Homem Americano

Museu foi criado emuma área com mais de 700sítios arqueológicos

Elisa Almeida França Publicado em 01/02/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

O Brasil possui a maior concentração de sítios pré-históricos das Américas. No Piauí, só na região do Parque Nacional da Serra da Capivara, já foram descobertos mais de 700. Isso sem contar a enorme quantidade de pinturas rupestres – só no sítio da Toca do Boqueirão há cerca de 800. Não por acaso, nas proximidades foi fundado o Museu do Homem Americano, em São Raimundo Nonato.

A instituição, que faz parte de um complexo de pesquisas arqueológicas e de conservação do patrimônio cultural, foi criada em 1998 pela arqueóloga Niède Guidon e é mantida por uma fundação. As atrações não se limitam às paredes do museu – cujo acervo conta, ao todo, com mais de 800 mil peças. Nos arredores, os visitantes podem se aventurar por trilhas que os levam até a Pré-história de verdade – no meio do caminho há cavernas com pinturas rupestres, ferramentas de pedras, restos de cerâmicas e de fogueiras.

O mais instigante é a proposta de Niède Guidon sobre a ocupação das Américas. Com as descobertas que fez nos sítios do Piauí, ela concluiu que o homem teria chegado há 100 mil anos ao continente pelo sul, vindo da África pelo oceano Atlântico. A hipótese, controversa, bate de frente com a teoria corrente – segundo esta, a ocupação começou no norte, onde homens pré-históricos vindos da Ásia teriam chegado pelo estreito de Bering.

 

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1. Livro aberto

Após passar pelas explicações da origem do Homo sapiens na sala 1, o visitante depara, na sala 2, com painéis que mostram figuras rupestres encontradas na serra da Capivara. Predominantemente narrativas do cotidiano das populações pré-históricas, elas remetem a atividades de caça, rituais e festas. No sítio Toca da Bastiana, os arqueólogos encontraram uma figura humana de braços abertos (ao lado), cuja idade foi estimada em 30 mil anos. Se a datação for confirmada pelas pesquisas que estão sendo realizadas, a pintura será a mais antiga das Américas.

2. Bicho dentuço

Com a mudança do clima tropical úmido para o semi-árido, por volta de 10 mil anos atrás, as condições tornaram-se desfavoráveis para os grandes animais, devido aos longos períodos sem chuvas e a vegetação seca. Assim se extinguiram os herbívoros e, por tabela, os carnívoros – como o tigre-de-dente-de-sabre, bicho de enormes caninos sobressalentes.

3. Bicho-preguiça

Além de parentes antigos de lhamas, tatus gigantes e cavalos selvagens, a região Nordeste era habitada por herbívoros como as preguiças-gigantes, integrantes da megafauna pré-histórica. Embora pesassem de 500 quilos a 5 toneladas (dependendo da espécie) e possuíssem garras poderosas, esses bichos se alimentavam apenas de folhas de árvores.

4. Cachimbo da paz

Alguns índios usam cachimbos cotidianamente, mas não se sabe se as populações pré-históricas faziam o mesmo. Como este da foto foi encontrado na superfície, próximo a uma barragem (em uma área que sofreu ação do homem), é muito difícil saber de que época era. Seu material (cerâmica) é bastante comum. Mas seu formato, não.

5. Flauta solitária

Este é o único instrumento musical já encontrado em toda a região da serra da Capivara. A idade aproximada da flauta, de madeira, é de quase 1 500 anos. A datação foi estimada a partir da análise de restos orgânicos encontrados junto a ela, na Toca da Extrema II.

6. Pedra lascada

A pedra era usada pelo homem pré-histórico para a fabricação de armas e outros instrumentos. No Boqueirão da Pedra Furada, foram encontrados seixos lascados (usados para cortar, raspar e martelar). Segundo os pesquisadores do museu, essas pedras teriam pelo menos 50 mil anos. Seriam, assim, as mais antigas das Américas.

7. Pedra polida

A mais antiga machadinha de pedra polida americana foi encontrada no sítio do Meio, dentro do Parque Nacional Serra da Capivara. Ela tem 9 200 anos. A técnica do polimento da pedra permitiu a obtenção de uma forma mais adaptada à função do objeto – no caso, cortar e raspar.

8. Velha Zuzu

Zuzu é o segundo esqueleto mais antigo do Brasil, com uma idade estimada em 11 060 anos. Só fica atrás de Luzia, de 12 mil anos, encontrada em Minas Gerais. Uma réplica da ossada de Zuzu – que não se sabe se é homem ou mulher, já que tem características de ambos os sexos – está exposta da mesma maneira como foi encontrada.

9. Tecnologia de armas

Algumas ferramentas foram encontradas dentro da sepultura de Zuzu. Entre elas, estavam duas pontas de flecha do tipo rabo-de-peixe, até então desconhecidas no Nordeste do Brasil, feitas de quartzo e quartzito. Essas flechas teriam sido uma espécie de oferenda ao morto.

10. Urnas recentes

As urnas funerárias, feitas de cerâmica, são parte dos costumes de povos mais recentes. No museu, há várias delas, com menos de 500 anos. A cerâmica também era usada na fabricação de recipientes de água e grãos, ou de assadores de beiju, uma massa preparada à base de mandioca.