Por que as guerras não acabam? Anos sombrios

Dois conflitos mundiais e milhões de mortos. O século 20 terminou. Por que as guerras não?

Francisco C. Teixeira da Silva* Publicado em 01/01/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

O século 20 conheceu três grandes conflitos – entre centenas de outros menores e também letais: a I Guerra Mundial, de 1914 a 1918, a II Guerra Mundial, de 1939 a 1945, e a Guerra Fria, de 1947 a 1991. Deixaram marcas de dor, sofrimento e destruição, muitas vezes com o risco de holocausto nuclear. No período pós-Guerra Fria, a nova ordem mundial iniciou-se com novas guerras, campos de extermínio e genocídios, como os que surgiram na Bósnia, em Kossovo, Ruanda e no Iraque.

Muitos historiadores passaram a identificar o conjunto dos conflitos do século 20 como uma só guerra, a Longa Guerra do Estado-Nação. Uma interminável guerra provocada pela irrupção do estado-nação competitivo no cenário das relações internacionais, pontuada de pausas eventuais – uma paz armada e precária – e retomadas cíclicas das hostilidades, como o Japão contra a China, desde 1931, ou a Itália contra a Etiópia, em 1936, além da destruição de países, como a Áustria e a então Tchecoslováquia, diante da Alemanha de Hitler, em 1938. Mas a paz sempre foi buscada com a criação de instrumentos internacionais, como a Liga das Nações, em 1919, e a ONU, depois de 1945. Eram retomados, no que ficaram conhecidos como princípios wilsonianos – derivados da proposta de paz do presidente Woodrow Wilson, dos Estados Unidos –, o otimismo humanista de Kant e sua esperança em uma Paz Perpétua. Seguiram-se então conferências mundiais de paz, em Haia, e tratados de banimento eterno da guerra, como no Pacto Briand/Kellog, de 1928.

Menos de 10 anos depois, em 1938, com a invasão da Áustria e da Tchecoslováquia por Hitler, o mundo estaria novamente imerso em uma das etapas bélicas da Longa Guerra do Século 20. As guerras desse período inovaram em relação a suas congêneres anteriores: o alto poder destrutivo por causa da junção de novas estratégias e meios técnicos avançados derivados da generalização da Revolução Industrial; a vasta variedade de tipos de conflito, muitas vezes no interior de uma mesma guerra, de práticas de guerrilhas à arma atômica; a ligação entre guerra e revolução, com muitas delas abarcando, coincidindo ou resultando em uma revolução nacional ou social; o caráter contínuo e complementar de tais conflitos, criando uma linha permanente entre os primeiros conflitos do século 20 até a conclusão da Guerra Fria; a ampla participação da opinião pública nos conflitos, transformados em guerras de massa, com destruição e aniquilação de inúmeras regiões do globo.

Além disso, as guerras do século 20 foram acompanhadas de cruéis práticas de genocídio. Mesmo antes da I Guerra Mundial, em 1904, as tropas coloniais alemãs massacravam os hereros, na atual Namíbia. Já durante o conflito, em 1915, as tropas turcas arrasaram impiedosamente as populações armênias do antigo Império Otomano. Na II Guerra Mundial, judeus, ciganos, testemunhas de Jeová, gays, doentes mentais foram alvo do mais sistemático genocídio da história: o Holocausto.

Mas o horror do Holocausto não foi suficiente para impedir sua repetição: logo após a Guerra do Vietnã, nos anos 1970, o regime de Pol Pot, no Camboja, foi responsável pela matança de quase 2 milhões de pessoas. O genocídio voltou a assombrar a história em 1991, quando os povos da antiga Iugoslávia – sérvios, croatas e muçulmanos bósnios – se trucidaram.

Por um lapso de tempo, entre 1991 e 2001, os ponteiros do relógio do fim dos tempos se afastaram da Meia-Noite atômica, deixando vislumbrar um mundo novo, uma nova ordem mundial, baseada na supremacia branca, anglo-saxã e capitalista expressa no unilateralismo de Bush e dos chamados neoconservadores. Antes mesmo de raiar o novo século, contudo, um novo conflito mundial fazia sua aparição. Já em 1993, no estrondo da primeira bomba contra o World Trade Center, em Nova York, e até os terríveis atentados de 11 de setembro de 2001, surgia a face do novo conflito. Estavam dadas as condições de uma nova guerra mundial, a Guerra Internacional contra o Terrorismo, largamente ancorada em um esquema muitas vezes beirando o racismo cultural. Não há perspectivas de paz nem a curto nem a longo prazo.

* Professor titular de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro e pesquisador do Centro de estudos estratégicos da escola de comando e estado-maior do exército