todos os recursos descritos anteriormente, a capacidade de se atingir alvos que estejam protegidos por obstáculos como trincheiras e esquinas. Dois exemplos dessa nova capacidade são os projetos do PAPOP francês e do XM-25 americano, derivado do extinto projeto SABR XM-29. Essas armas disparam uma granada dotada de sensores internos, que são carregados com informações passadas pelo sistema de miras do próprio fuzil, que, além de um sistema óptico, conta com um telêmetro a laser, que calcula a distância do alvo escondido e passa essa informação para a granada. Esta, quando disparada, detonará em um ponto previsto por timer e lançará, durante a detonação, fragmentos que podem se espalhar por todos os lados ou para um lado específico, atingindo o alvo protegido. Essas novas armas impedem que o soldado inimigo possa sustentar o combate contra forças equipadas com as armas futuristas, obrigando-o a se render ou morrer. É interessante notar também que o PAPOP francês e o extinto XM-29 SABR são armas compostas: o fuzil com munição comum, cinética, está junto com uma lança-granadas semi-automático, de calibre 25 mm, no caso do XM-29, e de 35 mm, no PAPOP francês.

 

Ficha técnica

Conheça alguns exemplares da nova geração de fuzis que estarão nos campos de batalha

FN SCAR

Calibre: 5,56 mm (MK-16), 7,62 x 51 mm (MK-17) e 7,62 x 39 mm

Comprimento: 97 cm com a coronha estendida e 77 cm com a coronha recolhida (MK-17), 85 cm com a coronha estendida e 62 cm com a coronha recolhida (MK-16)

Peso: 3,5 kg (MK-16) e 3,86 kg (MK-17)

Cadência: 900 disparos/min

Carregador: 30 tiros (MK-16) e 20 tiros (MK-17)

PAPOP 2

Calibre cinético: 5,56 x 45 mm

Calibre da granada: 35 mm

Peso: 6 kg

Alcance da granada: 600 m

Alcance da munição cinética: 800 m

Miras: sistema óptico com telêmetro a laser, com câmeras para tiro indireto

HK XM-8

Calibre: 5,56 x 45 mm

Comprimento: 83,87 cm com a coronha estendida

Peso: 2,6 kg, descarregada

Carregador: 30/100 (beta)

Cadência: 750 tiros/min

HK G36K

Calibre: 5,56 x 45 mm

Comprimento: 99,9 cm (G36), 86 cm (G36K), 72 cm (G36C)

Peso: 3,6 kg (G36), 3,3 kg (G36K), 2,8 kg (G36C)

Carregador: 30/100 (beta)

Cadência: 750 tiros/min