Os homens que copiavam com lentes e espelhos

Grandes artistas, como Van Eyck, Caravaggio, Velázquez, Vermeer e Ingres, teriam usado lentes e espelhos para decalcar o desenho sobre as telas e alcançar a perfeição naturalista de suas pinturas

Sérgio Miranda Publicado em 01/05/2006, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

Você já olhou para uma obra de arte e se perguntou como o artista conseguiu retratar o quadro com tamanha perfeição? Isso aconteceu com David Hockney, experiente artista britânico nascido em 1937, ao deparar com os desenhos do francês Jean-Auguste Dominique Ingres na National Gallery de Londres, em 1999. Com o olhar mais apurado que o nosso, Hockney notou que os desenhos das feições eram extremamente precisos em contraponto com as vestimentas dos retratados, como se tivessem sido desenhados de forma e em momentos diferentes. Além disso, impressionaram ao observador Hockney a velocidade dos traços e a escala aparentemente pequena dos desenhos. “Como ele fez isso?”, perguntou-se Hockney.

Pois bem. A resposta para essa pergunta começou a ser elaborada a partir de um simples palpite. Ingres teria usado, em 1829, um instrumento inventado e patenteado em 1806 pelo físico inglês William Hyde Wollaston. Chamado de câmara lúcida, consiste basicamente em um prisma fixado a uma haste que permite ao observador ver ao mesmo tempo o objeto real à sua frente e a imagem dele projetada sobre uma superfície. Hockney começou então a produzir uma série de desenhos utilizando esse dispositivo óptico.

As dificuldades que encontrou e as soluções que foi buscando resultaram em uma pesquisa visual extensa. Hockney publicou uma série de artigos na Europa e nos Estados Unidos e, com o auxílio de alguns textos, que chama de “provas documentais”, escreveu O Conhecimento Secreto – Redescobrindo as Técnicas Perdidas dos Grandes Mestres, lançado em 2001 em vários países, inclusive no Brasil. Nele, apresenta a tese de que muitos artistas, desde 1430 aproximadamente, usaram espelhos e lentes (ou uma combinação das duas coisas) para criar seus quadros com tamanha fidelidade.

500 anos na parede

Convencido de que o mestre naturalista Ingres havia usado algum artifício óptico em suas pinturas, Hockney começou a ensaiar seus desenhos com a câmara lúcida. Retratava amigos, desconhecidos nas ruas e até os guardas da National Gallery. “A câmara lúcida não é fácil de usar”, admitiu Hockney em seu livro, mas aos poucos foi atingindo um grau de concentração e técnica que deixaram seus desenhos, ao final de um ano de experimentações, bem semelhantes ao estilo de Ingres.

Pronto! Para Hockney, estava provado que Ingres usara um instrumento conhecido na época para facilitar seu trabalho. Animado com esse resultado, decidiu investigar as pinturas de outros artistas, ainda anteriores ao invento da câmara lúcida, sob o ponto de vista da óptica. Lembrou que alguns historiadores citavam o uso da câmara escura pelo holandês Vermeer. Por que o uso desse expediente óptico se restringia ao holandês se outros artistas atingiam resultados igualmente fiéis em seus quadros? Em fevereiro de 2000, Hockney e seus assistentes começaram a prender com percevejos fotocópias coloridas de pinturas nas paredes de seu estúdio na Califórnia. Para o artista, era uma maneira de enxergar o conjunto da história da arte ocidental. Quando terminaram, o mural tinha 21 metros de comprimento e percorria, cronologicamente, mais de 500 anos de história. A visão panorâmica permitiu enxergar com clareza que, em algum momento na história da arte, uma inovação técnica, e não um novo modo de pensar ou discutir a arte, produziu nítidas mudanças na forma como os artistas passaram a representar o mundo.

Para os historiadores da arte, a grande inovação ocorreu, sim, no início do século 15, com a invenção da perspectiva linear, que permitiu aos artistas colocar em escala as pessoas, objetos e outros elementos como pareciam ao olhar a partir de um único ponto. Para Hockney, no entanto, a perspectiva linear não explicava as sombras, dobras e brilhos encontrados nas pinturas a partir de 1430. Além disso, várias obras não atendem a apenas uma perspectiva. A grande inovação técnica no início do século 15, para Hockney, foi a descoberta pelos artistas de como utilizar lentes e espelhos adaptados a uma câmara escura e, assim, criar imagens fiéis da realidade.

