Houaiss: Homem de palavra

O dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o mais completo do Brasil, levou anos para ser terminado eocupou 140 pessoas em sua produção. A obra foi frutoda dedicação e do brilhantismo de Antônio Houaiss

Luís Augusto Fischer Publicado em 01/10/2005, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
Aventuras na História - Arquivo Aventuras

A tarefa foi enorme, descomunal, insana. Em 2000, após 15 anos, os 140 especialistas de diversas nacionalidades – brasileiros, portugueses, angolanos e timorenses – chegaram ao fim de seu trabalho. Com 228500 verbetes, 380 mil definições, 61 milhões de caracteres e 3008 páginas, estava pronto um livro de 3,8 quilos e acabamento impecável. Poucos intelectuais, em qualquer língua e tempo, estão aptos a capitanear um esforço incomum desses. Antônio Houaiss, considerado o maior filólogo da língua portuguesa do século 20, foi o sujeito em questão – embora tenha morrido em 1999, sem ver a conclusão da obra de sua vida.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, porém, pôde chegar às prateleiras graças ao também filólogo Mauro de Salles Villar, sobrinho e parceiro de Houaiss na empreitada, e a um manual de redação de 100 páginas, que havia sido preparado pelo intelectual no decorrer do trabalho. Uma luta, aliás, que já costuma começar em desvantagem: com a letra A, a mais extensa e complexa. Para evitar o estresse, a equipe iniciou os trabalhos pela letra B, passou à D para só finalmente chegar à A, já com a engrenagem azeitada.

Antônio Houaiss era o candidato perfeito a dicionarista. De temperamento metódico e formação técnica de perito-contador, começou a trabalhar como professor de Português e Latim aos 18 anos – era também um (rigoroso) revisor de textos. Mais tarde, diplomata de carreira, ocupou o cargo de documentador da Presidência da República, publicando 83 volumes com o material que ordenava. Cassado após o golpe de 1964 por conta de seu posicionamento de esquerda (ele voltaria à política no governo Itamar, como ministro da Cultura), precisou dar uma reviravolta na vida. Passou os vinte e tantos anos seguintes como redator e coordenador de dicionários e enciclopédias, como A Grande Enciclopédia Delta-Larousse e a Enciclopédia Mirador Internacional.

Nascido em 1915 numa Copacabana ainda selvagem, entre sete filhos de uma família de pais libaneses, Antônio Houaiss viveu no Rio de Janeiro num tempo em que a cidade aliava o cosmopolitismo de capital do País a uma vida cultural respeitável. Foi aluno, nos anos 1930, de Joaquim Matoso Câmara Júnior, o primeiro grande lingüista moderno do País, e conheceu Antenor Nascentes, autor de um bom dicionário brasileiro. O cenário era realmente favorável a um temperamento como o de Houaiss, envolvido com línguas estrangeiras desde a infância e possuidor de uma reconhecida capacidade técnica de elaborar pesquisas sobre história da língua portuguesa, estudos de lingüística e traduções (entre as quais figura a proeza de traduzir, em apenas nove meses, o monolítico romance Ulisses, do vanguardista irlandês James Joyce). “Ele não olhava as palavras com essa maneira particular dos poetas ou dos escritores”, diz o etimologista Cláudio Moreno. “Olhava-as como um entomólogo olha os insetos, com aquele mesmo olhar classificatório, organizatório, quase obsessivo, que prenuncia o lexicógrafo.”(Houaiss, página 1 750: “aquele que pratica a lexicografia; dicionarista”.)

Antônio Houaiss é o elo mais recente numa sucessão de dicionaristas de nosso idioma. O primeiro foi o padre português Rafael Bluteau (1638-1734), que, num país acanhado intelectualmente, levou a cabo oito volumes do Vocabulário Português e Latino. O pioneiro no Brasil foi Antônio de Morais Silva (1755-1824), que concluiu o Dicionário da Língua Portuguesa em 1789. Depois veio Francisco Júlio Caldas Aulete (1823-1878), morto três anos antes de saírem os dois volumes do Dicionário Contemporâneo da Língua Portuguesa.

Durante o período de vida de Houaiss, vários outros dicionários vieram a público, entre os quais o Grande e Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, de Laudelino Freire (1873-1937), e o Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, de Antenor Nascentes (1886-1972). O mais célebre foi lançado em 1975: o Novo Dicionário da Língua Portuguesa, que viria a ser conhecido pelo primeiro nome do autor, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989). Foi, por décadas, considerado o melhor dicionário do Brasil – até a chegada do Houaiss.

É bom que se diga: entre os dicionaristas, as coisas nem sempre se passam como se fossem todos amigos. Os leigos que consultam dicionários certamente não sabem, mas por trás dos verbetes há intrigas e disputas, às vezes pesadas. Briga-se muito por diferenças de concepção, mas também por pura e simples vaidade, o que talvez seja compreensível. Se não tiver um sólido senso de realidade, um dicionarista imerso no trabalho pode acabar se considerando “dono” das palavras. Talvez por serem obras tão pessoais, os grandes dicionários acabam sendo conhecidos pelo próprio nome de quem o escreveu.

