Guerra Fria: as mortes que ninguém contou

Conflito deixou dezenas, talvez centenas de vítimas fatais, por uma necessidade vital: a busca de informação sobre o inimigo

Ricardo Bonalume Neto Publicado em 01/07/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

A Guerra Fria entre o mundo capitalista, liderado pelos Estados Unidos, e as ditaduras comunistas encabrestadas pela finada União Soviética, nem sempre foi tão gelada. Houve momentos em que ela poderia ter esquentado ao nível de uma Terceira Guerra Mundial. E houve, claro, as chamadas “guerras por procuração”, em que tropas dos EUA e da URSS não lutavam entre si, mas apoiavam lados rivais ou combatiam diretamente terceiros – como no Vietnã e no Afeganistão.

Essa é a versão tradicional. Ninguém menos que o belicoso pai da bomba de hidrogênio, o físico americano Edward Teller, declarou em 1999 que a Guerra Fria “teve a distinção de não ter custado vidas”. Dá para entender o que ele quis dizer. Graças às armas nucleares que criaram um “equilíbrio de terror” entre os dois lados, prevaleceu sempre o bom senso. Afinal, uma guerra nuclear era resumida na famosa sigla em inglês MAD: destruição mútua assegurada. A palavra mad significa “louco”.

Por mais desagradáveis que sejam essas armas, deve-se admitir que elas impediram que houvesse uma guerra convencional. Ou alguém duvida que, se existisse a chance, algum dos lados não tentaria explorar uma fraqueza do outro – os soviéticos tomando Berlim, ou os americanos acabando com o regime cubano, por exemplo? Esse tipo de aventura poderia facilmente ter “escalado” para um conflito convencional maior, não fosse o risco de alguém optar pelo gatilho nuclear.

Mas Teller está errado quanto à inexistência de mortos. Não foram contados aos milhões, como na Segunda Guerra, nem mesmo aos milhares, como nos múltiplos conflitos da segunda metade do século 20. Ninguém ainda fez uma conta precisa. Os mortos foram às dezenas, quem sabe centenas. Mas existiram, em função principalmente de uma necessidade vital da Guerra Fria: a busca de informação sobre o inimigo.

Um estudo pioneiro sobre essas vítimas obscuras está em um livro sobre os vôos de espionagem americanos sobre território da URSS, da China e da Coréia do Norte. O historiador William E. Burrows elenca no livro By Any Means Necessary (“Por Qualquer Meio Necessário”, ainda sem tradução no Brasil) uma lista de pelo menos 16 aviões americanos derrubados por esses países comunistas durante a Guerra Fria. Nada menos que 162 aviadores americanos morreram nesses aviões de reconhecimento, no período de 1950 a 1969.

O caso mais famoso foi o do piloto Francis Gary Powers, feito prisioneiro ao sobrevoar a URSS em seu avião-espião U-2, em maio de 1960. Foi um grande embaraço para os Estados Unidos, num raro caso em que o piloto sobreviveu e pôde servir de propaganda política. Já os aviões abatidos cuja tripulação toda morria eram praticamente ignorados.

No último caso, a perda foi particularmente dramática: 31 homens morreram em um avião de reconhecimento eletrônico EC-121M Warning Star, em 15 de abril de 1969. A aeronave da Marinha dos EUA era uma versão militar do gracioso avião civil de passageiros Constellation, movido a hélice. Foi uma vítima fácil dos caças MiG norte-coreanos enquanto voava sobre águas internacionais ao longo da península da Coréia. A sensibilidade dos comunistas fazia algum sentido, pois naquela época o principal meio de entrega em domicílio da bomba atômica era o bombardeiro. Intrusos alados sempre causavam preocupação. E os aviadores americanos eram particularmente insistentes em sua busca de informações.

Conhecer o inimigo é fundamental em qualquer conflito. Sem saber as intenções do adversário e conhecer sua força real, a chance de derrota é grande. Conhecer o poderio do rival também era útil para projetar as próprias forças. A Força Aérea dos EUA, na década de 1950, reclamava que haveria um bomber gap, uma suposta superioridade soviética em bombardeiros. Os vôos dos U-2 sobre as bases da URSS ajudaram a provar que isso era bobagem – para o azar da Força Aérea americana, que usava isso como pretexto para pedir mais e melhores aviões.

Esse aspecto “quente” da Guerra Fria só perdeu temperatura com o desenvolvimento de satélites-espiões. O crescimento do poder da URSS também deixou os comunistas menos preocupados com um ataque aéreo de surpresa, embora ainda ficassem irritados com os vôos de reconhecimento ao redor do país. Basta lembrar um dos episódios mais trágicos do confronto entre Leste e Oeste: os soviéticos abateram um Boeing 747 de passageiros da Korean Air Lines em 1º de setembro de 1983, matando 269 pessoas, por achar que se tratava de um avião-espião. O Boeing tinha violado o espaço aéreo soviético acidentalmente.

Ricardo Bonalume Neto, 46 anos, é repórter da Folha de S. Paulo especializado em ciência e assuntos militares. Cobriu conflitos em vários continentes e é autor de A Nossa Segunda Guerra – Os Brasileiros em Combate, 1942-1945.