Geórgia: vizinho do barulho

Os conflitos na Geórgia escondem a disputa entre a Rússia e os Estados Unidos para ampliar a influência em países estratégicos na região

Beto Gomes Publicado em 01/02/2008, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Entre os disparos secos de projéteis de borracha e as bombas de gás paralisante, o fotógrafo Davit Rostomashvili atravessa a densa cortina de fumaça para registrar as cenas de mais um dia de conflito nas ruas de Tbilisi, capital da Geórgia, país que vive uma de suas mais graves crises políticas desde que conquistou a independência da União Soviética, em 1991. Ele não é o único vulto a transitar naquela perigosa faixa de 50 metros, que separa a polícia de milhares de manifestantes. Escudos e máscaras de um lado, faixas e palavras de ordem do outro, Davit pára para ajudar e fotografar um ou outro ferido no meio do caminho. No dia seguinte, ele descobriria nas páginas dos jornais que 500 pessoas foram parar no hospital, muitas delas com ferimentos graves. Descobriria também que aquela seria uma das tardes mais violentas desde o início dos conflitos na Geórgia, em novembro passado, inflados pelo descontentamento da população com as políticas do então presidente Mikhail Saakashvili.

Sem emprego e vítimas dos elevados índices de pobreza e desigualdade social, os georgianos cansaram-se também das denúncias de corrupção. Saíram às ruas para pedir a renúncia do presidente, mas encontraram uma forte e inesperada repressão pela frente. Alinhado com os países ocidentais, especialmente com os Estados Unidos, Saakashvili adotou uma série de medidas que surpreendeu até mesmo seus aliados. Ainda no início de novembro, mandou suas tropas conterem os manifestantes, invadiu a emissora de televisão Imedi, que fazia oposição a seu governo, e decretou estado de emergência por 15 dias na capital.

A medida pegou mal. Americanos e europeus foram os primeiros a pedir para o presidente recuar e suspender o decreto. Ele resistiu durante nove dias, mas, quando voltou atrás, já era tarde. Àquela altura, políticos aliados haviam mudado de lado, engrossando a voz de uma oposição até então desarticulada. Sem alternativa, o presidente renunciou. As ruas calaram-se, pelo menos temporariamente, mas a instabilidade ainda permanece. Apoiado pela legislação do país, o ex-presidente cavou espaço para voltar ao poder: antecipou as eleições gerais para o início de janeiro de 2008, já anunciando que concorreria ao novo pleito.

Jogo de interesses

Mais do que conflitos localizados, os recentes acontecimentos em Tbilisi fazem parte de um delicado jogo de interesses que envolve as maiores potências do mundo. A Geórgia, que no passado foi uma das mais prósperas repúblicas da antiga URSS, luta hoje para se aproximar cada vez mais do Ocidente. Pleiteia uma vaga na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), sua grande prioridade, e quer entrar também na Comunidade Européia, bandeiras que em 2003 ajudaram a colocar Saakashvili no poder (leia quadro na próxima página). À época, com o apoio de 96% da população, ele representava a saída democrática para a ruptura definitiva com os antigos padrões soviéticos. As mudanças começaram rapidamente. Um a um, os símbolos mais visíveis de corrupção e burocracia foram reestruturados e setores inteiros, desmontados. Primeiro, a reforma atingiu o Exército e a polícia. Depois, vieram as universidades. O antigo modelo de ensino, no qual estudantes chegavam a pagar propinas de 500 a 15 mil dólares para entrar numa faculdade, foi reformulado. O vestibular reduziu consideravelmente a corrupção.

Com o apoio de Washington, o novo governo também colocou a saúde no caminho da privatização. Em quatro anos, dos 108 hospitais administrados pelo poder público, 70 foram para as mãos da iniciativa privada. Na área econômica, a Geórgia deu um salto gigantesco. O Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu 9% em 2005 e 8% no ano seguinte. Mas o modelo neoliberal também trouxe seus tormentos. Entre 2004 e 2006, o índice de população pobre passou de 35% para 40%. Com um salário miserável, um milhão de georgianos (o país tem 5 milhões de habitantes) atravessaram a fronteira com a Rússia e instalaram-se no país vizinho, alguns temporariamente, de onde passaram a mandar dinheiro para as famílias que ficaram na terra natal. “Na prática, para a população, o crescimento econômico parece fictício. Temos de importar itens básicos de consumo e quase metade da população vive na pobreza”, diz o fotógrafo Davit Rostomashvili, colaborador do site NowPublic.