A chegada do Aurélio – que já vendeu mais de 45 milhões de cópias – alterou o panorama da produção de dicionários no Brasil, que chegavam a ser quase cópias uns dos outros. Desde sua primeira edição, deixou claro que era mais arejado que os anteriores. Por um lado, mantinha a tradição de seriedade no trato da etimologia (Houaiss, página 1 271: “estudo da origem e da evolução das palavras”). Por outro, acolhia criteriosamente estrangeirismos e neologismos. O dicionário parecia ter tirado o terno e a gravata, transformando-se num auxiliar relevante para os tempos recentes. O que combinava com seu autor, profundo conhecedor da língua e da literatura da língua portuguesa, um experiente operador do idioma no Brasil. Mas o Aurélio, mesmo sendo muito bom, era ainda fruto de uma concepção amadora, digamos assim. No fundo, o autor tinha feito o mesmo dicionário que sempre se fez em português, apenas atualizado. Tinha relativamente pouco rigor no trato científico com raízes, étimos, partículas formadoras das palavras de nosso idioma. Conta total (considerando a terceira edição): 160 mil verbetes.

Boa hora para perguntar: que diferenças há entre o Houaiss e os dicionários anteriores de nossa língua? Para começo de conversa, o Houaiss alcançou a notável cifra de 228 500 unidades léxicas. Tudo bem, não é muito comparado às mais de 615 mil do dicionário dos dicionários no Ocidente, o Oxford English Dictionary, que levou 70 anos para ganhar a primeira edição, em 1928. Mas são 68 500 verbetes a mais do que o Aurélio e 28 500 a mais que o Michaelis Dicionário da Língua Portuguesa.

Houaiss, aliás, sabia de suas limitações, mas também das potencialidades do português. O Oxford foi para ele uma referência, talvez especialmente na datação (Houaiss, página 911: “indicação da data (...) em que uma palavra (...) aparece pela primeira vez documentada por escrito”). Aqui está uma outra diferença significativa entre o dicionário Houaiss e os anteriores: ele traz sistematicamente essas datas, num trabalho que complementa a etimologia e acolhe, na história documentada da palavra, as origens e até os significados que já existiram, mas se perderam. Um dicionário de cultura exigente serve também para isso: esclarecer sobre sentidos que a língua deixou para trás, mas que de vez em quando reaparecem, ou na leitura de um texto antigo, ou na revalorização feita por alguém no presente.

Para atingir aquele impressionante número de verbetes, o dicionarista precisou abrir mão da abonação (Houaiss, página 23: “trecho de livro ou escrito qualquer que serve para autorizar o emprego de um vocábulo (...) na língua”). O uso de citações e referências aumentaria a obra em quase 20%. De acordo com o plano original , deveria haver um segundo volume (que nunca saiu) dedicado apenas a esse universo, que liga o dicionário, coleção de palavras isoladas, à literatura e à cultura, área em que as palavras se encontram. Esta intenção demonstra o esforço que Houaiss fez para definir os termos com rigor, superando a mera citação de sinônimos.

O perfeccionismo fazia parte do dia-a-dia de quem trabalhou com o filólogo. “O ambiente, apesar de amistoso, era de muito silêncio, muita concentração”, diz o escritor Alberto Mussa, que colaborou na fase inicial. Sim, houve uma interrupção: o trabalho começou em 1986 (quando Houaiss tinha 70 anos) e parou em 1992, por falta de patrocínio durante o governo Collor. O reinício se deu cinco anos depois. Publicado em 2001, em papel e em CD, o Houaiss ganhou o lugar de destaque que merece e colocou a língua portuguesa num patamar superior de descrição.

 

Dicionário do dicionário

Entenda o que queremdizer aquelas abreviações

Aventura s.f.(sXIII cf. IVPM) circunstancia ou lance acidental, inesperado; peripécia, incidente (as a; de um andarilho) 2 empresa de desfecho incerto, que incorre um risco, em perigo (percorrer as montanhas do Nepal foi um grande a) 3 conjunto de fatores um acontecimento ou um fim qualquer; contingência, eventualidade (são a, de sorte) 4 relacionamento amoroso passageiro 5 - façanha de cavaleiro ou cavalaria ÉTIM FR, aventure (sXI) o que vai acontecer a alguém; do lar, vulg, adventure pl, neutro substv, do part, futuro, reinterpertado como fem. sing, do V,AL. adventre Chegar, sobrevir; ver-vir, F.hist, sXIII aventura , sXIV uentarya, sXV avemtuira , SIN/VAR ver sinonímia destida , HOM aventura (fl, aventura).

S.F - Substantivo feminino

sXII - Data da primeira ocorrência escrita conhecida (século 13)

IVPM - Confira/IVPM - a fonte dessa datação (neste caso, é o indice do vocabulário do Português Medieval, de Antonio Geraldo da Cunha)

1 - As diversas significações

a - nos parênteses a palavra aventura está referida apenas pela sua inicial .

ETIM - etimologia, isto é a origem da palavra

Fr - Francês, lingua francesa

lat - Latim

V - verbo

HOM - Homônimo (isto é, palavra de igual formato mas diferente significado)

f.hist - Forma Histórica (são citadas as formas que a palavra teve ao longo do tempo)

ANT - antônimos

SIN/VAR - sinônimos e variantes

FL - flexão

 

Saiba mais

Livro

Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Instituto Antônio Houaiss, Objetiva, 2001 - R$ 340