O segredo dos espelhos

O artista pretende representar o mundo real ou imaginário que o envolve. Isso, claro, foi entendido de diversas formas ao longo da história da arte. Mas o artista medieval ou renascentista não procurava representar o mundo de um modo diferente do que ele enxergava. Os artistas produziam as únicas imagens existentes. Seus desenhos representavam a realidade. Suas pinturas eram a realidade.

Por isso, sustenta Hockney, qualquer instrumento ou artifício que surgisse e permitisse ao artista retratar o mundo da maneira mais fiel possível não seria desprezado. E se um artista passasse a retratar com perfeição a esposa de algum nobre ou os filhos de um proeminente casal, passaria a atrair toda a atenção para si, recebendo todas as encomendas para seu ateliê. Daí, segundo Hockney, todo o segredo em torno do assunto e a conseqüente falta de registros escritos das técnicas ópticas usadas.

A câmara escura já havia sido fartamente documentada na época. Além disso, o desenvolvimento de lentes e espelhos alçou a pesquisa dos fenômenos ópticos a patamares bem interessantes aos artistas. Mas os pintores conheciam esses instrumentos e técnicas no início do século 15? Hockney afirma que sim. O conhecimento, na época, estava concentrado nas mãos do mesmo grupo a que pertenciam artistas, cientistas, religiosos e a realeza. Muitos quadros, aliás, retratavam espelhos côncavos, que possuem as mesmas propriedades ópticas de uma lente e podem projetar imagens. Assim como fez com Ingres, Hockney montou seu próprio aparato óptico utilizando os materiais mais rudimentares possíveis e experimentou uma série de desenhos. Sim, era possível.

O grande mural em seu ateliê mostrava que Hockney acompanhava a pintura do início do século 15. Uma série de retratos mostrava-se estranhamente semelhante entre si. Pintados por diversos artistas, de vários países, ao longo de mais de cem anos, as obras tinham algo em comum. Todos os retratados pareciam como se vistos através de uma janela, exatamente como em seu experimento. Muitos deles apoiados em um parapeito. Para Hockney, é indício suficiente de que a técnica do buraco na parede havia sido utilizada por alguns artistas e influenciado outros tantos.

Nesse conjunto encontra-se a Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, talvez a mais famosa das obras de arte. Da Vinci (1452-1519) deixou em seus cadernos inúmeras anotações sobre projeções ópticas e experimentos realizados em uma câmara escura, além de ter inventado uma máquina para esmerilhar e polir espelhos côncavos. Prato cheio para as teorias de Hockney. O grande mestre Da Vinci conhecia as propriedades da óptica!

Janelas de luz

As experiências com lentes e espelhos prosseguiram. Hockney estava intrigado, pois as imagens refletidas sobre a tela com a projeção de uma lente-espelho não eram muito maiores do que 30 centímetros, muito longe dos grandes painéis e cenas retratadas pelos artistas. Observando as roupas, tapetes, candelabros e outros detalhes das obras de arte, Hockney chegou a mais uma importante conclusão: as imagens haviam sido compostas por partes. Isso explicaria as diferentes perspectivas em um mesmo quadro e a riqueza dos detalhes da pintura, incluindo aí as dobras das vestimentas, os brilhos e as sombras.

Para Hockney, os artistas moviam as lentes e espelhos para conseguir o foco sobre a área desejada e, nesse movimento, deslocavam a perspectiva. Da mesma maneira, poderiam construir a cena que queriam retratar a partir de janelas de imagens parciais. Uma colagem de vários elementos formando uma imagem maior. A habilidade do artista é responsável por nos convencer de que tudo está colocado em um mesmo espaço de forma coerente.

Uma das provas visuais de Hockney é uma obra de Van Eyck, O Casamento dos Arnolfini (1434) – que, aliás, registra um espelho cônvexo ao fundo. Nela chama a atenção para o candelabro, figura que aparece, segundo Hockney, pintada como se vista de frente e não de baixo, como seria o caso de uma pintura natural, a olho, feita pelo artista. Outra obra, A Última Ceia, de Dieric Bouts, mostra a idéia da construção por janelas. Pintada entre 1464 e 1468, apresenta todos os elementos desenhados de frente, separadamente, e depois colados ao quadro final. Alguns modelos nitidamente foram utilizados mais de uma vez.

Em algum momento do século 16, as lentes convencionais adquiriram tamanho e qualidade suficientes para substituir o espelho côncavo, trazendo a grande vantagem de um campo de visão mais amplo. Caravaggio é o mestre dessa transição e a história documenta espelhos em meio aos pertences do mestre italiano. Além disso, Caravaggio tinha como patrono o cardeal Del Monte, notável conhecedor de assuntos ópticos (chegou a orientar Galileu sobre o aperfeiçoamento do telescópio).