As mudanças implementadas por Saakashvili também vieram acompanhadas por uma forte concentração de poder nas mãos de poucas pessoas. Apesar da virada pró-Ocidente e do discurso democrático, o nacionalismo e o autoritarismo do governo mantiveram os padrões de outros tempos. Liberdades individuais foram tolhidas, denúncias de tortura de presos políticos tornaram-se freqüentes e, no plano político, a oposição foi esmagada durante anos – até se fortalecer com os recentes protestos em Tbilisi. “No começo, a população se uniu em torno de Saakashvili. Além de representar a via democrática e pró- Ocidente, ele foi visto como unificador. Mas seus primeiros atos logo mostraram um grande autoritarismo”, diz o analista internacional Felipe Ortega, da PUC-SP, referindo-se às mudanças constitucionais que enfraqueceram o Parlamento e concentraram o poder no Executivo.

Diplomacia distante

Para agravar o problema, as relações entre a Geórgia e a Rússia nunca foram um exemplo de diplomacia. Nos dois últimos anos, a troca de acusações estendeu-se para diferentes áreas, chegando até os embates recentes nas ruas de Tbilisi. De um lado, os georgianos acusam o governo de Vladimir Putin de incitar a oposição na capital e de ajudar as duas províncias separatistas da Ossétia do Sul e da Abecácia, que desde o fim da URSS tentam a reintegração ao território russo. Outras retaliações do Kremlin incluem a suspensão da importação de alguns dos principais produtos georgianos (como vinho, água mineral e laranja) e a deportação de 143 imigrantes considerados ilegais, no início de novembro.

Do outro lado, a Rússia também tem seus motivos para reclamar. O governo Putin acusa a Geórgia de abastecer os separatistas chechenos com armamentos e munição, além de praticar uma política externa explicitamente anti-Rússia. O governo de Saakashvili já demonstrou, por exemplo, sua intenção de colaborar com o projeto americano de instalação de escudos antimísseis na Europa.

No meio do tiroteio de palavras (e de olho na Otan), a Geórgia praticamente dobrou seu orçamento militar. Em 2006, foram cerca de 574 milhões de reais destinados para o Exército, contra mais de 1 bilhão de reais em 2007 – o equivalente a quase um terço do orçamento geral do país. O valor foi aplicado na construção de uma nova base perto da Abecácia e de outra a meia hora da capital da Ossétia do Sul. Também foram comprados tanques e canhões ucranianos, além de armamentos de vários países do Leste Europeu que entraram recentemente na Otan.

Na dúvida se ingressará de fato na organização militar, a Geórgia conseguiu, pelo menos, preparar terreno para uma eventual disputa nas duas províncias separatistas. Com o apoio americano, eles têm boas chances de conseguir seu objetivo. Mas a Rússia está logo ali, do outro lado da fronteira. E o que vai acontecer num futuro não muito distante depende, sobretudo, de quem estará à frente do país após as eleições de janeiro.

Revolução cor-de-rosa

Mikhail Saakashvili chegou ao poder após uma revolução pacífica, batizada de Revolução Rosa, que começou com o mesmo tipo de protesto que hoje domina as ruas de Tbilisi. Em 2003, mais de 100 mil pessoas tomaram as ruas da capital georgiana para pedir a renúncia do então presidente Eduard Shevardnadze. Naquela época havia pluralismo e liberdade política, mas o Estado era fraco, infestado de grupos criminosos e corruptos. Era preciso mudar e modernizar-se, e a transformação seria possível somente com a ocidentalização do país. Crescer significava deixar para trás o passado soviético e todas as suas heranças. Nesse movimento, Saakashvili surgiu como o nome capaz de colocar a Geórgia nos trilhos do neoliberalismo. Nos primeiros anos, ele obteve um sucesso impressionante. Mas com o poder nas mãos, sucumbiu diante dos mesmos problemas que o colocaram na presidência. Hoje com apenas 15% de apoio popular, ele vê surgir um líder na oposição com propostas parecidas com as que defendeu em 2003. A diferença é que Levan Gachechiladze promete acabar, também, com o cargo de presidente – mudando o regime do país para o parlamentarismo.

 

Para saber mais

SITES

www.geotimes.ge

Site do jornal semanal Georgian Times (em inglês), traz toda a cobertura dos conflitos em Tbilisi.

www.robertamsterdam.com

Página especializada na cobertura de assuntos internacionais, com ênfase em análises sobre a Rússia e países europeus.