Hildemar Diniz: O velho da guarda

Aos 73 anos, o compositor Monarco, um dos maiores personagens do samba e membro da Velha Guarda da Portela, conta como o ritmo sobreviveu ao tempo.

Mariana Sgarioni Publicado em 01/02/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Hildemar Diniz é um homem alinhado. Veste camisa social impecável, calça de tergal bem passada, cinto combinando com o sapato branco. Toda quinta-feira ele sai do Riachuelo, bairro na zona norte do Rio de Janeiro, onde mora com a mulher Olinda, para almoçar um belo cozido na Cinelândia, no centro, acompanhado de pelo menos um de seus filhos. São dois: Mauro e Marcos. Como o pai, compositor, a dupla tem canções nas vozes de Zeca Pagodinho e Marisa Monte. “Eles já nasceram numa roda de samba”, diz o músico, alisando os cabelos finamente penteados.

Hildemar é o sambista Monarco da Portela, apelido que ganhou na infância em Nova Iguaçu. Aos 73 anos, ele é um dos compositores mais respeitados do chamado samba de morro, batida tocada pelas escolas que desfilam no Sambódromo. De sua caneta já saíram sucessos cantados por Martinho da Vila (“Tudo Menos Amor”), Clara Nunes (“Rancho da Primavera”), Paulinho da Viola (“Passado de Glória”) e muitos outros.

Compositor desde os anos 40, Monarco é uma enciclopédia. Coleciona histórias: limpou a mesa de bilhar de Villa-Lobos, guardou carros no Jornal do Brasil, dividiu (vários) conhaques com Cartola, compôs com Candeia, ouviu lamentos de Carlos Cachaça, grande companheiro de Noel Rosa. Atualmente, ele se dedica às caminhadas matinais – “momentos de maior inspiração” –, à sua mulher – “minha pretinha de fé” –, a compor vez por outra e a exercitar a memória, lembrando-se de sambas que são verdadeiras relíquias, não escritos em lugar algum. Sua memória rendeu a Marisa Monte o sucesso “Meu Canário”, de Jaime Silva, gravado no CD Universo ao Meu Redor. “Fui na casa dela, lembrei que o Jaime tinha feito essa música e cantei.” Monarco gosta mesmo é de cantar. Assim, a entrevista que você vai ler a seguir foi toda musicada – para cada história, uma canção.

História - A malandragem ainda faz parte do samba?

Monarco - Ah, não. Olha, para mulher não tem mais malandro, não. Tem que tratar a mulher bem. Eu já perdi uma grande mulher em minha vida por causa disso, por não conservar. Hoje tenho minha mulher e conservo com o maior carinho – a Olinda, minha pretinha de fé. Eu falo pretinha, mas ela é mulatinha. O malandro, minha filha, se aposentou, perdeu a viagem.

Vinícius de Moraes chegou a brincar uma vez, dizendo: “O que seria dos compositores sem a dor-de-cotovelo, as desilusões amorosas?” É assim mesmo?

Às vezes vejo alguém sofrendo e transporto para mim. E faço como se estivesse acontecendo comigo. Se eu for esperar brigar com a minha mulher para fazer música, estou ferrado... Eu tenho um amigo que foi largado pela mulher. Ele vivia triste, chateado. Eu o levava pro pagode, pra festa, mas não adiantava. Chegava lá, ele ficava jururu. Aí eu fiz algo assim (canta): “Já não vou mais às festas para me divertir, já não sei mais cantar nem sorrir. Os amigos do peito estão preocupados com meu padecer. Quem ontem esbanjava alegria hoje não sente prazer. Ela foi embora sem olhar para trás, é sinal que não volta mais”. O Zeca (Pagodinho) botou mais um pedacinho nessa música. O Ratinho (Alcino Ferreira, compositor) apareceu e botou outro.

Vocês compõem todos juntos, cada um faz um pedaço?

Às vezes acontece. A gente faz um trecho e depois aquele trecho vira uma música. Daí sentamos numa mesa de bar, um chega, faz outro trecho. Outro chega e completa.

Como vem a inspiração?

Do nada. Sem marcar hora. Não sei sentar para fazer uma música. Às vezes passo até um ano sem fazer nada. E, no estalo de um segundo, faço um samba. Tem que fazer direito e deixar fluir espontaneamente. Pode ser no ônibus, caminhando, não importa. Olha, eu não sabia de uma coisa: caminhar de manhã cedo me dá inspiração. Já fiz muita música andando. Sabe, eu faço caminhada porque o médico mandou.

