Irã: o próximo alvo

Militares e assessores próximos do presidente George W. Bush já dão como certo - e necessário - um ataque dos Estados Unidos ao Irã. Pretexto: o mesmo de sempre

Beto Gomes Publicado em 01/11/2007, às 00h00 - Atualizado em 23/10/2017, às 16h36

Aventuras na História
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A relação conturbada entre os Estados Unidos e o Irã aumentou o movimento nos corredores da Casa Branca. Já faz quase 30 anos que os dois países alimentam um clima de hostilidade recíproca, mas, desde 2006, a situação vem se desgastando rapidamente. O motivo soa bastante familiar para quem acompanha, mesmo que superficialmente, o conflito que os americanos conduzem no Iraque. Ali mesmo, no Oriente Médio, o vizinho Irã tira o sono de muita gente com seu programa de enriquecimento de urânio. O maior temor dos Estados Unidos e seus aliados é que o país do presidente Mahmud Ahmadinejad desenvolva armas nucleares e coloque em risco a já bagunçada ordem mundial. Mas essa não é a única razão. Oficiais americanos no front iraquiano relatam que os iranianos fornecem armas e munições para as facções rebeldes e propagam o sentimento antiamericano na população local. Especialistas da CIA e do Pentágono alardeiam para o presidente George W. Bush que o Irã fomenta também o terrorismo mundo afora e é hoje a grande ameaça a seu país. Alguns conselheiros de Bush vão ainda mais longe: comparam Ahmadinejad a Hitler, argumentando que o mundo deu de ombros para o nazismo no início e, depois, acabou pagando um preço alto para detê-lo. Outros falam abertamente que o presidente iraniano tem planos ambiciosos e expansionistas de conquistar toda a região, sustentados pelo desenvolvimento de armas nucleares.

A rigor, qualquer um desses motivos, sozinho, já seria suficiente para Bush atropelar as negociações diplomáticas em curso e dar a ordem para um ataque à terra dos aiatolás. Idéia que ele não faz muita questão de esconder e vem ganhando força nas páginas da imprensa internacional. Em recente artigo publicado na revista New Yorker, o premiado jornalista Seymour Hersh cita uma série de fontes do alto escalão americano, muitas delas ligadas a Bush, que acreditam que o ataque é inevitável. E, para parte delas, necessário. Do outro lado, os iranianos afirmam que seu programa nuclear tem fins pacíficos e evocam o direito inalienável de desenvolverem esse tipo de tecnologia, obviamente dentro dos termos do Tratado de Não-Proliferação Nuclear. Por enquanto, eles contam com a ajuda do egípcio Mohamed ElBaradei, diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), ligada à ONU, incumbido de acompanhar o andamento do programa e inspecionar as instalações nucleares do Irã.

Acusado pelos Estados Unidos de ser leniente com os propósitos iranianos, ElBaradei declarou em outubro passado que o Irã levaria de três a oito anos para poder desenvolver uma bomba nuclear. E acrescentou que o prazo para discutir e apresentar sua avaliação sobre o programa nuclear às potências ocidentais poderia ser estendido. “Quero tirar das pessoas a idéia de que o Irã será uma ameaça amanhã. Não é essa a situação. O Iraque é um exemplo de que recorrer à força exacerba o problema”, disse ele em entrevista ao jornal francês Le Monde. “Não falaremos em uso da força enquanto todos os meios da diplomacia não tiverem sido esgotados, e ainda temos muito tempo para usar todas as ferramentas diplomáticas”, afirma ElBaradei, ganhador do Prêmio Nobel da Paz em 2005, juntamente com a AIEA.

Questão de tempo?

O histórico recente dos conflitos envolvendo os Estados Unidos, no entanto, mostra que um eventual ataque ao Irã só depende mesmo da vontade do governo Bush. E pelos conselhos que ele vem recebendo de seus assessores, a nova investida militar americana no Oriente Médio é apenas uma questão de tempo. “Há um estado de animosidade e os indícios de um ataque estão ganhando força. O ex-secretário de Segurança Nacional do governo Jimmy Carter (Zbigniew Brzezinski) é uma pessoa até hoje muito ouvida nos Estados Unidos – e ele acredita que haverá uma guerra contra o Irã”, diz Reginaldo Nasser, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-SP.

Brzezinski não é o único. O conservador Norman Podhoretz, o mesmo que comparou Ahmadinejad a Hitler, encontrou-se com Bush recentemente. Em entrevista ao site politico.com, ele disse que encorajou o presidente a adotar uma campanha militar contra o Irã e acredita que Bush seguirá seu conselho antes do que se imagina. Influência ele tem. Podhoretz é um dos homens-fortes da campanha presidencial do ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani, republicano como Bush.

