Gabinete Especial: Laboratório da morte

Envenenamentos não são novidade para os russos: um gabinete foi criado em 1921 para eliminar os inimigos comunistas

Mario Araújo Publicado em 01/02/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

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No fim de novembro, a família do ex-espião russo Alexander Litvinenko acusou formalmente o presidente Vladimir Putin de ser cúmplice em seu assassinato – assim como de ter feito corpo mole nas investigações do crime. Litvinenko foi morto em 2006, aos 41 anos, envenenado após beber chá com polônio-210, num encontro no centro de Londres com o ex-agente da KGB Andrei Lugovov e seu sócio Dmitry Koytun. Independentemente do resultado das ações do Tribunal Europeu de Direitos Humanos, para onde o caso foi levado, envenenamentos com fins políticos na Rússia não são lá grande novidade.

Isqueiros que lançavam gás letal, telefones recheados de substâncias tóxicas, guarda-chuvas com lanças contaminadas, papéis de parede banhados em arsênico. Esses e outros métodos menos sofisticados de envenenamento já foram bastante usados na antiga União Soviética para a manutenção da ordem do sistema. Segundo o recém-lançado livro Laboratório dos Venenos: de Lênin a Putin, do escritor e jornalista russo Arkadi Vaksberg, tudo era produzido por um complexo empreendimento, o Laboratório de Produtos Tóxicos Secretos – ou simplesmente Gabinete Especial.

Criado em 1921 pelo líder da época, Lênin, o objetivo do laboratório, como especificava o regulamento, era “combater os inimigos do poder soviético”. A arma, de efeito potente, porém discreto, atingia precisamente o alvo sem deixar pista. As vítimas preferenciais foram personagens ilustres, como escritores, artistas e empresários, além, claro, de autoridades. Ironicamente, Lênin, segundo alguns historiadores, teria sido uma das vítimas de sua própria criação – uma substância tóxica teria acelerado seu processo de esclerose, causando múltiplos ataques cerebrais e antecipando sua morte, em 1924.

Com o passar dos anos, conta Vaksberg no livro, as pesquisas no Gabinete Especial se intensificaram: o esquema tornou-se profissional e as mais diferentes substâncias foram usadas, de venenos tradicionais (como rícino e colchicina) a metais radioativos e bactérias letais (como os bacilos da peste bubônica). Os métodos de aplicação também se modernizaram. A ingestão oral deu lugar, por exemplo, a metais radioativos emitidos de aparentemente inofensivas luminárias. Como as mortes eram encomendadas, as autópsias jamais diagnosticavam envenenamentos – muito menos as substâncias contidas nos coquetéis letais. Os laudos dos legistas eram quase sempre os mesmos: parada cardíaca.

 

As vítimas

Mortes atribuídas ao Gabinete Especial continuam até depois do fim da União Soviética

Abram Slutski - Agente secreto russo

Em 1938, degustou chocolates envenenados

Pavel Allilouiev - Cunhado de Stálin e oficial do Serviço de Informação Militar

Ingeriu ovo e café envenenados em 1938

Nadejda Konstantinovna Kroupskaia - Viúva de Lênin

Comeu comida envenenada em sua festa de 70 anos, em 1939

Gueorgui Markov - Escritor búlgaro que trabalhava na BBC de Londres

Em 1978, veneno foi inserido em seu organismo por uma picada causada pela colisão com o guarda-chuva de um transeunte

Ivan Kivelidi - Banqueiro e empresário russo

Numa forma rara de envenenamento, em 1995, inalou vapores durante uma conversa telefônica

 

Erva venenosa

O veneno sempre foi uma bela arma política. Aqui, alguns de seus usos - ou não

Tutancâmon (1341-1323 a.C.)

Ainda há dúvidas sobre a razão da morte do faraó: a hipótese de assassinato violento está praticamente descartada. Estudos mostram que ele pode ter morrido devido a uma inflamação em uma perna quebrada ou à ingestão de vinho envenenado.

Sócrates (470-399 a.C.)

Por propagar idéias modernas para a época, o filósofo grego foi preso e levado a julgamento popular. Como sentença, ingestão de cicuta, veneno usado para execução na Grécia antiga.

Papa Clemente II (?-1047)

A morte do papa nascido na Saxônia gera especulações. Pesquisas em seus restos mortais indicaram alta presença de acetato de chumbo, também conhecido por açúcar de chumbo. Ele foi provavelmente envenenado lentamente, sem perceber.

Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791)

O músico austríaco, com mania de perseguição, contou certa vez à mulher que fora envenenado. Após sua morte, o também músico Antonio Salieri foi acusado – e assinou uma confissão falsa de envenenamento. Mas, na verdade, Mozart sucumbiu à febre reumática.