Hockney acredita que, por volta de 1590, Caravaggio recebeu sua primeira lente do cardeal. Ao contrário da lente-espelho, a lente convencional produz imagens invertidas. Não é estranho, portanto, que começassem a aparecer canhotos nas obras dos artistas. Homens erguendo seus copos e suas espadas com a mão esquerda. Para Hockney, um claro sinal do uso das lentes invertendo as imagens.

A luz desempenha um papel muito importante para os efeitos ópticos. Nas obras de Caravaggio e depois nas do espanhol Velázquez, e em muitos outros artistas, Hockney observa como a iluminação é forte e claramente artificial. Os ambientes retratados são escuros. Aposentos com as janelas fechadas recebem iluminação de uma única fonte, cuidadosamente montada de acordo com a cena a ser retratada. Mais do que uma fonte de luz, uma necessidade para que os fenômenos ópticos pudessem ser utilizados pelos artistas.

Mestres são mestres

Ainda que suas pesquisas apontem para o uso de artifícios ópticos, Hockney não tem dúvida em afirmar que isso não tira a qualidade de mestres como Ingres, Caravaggio, Velázquez e outros artistas. “A óptica não faz as marcas no papel, apenas produz uma imagem, uma aparência, um meio de medida. É preciso grande habilidade técnica para transformar a imagem em tinta”, escreveu Hockney. E não é só isso, claro. Há um desenvolvimento das técnicas, dos materiais e dos processos de produção das obras de arte que certamente contribuíram, e muito, para que artistas alcançassem seus resultados.

O ano de 1839 trouxe uma nova mudança para a arte. A imagem produzida por uma lente poderia ser fixada por meio de um processo químico. Embora restrita aos mais abastados, a fotografia suprimiu a necessidade da mão do artista para representar o mundo real. Como competir com a exatidão daquela imagem? Não por coincidência, surgiu a pintura de vanguarda, para mostrar além do que a nova lente podia revelar. Manet, Cézanne e Van Gogh buscaram representar o real por meio do sentimento. Os cubistas desconstruíram a imagem real. A desarmonia retornou e os artistas passaram a oferecer um modo alternativo para o olhar.

Não por acaso, um retrato pintado por Van Gogh em 1889 encerra o mural de Hockney. Impossível não notar as semelhanças com a primeira figura do mural, o detalhe de um mosaico bizantino na catedral de Cefalù (na Sicília, Itália), feito por volta de 1150. A mão livre do artista está novamente presente, retomando seu lugar na história da arte.

 

Uma velha conhecida dos artistas

A câmara escura, que o filósofo grego descreveu já no século 4 a.C., nada mais é do que um compartimento fechado (como uma caixa ou um quarto) com um pequeno orifício em um de seus lados. Quando os raios de luz entram por esse buraco, eles produzem no lado oposto uma projeção invertida da imagem exterior. Para tirar proveito desse fenômeno óptico, segundo o inglês David Hockney, alguns artistas usaram um quarto como uma grande câmara escura e, aos poucos, foram aperfeiçoando o método com o uso de lentes e espelhos:

1. Sem nenhuma iluminação interna, o quarto possui um orifício em uma das paredes por onde entra a luminosidade externa. A imagem do ambiente externo (iluminado) é refletida na parede interna do quarto, do lado oposto do orifício. A imagem que aparece é invertida e de ponta-cabeça e não tem posição exata de foco. O fenômeno não seria suficiente para atrair, sozinho, a atenção de quem buscava retratar a realidade.

2. O uso de uma lente no orifício de entrada da luz e a imagem refletida em uma tela móvel (e não mais na parede oposta) permite conseguir uma figura muito mais nítida. As imagens começam a ganhar volume e contornos bem mais realistas. Objetos curvos e esféricos são representados com detalhada semelhança.

3. Mais tarde, os artistas descobrem que, refletindo a imagem em um espelho antes de chegar à tela, ainda surge uma imagem de ponta-cabeça, porém não mais invertida. Aproximando ou afastando o espelho da tela o pintor alcança um foco bem definido. Os artistas obtêm resultados quase fotográficos. Os que desconhecem a técnica precisam rapidamente aprendê-la, já que os clientes passam a exigirser retratados com precisão e fidelidade.

 

Saiba mais

LIVRO

O Conhecimento Secreto

David Hockney, Cosac & Naify, 2001.

Explica como artistas do porte de Caravaggio, Velázquez e Van Eyck usaram espelhos e lentes para ajudá-los na criação de suas obras-primas.