E a cervejinha, o médico deixa?

Ah, mas não bebo mais. Há 30 anos. Já bebi minha cota. Bebi bem. Parei porque fiquei doente, estive internado, com tuberculose. Quando saí do hospital, conversei com o médico sobre minha cervejinha. Ele disse: “Bebe, mas bebe pouco”. Daí eu falei: “Não sei beber pouco”. Então, resolvi parar. Agora meu fígado está tão feliz... (risos).

Tem samba sem cervejinha?

Cartola bebia muito, mas acho que Noel bebia mais. Da turma toda, o Carlos Cachaça era o rei, por isso ganhou esse nome. O Noel ia sempre pro Buraco Quente (uma comunidade do Rio) procurar o Cartola. Chegava lá e enfiava o pé na jaca. Já o Cartola tomava conhaque. Várias vezes bebi com ele nas madrugadas. Ele dizia: “Vamos tomar um conhaque antes de ir pra casa”.

Como você conheceu o Cartola?

Ele era meu ídolo. Um dia, ele foi na Portela com Carlos Cachaça e eu fiquei de longe admirando. Tempos depois, nos encontramos no Zicartola, bar que ele abriu com a Zica, na rua da Carioca. Ele comandava a roda de samba. Um belo dia, fui lá e quiseram me barrar na porta. Alguém me viu e foi falar com Cartola. Ele veio e perguntou: “Quem é o Monarco?” Eu disse: “Sou eu”. Então ele me mandou entrar. Fiquei no camarim vendo ele ensaiar. Daí pra frente, ficamos amigos. Eu ia de vez em quando procurar ele e o Carlos Cachaça na Mangueira. Fiquei mais próximo do Carlos, pois o Cartola se mudou pra Jacarepaguá. Na Mangueira, ficávamos papeando, eu ouvia as histórias e aprendia as lições do menestrel.

Você se lembra de algum episódio?

São tantos! O Cachaça contava coisas engraçadas... Que o Cartola gostava de mulher gorda (risos). Outra vez, Cartola disse a ele: “Você tem que me batizar”. O Carlos: “Ué, tu já é batizado, rapá”. Ele: “Dá um jeito, então me crisma”. Então, o padre crismou o Cartola. Ele estava “pesado”, sabe, sendo injustiçado pela cultura do país. Chegou a lavar carro em Ipanema, imagine. Só foi descoberto pelo (jornalista) Sergio Porto, o Stanislaw Ponte Preta. Um homem cheio de sucesso, parceiro de Noel Rosa, lavando carro para sobreviver, vê se pode.

Isso já aconteceu com você?

Já. Eu guardei carro no estacionamento do Jornal do Brasil, nos anos 70. Antes, eu trabalhava no mercado de peixe, quando a maré estava brava. Aí um amigo arrumou para trabalhar no Jornal do Brasil. Ali era uma beleza. Estacionava o carro de todo mundo, dos jornalistas mais famosos. Foi nessa época que Martinho gravou uma música minha e comecei a fazer sucesso. Ele foi uma vez num ensaio da Portela, escutou um samba meu e gravou. Isso passou a ser meu cartão de visitas, outros artistas começaram a me pedir música, como Clara Nunes, João Nogueira. Então saí do jornal para fazer samba – acho que faço samba com mais perfeição, né? (risos)

Antes disso você também tinha trabalhado na ABI (Associação Brasileira de Imprensa). Foi aí que você conheceu Villa-Lobos?

Ah, eu era menor de idade nessa época. Heitor Villa-Lobos jogava bilhar francês lá. E eu escovava as mesas. Quando eram 5 horas, 5 e meia, lá vinha ele. Eu escovava bem a mesa, passava flanela em volta e deixava prontinha. Ele chegava fumando aquele charuto que várias vezes eu fui comprar pra ele. Uma vez, eu cantei um samba do Manacéia (sambista da Portela) e o Nássara (cartunista e compositor) chamou ele para ouvir. O Nássara não jogava, ficava na galera assistindo. Eu cantei: “Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil...” O Nássara disse: “Olha, esse samba é da Portela”. Villa-Lobos passou o giz no taco, ouviu e não disse nada, continuou a jogar.

Você sempre foi da Portela?

