Grécia: 500 anos de trevas

Arqueólogos acreditam que a história da Grécia Antiga ganhou centenas de anos que simplesmente nunca existiram. Para provar isso, buscam respostas no Egito

segunda 23 outubro, 2017
Aventuras na História
Aventuras na História Foto:Arquivo Aventuras

A história tradicional conta que, entre 1200 a.C. e 700 a.C., a Grécia passou por uma Idade das Trevas. Logo após a famosa Guerra de Tróia, aquela exuberante civilização regrediu à barbárie. O povo abandonou as cidades e partiu para o campo. A arte da escrita se perdeu. Nenhum registro foi preservado. Durante um bom tempo, isso foi consenso entre os estudiosos.

Mas, nas últimas décadas, alguns arqueólogos tentam provar que tal época teria durado bem menos que 500 anos – ou talvez nem tenha existido. São os chamados revisionistas, que defendem a tese de que tudo foi causado por uma confusão feita no século 19. Até aquela época, ninguém tinha falado em Idade das Trevas. O termo foi adicionado à história grega por egiptólogos ingleses.

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Assim que Champollion começou a decifrar a escrita egípcia, na década de 1820, foi dada a largada para uma corrida maluca: todo arqueólogo queria ser o descobridor de um novo faraó. Como guia para a tarefa, escolheram a lista do escriba Maneton, uma relação de 30 dinastias de reis egípcios escrita no século 3 a.C. por encomenda do faraó Ptolomeu II (de origem grega), com o objetivo de estabelecer uma correlação entre as culturas egípcia e grega. A lista tinha uma linha temporal aparentemente completa do Egito. Já para os gregos, o período conhecido pelos estudiosos era bem menor. Esta seria a chave do problema: como a cronologia egípcia foi oficializada para reger a história antiga, o tempo dos gregos teve que ser “esticado” para ficar do mesmo tamanho. Como resultado, inventaram a Idade das Trevas.

Há evidências que parecem sustentar a teoria dos revisionistas. Ao fim da tal Idade das Trevas, Homero escreveu os versos da Ilíada e da Odisséia, poemas que narram os eventos da Guerra de Tróia. Mas como ele teria conseguido descrever com detalhes os costumes e armas daquela época 500 anos depois do combate? Se durante esse intervalo não havia escrita, textos de outros autores também não poderiam ter servido como referência. E por que Homero não compôs nenhum verso sobre os 500 anos posteriores à Guerra de Tróia?

Para piorar, a lista de Maneton parece ter alguns furos. A relação pode ter sido aumentada de propósito, para valorizar a tradição egípcia e menosprezar a grega. O recurso usado teria sido a duplicação: faraós apareceriam na cronologia mais de uma vez, mas com nomes diferentes.

 

Para saber mais

• A Revolução da Escrita na Grécia e suas Conseqüências Culturais, Eric A. Havelock, Unesp/Paz e Terra, 1996 – O historiador inglês investiga a autoria da obra de Homero e o renascimento da escrita na Grécia • www.thebritishmuseum.ac.uk/world/egypt/egypt.html - O Império Egípcio segundo o Museu Britânico, que tem a maior coleção sobre o tema fora do Cairo

 

Texto Ricardo Giassetti | 01/06/2007 00h00


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