Os argumentos não estão apenas no plano político. Entre militares e especialistas em estratégia, o desejo de um conflito é praticamente o mesmo. O que muda são os argumentos. O general David Petraeus, comandante das forças multinacionais no Iraque, demonstrou apoio à política contra o Irã em seu relatório enviado ao Congresso americano em setembro passado. “A participação iraniana no conflito do Iraque é consenso inclusive entre os líderes daqui. O Irã está lutando uma ‘guerra por procuração’ contra as forças do Estado iraquiano e de coalizão”, escreveu Petraeus. De fato, o apoio da terra dos aiatolás a grupos do país vizinho aconteceu em vários momentos. Durante o governo de Saddam Hussein, quando os xiitas eram perseguidos pelo exército do ditador, muitas facções receberam armas, munição e suprimentos dos iranianos. Mas não é certo que as armas tenham vindo do Iraque, local onde o mercado negro lucra alto com o contrabando. Em entrevista à New Yorker, o ex-consultor da CIA e atual inspetor-chefe de armamentos das Nações Unidas no Iraque, David Kay, disse que parece de fato haver um contrabando seletivo praticado pelo governo de Ahmadinejad. “Mas isso é muito mais uma resposta à pressão e à ameaça dos americanos, para deixar claro a Washington que eles não sairão de lá tão facilmente”. Ele conclui: “O Irã não está fornecendo o melhor de seu arsenal, que são os mísseis antiaéreos e armas antitanque”.

Do outro lado da fronteira, Ahmadinejad dispara palavras em tom desafiador. Durante discurso na Assembléia das Nações Unidas, em plena Nova York, o presidente do Irã chamou os americanos de agressores e emendou: “Como podem os incompetentes que não conseguem controlar nem a si mesmos regular a humanidade a definir seus interesses? Infelizmente, eles se colocaram na posição de Deus”. Depois, em resposta às novas sanções econômicas impostas ao Irã, Ahmadinejad declarou que o programa nuclear de seu país era um assunto que competia apenas à AIEA. E que, para ele, o caso estava encerrado. Será?

Ataque cirúrgico

Uma das principais evidências de um ataque americano ao Irã é o aumento do contingente e da autoridade concedida ao Grupo de Operações Iranianas, divisão especial da CIA voltada exclusivamente para as questões do país do Oriente Médio. Seymour Hersh, da New Yorker, conta que um ex-oficial da agência lhe disse que, desde o último verão nos Estados Unidos, muitos agentes foram deslocados para o grupo, da mesma forma como aconteceu com o Grupo Especial do Iraque, em 2002, meses antes da invasão daquele país. Generais e almirantes do Pentágono também foram mobilizados.

De acordo com Hersh, os militares acreditam que um eventual ataque teria como alegação principal o contraterrorismo. Por isso, seria uma ação rápida, pontual e impiedosa. A estratégia incluiria o lançamento de mísseis a partir de bases navais no Golfo Pérsico, ações por terra mais precisas e bombardeios aéreos. Alvos: os campos mais avançados da Guarda Revolucionária do Irã (a força de elite local), depósitos de munições e outros pontos militares estratégicos. Instalações nucleares também não seriam poupadas. O plano já teria sido inclusive apresentado para os países aliados, que fizeram pequenas modificações em comum acordo com os americanos.

Rússia, a fiel da balança

Se um ataque dos Estados Unidos ao Irã parece iminente, segundo alguns, os americanos também têm motivos de sobra para evitar a ação militar. Reginaldo Nasser, coordenador do curso de Relações Internacionais da PUC-SP, lista alguns. O primeiro: “Especialistas militares e políticos afirmam que os Estados Unidos não têm condições, em termos de contingente e armamentos, de sustentar duas guerras desse porte ao mesmo tempo”. O segundo ponto, mais importante, é a recente visita do presidente russo, Vladimir Putin, ao Irã. Em outubro, o líder da Rússia encontrou-se com Ahmadinejad – foi o primeiro presidente russo a visitar o Irã depois de Joseph Stalin, em 1943 – e declarou ser inaceitável uma ação militar na região. Bush reagiu, dizendo que se os países quiserem evitar a Terceira Guerra Mundial devem combater o programa nuclear iraniano.

Mas Putin tem outros interesses. As reservas de gás do Mar Cáspio unem as nações da região – além de Rússia e Irã, o grupo inclui Azerbaijão, Cazaquistão e Turcomenistão. “Cerca de 50% do gás produzido no mundo está ali. A Rússia é hoje um grande exportador para a Europa e Putin deu um recado muito claro para os Estados Unidos na parte de energia”, diz Nasser. “A Rússia também está desenvolvendo novos armamentos. Há um novo modelo de guerra fria começando, mas é preciso saber até que ponto os Estados Unidos vão para o combate. E até que ponto a Rússia vai confrontá-los.”

 

Para saber mais

SITE

www.newyorker.com

A revista americana traz vários artigos sobre uma possível ação militar americana contra o Irã