Desde menino. Nasci em Cavalcanti e me mudei para Nova Iguaçu. Lá eu já ouvia sambas da Aracy de Almeida, daquelas cantoras antigas. Ouvia Noel. Então, minha mãe se separou do meu pai e foi morar em Oswaldo Cruz – olha como o destino foi bom! Quando eu vi a placa com o nome, pensei: “É o lugar do samba do Noel Rosa!” (o bairro é citado na canção “Palpite Infeliz”, de 1935). Dali, já pulei para a Portela. Escutei falar o nome do Paulo da Portela (sambista que ajudou a fundar a escola) no rádio e fui descobrir onde ele morava. Como não tinha dinheiro para comprar fantasia, no começo, desfilava segurando a corda lateral. Fazia calo na mão, mas não largava. Depois, fui trabalhar, juntei dinheiro e saí numa ala, de terno e tudo. Isso foi em 1951. Em 1952, fiz meu primeiro samba e passei para a ala dos compositores. Tornei-me companheiro daqueles bambas que eu idolatrava. Eu e o Candeia. Acho que o homem lá de cima disse: “Não vou te dar dinheiro, mas vou te dar inspiração” (risos).

É verdade que há rivalidade entre Mangueira e Portela?

A Mangueira teve uma encrenca com a Portela, na década de 30. Logo depois, tudo foi contornado, principalmente por meio da amizade de Paulo da Portela com Cartola. Hoje as escolas são companheiras. Dizem que quando a Portela encostava na praça Onze, o Cartola falava: “Deixa eu ver o que o Paulo trouxe”. Ele vinha ver como estava, preocupava-se com a escola. E vice-versa. Eles faziam samba juntos. A amizade dos dois significava a amizade entre Mangueira e Portela. Tenho vários sambas que enaltecem a amizade das duas escolas (canta): “Por isso que Portela e Mangueira são as grandes pioneiras das escolas do Carnaval...” Este chama-se “Velhas Companheiras” e fala dessa amizade.

Você costuma dizer que seu samba é chamado de samba de terreiro, diferente do samba de asfalto. Como eles se diferem?

O de terreiro é aquele de escola de samba. É o que eu aprendi, o que faço até hoje. Nosso samba não tem agrotóxico, não... (risos). A turma do Estácio começou, a Portela e a Mangueira foram lá e continuaram. E inspiraram vários compositores do asfalto também, como Ary Barroso, Erivelton Martins, Ataulfo Alves, Noel.

O Candeia falava que o negro era marginalizado, não importava o que fizesse. Você concorda?

Ele cantava: “O crioulo do morro está no miserê. Vai procurar trabalho, não encontra, vai jogar baralho”. Mas é verdade. O Candeia morreu batendo nessa tecla. O samba do morro continua marginalizado. Não é mais como antigamente, claro, mas sempre derrubam a gente. Dizem que nosso samba não é comercial, não vende, só se faz em barracão. Eles dão uma colherzinha de chá no Carnaval. Mas passa o Carnaval, esquecem a rapaziada do morro. A gente nem liga pra isso. Eu tenho samba que todo mundo canta e que nunca tocou no rádio.

Como foi gravar com a Marisa Monte?

Participei da gravação com a Velha Guarda. Conheço Marisa desde pequenininha, o pai dela é meu amigo. Cheguei um dia na casa dela, comecei a contar histórias e saiu o assunto do Jayme Silva. Grande compositor, ele fez “O Pato”, que o João Gilberto gravou. A canção dá dinheiro a Maria, mulher do Jayme, até hoje. Na época da bossa nova, quando Jayme fez essa música, a Maria me disse: “Acho que o Jayme tá ficando maluco. Ele anda fazendo um negócio gozado, um negócio de pato, que canta alegremente...” Eu ri e disse: “Deixa ele”. Mas voltando à Marisa: cantei pra ela a música do canário, do Jayme. E ela adorou, quis gravar.

Como ficaram as escolas de samba depois que o jogo do bicho passou a ter uma participação mais retraída?

O pessoal da contravenção gosta do samba, foi criado perto. Veio para ajudar, organizar. A liga hoje é organizada. A Portela tem 5 mil pessoas e tinha 200. As escolas cresceram. Eles são muito bem-vindos ao nosso reduto. Não saíram, estão todos ali.

 

Saiba mais

Livro

Monarco: Voz e Memória do Samba, Henrique Cazes, Relume Dumará, 2003

O cavaquinista Henrique Cazes faz uma caprichada biografia do sambista desde os tempos em que trabalhou como guardador de carros e auxiliar de limpeza.